Crítica

Entre deboches, odes e gozo: ‘Memorando: Maximin’, de Ricardo Domeneck

Em Memorando: Maximin (Editora Ercolano), Ricardo Domeneck confirma a força de sua produção literária. Sua escrita mantém o vigor, brinca com as palavras e com associações inesperadas.

Foto: Paul Mecky.


I

Escrevo esta crítica ouvindo, ao fundo, a playlist elaborada pelo autor, Ricardo Domeneck, para Memorando: Maximin e divulgada recentemente pela Editora Ercolano, casa editorial que publicou a obra e na qual Domeneck também organizou a antologia Homem com homem: poesia homoerótica brasileira no século XXI, com poemas homoeróticos. A seleção musical funciona como extensão do projeto estético da obra. Um de seus pontos altos é perceber como o tema do amor – e, de algum modo, o aprendizado que a vida nos ensina ao nos relacionarmos com o outro e conosco mesmos – está costurado nas letras das canções.

Entre as músicas contidas nesta seleção está Mystery of Love, do cantor americano Sufjan Stevens, que integra a trilha do filme Me chame pelo seu nome, dirigido por Luca Guadagnino. Um filme que me afeta muito – assisti a ele algumas vezes no cinema e chorei em todas. A canção, assim como as demais na playlist, parece abrir caminhos de compreensão em diálogo com a obra do Domeneck aqui analisada: retrata a rememoração de um grande amor e a tentativa de colocá-lo em palavras – ou melhor, em poesia –, esse amor entre homens que abala estruturas e questiona concepções de si.

Constrói-se, tanto na música quanto no livro, um movimento de comparação com homens de outros tempos, seus feitos, seus amores, e sobretudo com Deus – aquele que detém as respostas para os mistérios do amor e a quem o sujeito lírico recorre. Essa evocação dialoga com a ideia do primeiro amor avassalador, aproximando o filme da obra aqui analisada.

É difícil – talvez impossível – ser um homem gay e não se sentir afetado por esses temas. Amores avassaladores rememorados em noites solitárias. O encanto por corpos masculinos. Lembro de uma conversa com minha mãe – evocada pela leitura do livro – na qual, ao comentar minha idade (mais de 30 anos) e minhas relações afetivas, ela perguntou: “E se não surgir ninguém? Você está virando uma maricona, vai fazer o quê?”.

Rememoro essa conversa porque ela toca no cerne do livro: o retorno, por meio de louvações, a um amor lembrado por um sujeito que ultrapassa os 30 anos e cultua o corpo de um homem mais jovem. Ao fundo desses encontros, existe a questão da idade e do modo como a comunidade gay costuma priorizar e vangloriar corpos jovens e relações furtivas, rápidas – ainda que deixem marcas duradouras.

II

Ricardo Domeneck, poeta e artista visual brasileiro, da região Sudeste do país, que atualmente vive na Alemanha, possui uma vasta produção literária no campo da lírica. Destacam-se, entre suas obras, Odes a Maximin (Garupa Edições, 2018) e Cabeça de galinha no chão de cimento (Editora 34, 2023), livro vencedor do Prêmio Jabuti na categoria Poesia em 2024. Seu livro de estreia foi Carta aos anfíbios (Editora Bem-te-vi, 2005).

Em Memorando: Maximin (Ercolano, 2026), o autor retoma as odes publicadas em 2018. Aqui, a voz poética – que se apresenta sob múltiplos nomes: “[…] chame-me, portanto, de Pupi Cardoso, Yo, la cochiníssima. Ou me chame de Eva Peruona, de Mariana Unfaithful, de Jarguar Fusca… ou de Aquela-Filha-da-Puta, como tantos já fizeram e ainda devem fazer” (p. 14) – escreve odes a seu amado Maximin numa Berlim que se constrói como espaço bucólico, erótico e cheio de encontros.

O foco das odes, para além de enaltecer o corpo e a beleza de Maximin, evidencia uma relação atravessada pela disparidade de idade – afinal, o sujeito lírico está na casa dos 30 anos; o amante, nos 20 – e pela forma distinta como os afetos são sentidos. Enquanto a voz poética louva seu muso de maneira intensa, o amante parece demonstrar menos entusiasmo, o que tensiona a dinâmica dos dois.

III

Pausa para adicionar mais uma canção.

Como uma playlist que acompanha a leitura do livro de Domeneck – com músicas distintas, mas conectadas entre si –, a leitura também me remeteu à escrita de Pedro Lemebel, artista queer influente na América Latina, especialmente em Poco hombre: escritos de uma bicha terceiro-mundista (Zahar, 2023). Em um de seus textos, ao rememorar um amor de escola, Lemebel narra a noite em que permaneceu acordado para proteger um muro-protesto contra fascistas. É uma escrita que entrecorta suas rememorações amorosas com música, tal como Domeneck faz ao propor uma playlist como extensão do livro:

Quem na época poderia pensar que você me assombraria pelo resto da vida como uma música boba, como a canção mais ordinária, dessas que as tias solteironas ou as mulheres bregas escutam. (p. 87)

Voltemos à crítica. 

IV

A primeira parte, intitulada “Memorando: Maximin”, apresenta ao leitor um texto em prosa – um verdadeiro dossiê afetivo. Nele, a personagem narra a fama de Maximin; o primeiro encontro numa boate de Berlim; o primeiro beijo e o sexo; até a configuração desse relacionamento conturbado, marcado por trocas, interesses e favores. 

O amado é, assim, descrito:

[…] vi um menino tão delicioso – com os cachos, os olhos, os braços, o peitoral e o tanquinho tão com jeito de profetizados –, mais a forma como se exibia e tocava a si mesmo, que pensei: ESTE só pode ser AQUELE. Perfeição assim não se repete na mesma cidade. (p. 21)

A voz poética também se descreve:

Não é drama. Sei que não sou feiosa. Mas também não sou um desses modelinhos com panturrilha assombrosa e tanquinho entre os mamilos e a virilha. Ele podia ter quem quisesse. Por que eu, mesmo que só de vez em quando? Talvez uma mistura de coisas. Carinho e pena. E interesse, claro. Aos mais jovens, eu alertaria: não tentem separar essas coisas no amor. É melhor não tentar. (p. 25)

Enquanto o amado recebe adjetivos exacerbados e exuberantes, o olhar do sujeito lírico para si é sempre em depreciação. Evidencia-se, assim, a disparidade dos padrões de beleza e a maneira como envelhecer dentro da comunidade gay pode significar ser preterido, deslocado do centro do desejo. A cidade, com suas boates e fluxos, torna-se um lugar propício para que esse encontro aconteça, ou, como escreve Pedro Lemebel, para que se manifeste “a pulsão dionisíaca do desvio”. Como ele próprio afirma: “A cidade, se não existe, é inventada pela ginga maricas, que no flerte do amor ereto assanha seu vício”.

Portanto, nessa primeira parte, o leitor tem acesso a um dossiê dessa personagem e compreende melhor o tipo de relação que o narrador teve com Maximin. A partir daí, na segunda parte, surgem todas as odes escritas para o muso. No posfácio – dividido em duas partes –, o pesquisador Matheus Guménin Barreto observa que essa abertura em prosa funciona como ambientação para os poemas e destaca características formais específicas, como o uso de figuras de harmonia que trazem sonoridade aos versos:

Só mais uma vez,
só uma vez mais.
Imploro feito bebê.
Vou pôr meu babador.
Que eu fiquei bebaço
Bebo-te. Saciado,
fico balbo e balbucio
sobre teu bulbo.
Ai, até babar eu babo. (p. 61)

Na segunda parte, intitulada “Todas as Odes a Maximin”, surgem os poemas. Eles dialogam diretamente com a prosa inicial. Determinados tópicos reaparecem, outros ganham contornos mais subjetivos, marcados pelos afetos dos encontros entre a voz lírica e seu amado. As imagens remetem ao gozo, ao jorro, ao mar e às ondas:

Então eu, como os brazucas,
sussurro algum falso haicai.
Diante do teu corpo,
eu jorro, como em Kanagawa
jorraram as grandes ondas.
Vem, maremota minha cara. (p 63)

Aqui o erotismo não se confunde com o pornográfico. O erótico emerge da vivência gay, marcada por gírias, referências culturais e um locus de enunciação não heteronormativo – assumidamente homoerótico. O pênis e a penetração têm lugar garantido em algumas odes, mas nunca reduzidos ao escracho, são associados ao belo.

Outro ponto relevante está no diálogo constante com o passado – Grécia Antiga, Oriente Médio, regiões da Ásia e a tradição bíblica – como tentativa de dar forma e contorno a esse encontro amoroso. A própria ode surge na Antiguidade, o que reforça a coerência do projeto literário. Para exaltar, é preciso passear pelos tempos para encontrar símbolos que deem conta do amado, da relação, do seu corpo e de seus cheiros:

vem Maximin
vem e lambe de mim o cheiro de
de Rexona
vem Maximin
vem e lambe de mim o cheiro
de Axe
vem Maximin
vem e lambe de mim o cheiro
de Dove

na virilha
nas axilas

das tuas as glabras
peludas as minhas (p. 115-116)

Os poemas carregam uma carga poética muito bem elaborada, consistente, com relações pertinentes entre outros amores e outros tempos. Faz parte do memorando compilar fatos e rememorar, afinal, significa “aquilo que deve ser lembrado”, neste caso, o amado. Portanto, para além do erótico, há humor, deboche – traço que acompanha a escrita dessa voz poética de mais de 30 anos: “Há os paus progressistas, que pendem à esquerda, e os conservadores, que pendem à direita.” (p. 29). 

A figura de Maximin é constantemente reavaliada, analisada, quase dissecada nesses poemas que funcionam como ícones-potência de rememoração: “Eu amo você, Maximin. Eu desejo você, Maximin. Eu tenho medo de você” (p. 33).

Amor, desejo e medo convivem na mesma enunciação.

Ricardo Domeneck confirma, assim, a força de sua produção literária. Sua escrita mantém o vigor, brinca com as palavras e com associações inesperadas. São textos fortes, com shade, com suor e música ecoando pelas boates e ruas paralelas da cidade. Textos com tesão e tensão, tal qual a relação com Maximin – uma caixinha de surpresas. Matéria poética potente, construída com imagens intensas e persistentes.

Memorando: Maximin, de Ricardo Domeneck
Editora Ercolano, 2026
132 pp.