50 anos do golpe militar na Argentina

Julio Cortázar: vigiado, perseguido e proibido

O escritor que a ditadura militar argentina tentou apagar.

Foto: Julio Cortázar durante os anos 1970 (Reprodução).


Durante a ditadura militar argentina (1976-1983), Julio Cortázar foi perseguido e teve a circulação de seus livros proibida no país. Para os militares, Cortázar não era apenas um escritor, era um militante perigoso.

Em 1975, um ano antes do golpe, o nome de Cortázar já figurava nos arquivos da DIPPBA (Direção de Inteligência da Polícia de Buenos Aires), órgão que atuava na espionagem política e repressão ideológica. Naquele mesmo ano era formalizada a Operação Condor, a aliança entre as ditaduras do Cone Sul (Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai) para coordenar o sequestro, tortura, assassinato e desaparecimento de militantes políticos que faziam oposição, armada ou não, aos regimes militares da região.

No dossiê nº 3178 da DIPPBA, a ficha do escritor continha dados básicos (Florencio, o segundo nome de Cortázar, escrito à mão), e uma observação fatal para o regime: a ligação do escritor argentino com a “Habeas”, organização fundada por Gabriel García Márquez para defender prisioneiros políticos. Na época, Cortázar vivia na França há 24 anos e já utilizava seu prestígio internacional para denunciar o terror militar que avançava na América Latina.

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Ficha de Julio Cortázar nos arquivos da DIPPBA (Direção de Inteligência da Polícia de Buenos Aires), órgão que atuava na espionagem política e repressão ideológica, 1975.

Instalada a ditadura militar, a partir de 1976, passou a ser utilizada pelos órgãos de repressão uma classificação de “periculosidade ideológica” dividida em quatro níveis. O nível Fórmula 4 (F4) era reservado aos “piores e mais perigosos” aos olhos da junta: aqueles com antecedentes marxistas confirmados. A partir daí, o nome de Cortázar surge em três listas de artistas, intelectuais e jornalistas classificados como F4 e considerados perigosos pela Junta Militar argentina.

A primeira lista, datada de 6 de abril de 1979, contém 12 páginas e 285 nomes, todos classificados como F4. Além de Cortázar, aparece, na mesma lista, o nome de Tomás Eloy Martínez. A segunda lista, datada de 31 de janeiro de 1980, inclui mais pessoas e cresce para 331 nomes, dentre eles o de María Elena Walsh. Nela são incluídas recomendações como “los antecedentes son para conocimiento exclusivo del destinatario y/o de quien correspondiere por razones de cargo”, “no deben ser divulgados al causante o terceros”, “no deben ser copiados” e “deben ser incinerados”.

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A primeira lista, datada de 6 de abril de 1979, contém 12 páginas e 285 nomes, todos classificados como F4
A segunda lista, datada de 31 de janeiro de 1980, inclui mais pessoas e cresce para 331 nomes

Na terceira lista, datada de 21 de setembro de 1982, fase final do regime, lista considerada “estrictamente secreta”, é recomendado “normalizar la situación de dichas personas en forma gradual y armónica”. A lista é dividida em quatro grupos: Prioridade 1: 41 pessoas que poderiam sair da lista no final de 1982; Prioridade 2: 60 personas que poderiam sair da lista no primeiro semestre de 1983; Prioridade 3: 52 pessoas que sairiam da lista no segundo semestre de 1983. Outras 46 continuavam com seus nomes na lista. Dentre elas, Julio Florencio Cortázar, que permanece entre aqueles que não deveriam, de forma alguma, ser anistiados.

A ditadura militar argentina censurou uma ampla gama de escritores, intelectuais e literatura infantil, qualificando suas obras como “subversivas”. Entre os autores mais perseguidos e proibidos estavam Cortázar, Rodolfo Walsh, Elsa Bornemann, Griselda Gambaro, Laura Devetach e María Elena Walsh.

Assim, os livros de Cortázar, proibidos de circular na Argentina, ficaram escondidos de forma clandestina em algumas livrarias ou foram queimados: a queima de livros havia se tornado uma prática recorrente das ditaduras por serem considerados como “material subversivo peligroso”.

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Orientação para que os documentos não fossem divulgados nem copiados, e que deveriam ser incinerados.

Reza a lenda que a Aliança Anticomunista Argentina (Alianza Anticomunista Argentina, mais conhecida como Triple A ou AAA), esquadrão da morte de extrema direita que atuou na Argentina entre 1973 e 1976 e foi responsável pelo assassinato de centenas de estudantes, artistas, intelectuais, ativistas e políticos de esquerda, guardava uma bala com o nome de Cortázar.

Mesmo vivendo em Paris, o autor de O Jogo da Amarelinha era considerado um inimigo público pelo regime militar. Como escritor, fez mais, não só em seus textos, mas em sua atuação, que muitos outros que o criticaram – e continuam criticando -, inclusive na Argentina,por  viver em Paris e defender causas latino-americanas, como a Revolução Cubana e o Sandinismo.

Em uma entrevista, o escritor que nunca deixou de se manifestar contra as atrocidades cometidas pelas ditaduras militares na América Latina, faz um
diagnóstico preciso sobre os mecanismos de controle das ditaduras militares: sem acesso à cultura, à ciência e à arte, a sociedade torna-se um terreno propício à manipulação ideológica.

“O que é terrível é o exílio cultural [muito mais do que o exílio físico], o fato de a Junta de Videla na Argentina ter proibido a publicação do meu último livro de contos, porque nesse livro havia dois contos que os incomodavam; isso significa um exílio cultural. Ou seja, 22 milhões de compatriotas viram-se privados de me ler (…) Sinto que esse exílio é terrível porque, em poucos anos, o fato de esses países  –   Chile, Argentina ou Uruguai  –   estarem separados da produção científica, artística e intelectual de seus melhores criadores vai resultar nesses países em uma espécie de deserto espiritual, onde é perfeitamente fácil lavar os cérebros, condicionar os jovens e criar os regimes que esses países buscam, que é criar robôs. Criar gente incapaz de pensar por si mesma.”

Cortázar , que morreu em 1984, teve a chance de retornar à Argentina em 1983, ano que marca o fim da ditadura, com a eleição de Raúl Alfonsín.

Não tiveram a mesma sorte:

Rodolfo Walsh, jornalista e escritor sequestrado pela ditadura militar no dia 25 de março de 1977, poucas horas depois de escrever a Carta Aberta de um Escritor à Junta Militar;

Haroldo Conti, professor e escritor sequestrado e desaparecido no dia 5 de maio de 1976;

Héctor Oesterheld, criador de O eternauta, sequestrado com suas quatro filhas (Beatriz, Diana, Marina e Estela), duas delas grávidas, no dia 27 de abril de 1977;

Francisco “Paco” Urondo, jornalista e escritor assassinado no dia 17 de junho de 1976.

E tantos outros.

Para saber mais:

Acesse o site da Comissão da Verdade (Argentina)
Arquivos Abertos (Argentina)
Matéria da FFLCH/USP