Crônica

Leio o mar, crônica de Renan Messias

Descobri que amo o mar na sua amplitude simbólica. Na preservação daquilo que mais me grita: o silêncio que irrompe com o som das ondas; a linha do horizonte que se perde; a vida que se reproduz de forma, por vezes, inimaginável.

Capa: Quebra-mar, de Joaquín Sorolla, 1918/ Reprodução.


Uma das memórias mais antigas que tenho é de quando fazia natação com o meu avô. Eu não devia ter mais do que cinco anos. Lembro-me, até hoje, do lugar, de estar com ele; parecia-me um pouco escuro, mas talvez seja o tempo que vai escurecendo as coisas.

Não consigo explicar essa recordação tão antiga, tão miúda. Geralmente, colocamos o peso em Freud para ler aquilo que não conseguimos explicar. Coitado.

Nas aulas de geografia, aprendemos que o clima, entre tantas outras variáveis, está condicionado, também, à continentalidade e à maritimidade. A primeira diz respeito à influência do continente sobre o tempo. Leio assim: a terra, longe das águas do mar, aquece o dia inteiro com o sol a rachar-lhe as entranhas; a temperatura se mantém elevada durante o dia e cai bruscamente à noite, pois não há uma cobertura que a proteja. Já a maritimidade é a influência do mar, que, tendo a água como abrigo, mantém temperaturas mais estáveis ao longo do dia e da noite. Chamamos isso de amplitude térmica: no interior, longe do mar, ela é maior do que nas zonas marítimas.

Minha mãe é muito adepta de construir um castelo de cobertores no inverno, a ponto de ficar praticamente imóvel durante toda a noite. Numa aula de física aprendi, tardiamente, que não é o cobertor que gera calor; ele serve, na verdade, para impedir que o calor do corpo se disperse, mantendo-o por perto. Na época, quis logo partilhar a descoberta com ela, mas não surtiu grande efeito. Ela continua erguendo seu castelo de cobertores para se aquecer e se aconchegar.

Nasci no interior, a quilômetros da praia, a muitas horas de estrada até ao mar. Nunca consegui explicar que não gosto do mar e, ao mesmo tempo, amo o mar. Fiz até meu mapa astral geográfico para tentar entender isso e percebi, como imaginava, que dois dos lugares que mais me fascinam, e que me chamam, mesmo vistos apenas pela tela, são ilhas.

Descobri que amo o mar na sua amplitude simbólica. Na preservação daquilo que mais me grita: o silêncio que irrompe com o som das ondas; a linha do horizonte que se perde; a vida que se reproduz de forma, por vezes, inimagináveis; o azul que, em suas diferentes tonalidades (e gosto de todas) colore a paisagem. Descobri, lendo Faina, de Marta Pais Oliveira, que o espaço que se cria na praia é exatamente aquele de que gosto. No romance da autora portuguesa, acompanhamos o cotidiano de uma vila de pescadores em Espinho, no início do século XX. São vidas que fazem sentido por causa do mar e que, quando tentamos reduzir o mar àquilo que temos feito dele, neste antropoceno, tornam-se exatamente aquilo de que não gosto. Se gosto do silêncio, da solidão, do olhar distante e da maresia fria que enfrenta o meu corpo, isso pressupõe também aquilo de que não gosto.

“O mar não se mete dentro dum tanque” (p. 154). E, ainda que, com o passar dos anos, tentem cada vez mais controlá-lo, tento manter o mesmo olhar daquela criança que fazia aulas de natação com o avô, aos cinco anos.

Leio Raul Brandão, Ramalho Ortigão, Marta Pais Oliveira, Djaimilia Pereira de Almeida, Pedro Almeida Maia, Vitorino Nemésio, Sophia de Mello Breyner Andresen, Pessoa e Camões. Cada um tem o seu mar, mas é justamente esse, o da poesia, que sempre me atrai: o que finca meus pés na areia e lança o meu olhar ao horizonte com sentido, ou melhor, em busca do leme que lê aquilo que sinto e desejo.

Talvez seja por isso que o mar, a literatura e até o castelo de cobertores da minha mãe falem, no fundo, da mesma coisa: da necessidade de abrigo diante da amplitude do mundo. No interior, a temperatura oscila demais; no mar, ela se mantém. O cobertor não cria calor, mas conserva aquilo que já é nosso, como a literatura, que impede que os sentidos se dispersem. Um mar que não se deixa conter, uma página que acolhe, um horizonte onde a vida, mesmo exposta, encontra forma de permanecer.

Em Faina essa lógica se inverte de forma luminosa na figura da Senhora da Fábrica. Em vez de sucumbir diante do avanço da modernidade e da ânsia de controle que ela impõe, é o mar que a navega. Ao longo do romance, ela aprende que resistir é ceder ao ritmo que não se governa. “Querer controlar tudo é o princípio do descontrolo. Tenho aprendido a dança do vai e vem, como as ondas. Vaivém, vaivém” (p. 358). O mar ensina que permanecer exige movimento, que sobreviver passa por aceitar a oscilação, tal qual a temperatura que se equilibra junto à água, como o calor que o cobertor apenas guarda, e a literatura que nos abriga sem nos fixar.

Olho novamente para o meu mapa astral e sonho um dia estar nessas linhas que desenharam, exatamente no instante do meu nascimento, os lugares onde eu poderia ser infinito como o oceano. Talvez um dia eu consiga estar, então, nos Açores ou nas Ilhas Faroé.

Renan Messias é doutorando em Estudos de Literatura (PPGLit – UFSCar) com período sanduíche na Universidade Católica Portuguesa (UCP), campus Braga. É autor de Personagem (Hope, 2020), As Pegadas de Joana (Hope, 2020), Violenta[da] terra (Hope, 2022), Ervas daninhas (Patuá, 2024), e Comida para porcos (Patuá, 2025). É membro do GELPA – Grupo de Estudos Literários Portugueses e Africanos (UFSCar), também do Grupo de Pesquisa CEILI – figurações estéticas do contingente, do excêntrico e do indizível na literatura (UFSCar) e do GENFIP – Grupo de Estudos Sobre a Novíssima Ficção Portuguesa (UFSCar). É pesquisador bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).