Crítica

“Onde tu moras? Na Massaranduba”: Vivências Periféricas em ‘Massaranduba’, de Abáz

Massaranduba, enquanto bairro, é personagem que permeia diversos contos do livro de estreia de Abáz, autor soteropolitano que viveu na Península Itapagipana.

Fotos de Marlon Chagas (O Odisseu).


I

Massaranduba: árvore de cor avermelhada, densa e bem dura, utilizada, por exemplo, para a construção de móveis. Massaranduba: bairro de Salvador, localizado na Península Itapagipana, vizinho de bairros que também compõem a região, como Ribeira e Uruguai. Esse bairro permeia o imaginário e a imagética da capital baiana por, outrora, abrigar moradias que avançavam sobre o mangue existente naquele espaço — as casas de palafitas —, o que deu origem ao nome de Alagados.

II

Na Península Itapagipana, a proximidade com o mar é uma constante. Muitas praias estão próximas das casas e, por conta disso, é um espaço conhecido pelos alagamentos em dias de muita chuva em Salvador. Existe uma rua em que a água do mar é contida por um “dique” que passa no meio dela, conhecida como Bate Estaca. Perto dali está a Igreja do Bonfim, onde, no mês de janeiro, ocorre a tradicional Lavagem do Bonfim. Minha avó morou em várias casas dessa região. Minha mãe estudou com a ministra Margareth Menezes no Colégio Estadual Luiz Tarquínio. Na infância, caí e perdi um dente na rua Manuel Barros de Azevedo. Vi uma casa ser invadida, também na infância, numa noite sem energia elétrica na rua Machado Monteiro. Acordei certa vez com a casa de minha avó alagada, após uma forte chuva. Fui muitas vezes à casa de um primo que morava na Mangueira. Fiz três tatuagens num estúdio localizado no Largo do Papagaio. Fui batizado na Igreja dos Mares. Passei vários fins de semana na casa de um ex-namorado que mora ao lado da Dubai Magazine.

III

Massaranduba, enquanto bairro, é personagem que permeia diversos contos do livro de estreia de Abáz, autor soteropolitano que viveu na Península Itapagipana. A obra, fruto de uma longa dedicação à escrita e de exercícios oriundos de oficinas de escrita criativa das quais participou, foi vencedora do Prêmio Sesc de Literatura 2025, na categoria Contos. Massaranduba (Ed. Senac, 2025) reúne narrativas curtas centradas na vida de pessoas reconhecíveis no cotidiano das periferias das grandes cidades. Composto por 18 contos, o livro apresenta as mais diversas situações da vivência de pessoas que moram em localidades marginalizadas. O início mostra narrativas ambientadas em Nazaré das Farinhas, percorre outros espaços de Salvador, e seguimos o caminho trilhado até o bairro que dá título à obra.

O leitor se depara com personagens que são como a árvore que nomeia o bairro: resistentes, atravessadas por adversidades, ligadas por um tronco comum, mas marcadas por muitas ramificações. Personagens que permanecem pulsando vida, mesmo quando o destino não é positivo. Mães, pais, filhos, amantes, prostitutas, travestis, gays e muitos outros compõem esse território narrativo.

IV

A digressão espacial, já anunciada no título da obra, é importante para situar o leitor quanto ao lugar de enunciação do autor. Se, ao discutirmos latinidades, reconhecemos diferentes formas de experienciar a América Latina, o mesmo se aplica ao Brasil. Não existe um único modo de ser brasileiro, mas uma pluralidade de existências.

Abáz, autor de Massaranduba, para a revista O Odisseu. Foto de Marlon Chagas.

Nos contos de Abáz, a baianidade é um tópico relevante de leitura. Em uma fala proferida durante um curso da Academia de Letras da Bahia, Nitchele Costa, pesquisadora das relações entre literatura e baianidade, discute que, ao se deparar com produções literárias que fogem dos grandes centros urbanos ou da classe média alta e que invocam as periferias em suas tessituras, o autor lança luz sobre “um lugar delegado […] pelas instâncias e sistemas detentores do poder de nomear quem é e que lugar pode vir a ser”.

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Abáz, autor de Massaranduba, para a revista O Odisseu. Foto de Marlon Chagas.

Assim, morar em bairros como Ondina ou Barra é vivenciar uma Salvador diferente daquela vivida na Massaranduba. As experiências relegadas ao “sub” fazem parte do bojo narrativo da obra de Abáz, mesmo quando o foco não é o bairro que intitula o livro. O olhar do autor também está voltado para o interior da Bahia, como no primeiro conto, “Os caixões de Cristódio”, que retrata os festejos e a alegria de toda uma comunidade por causa da morte do personagem-título. O enterro é marcado por uma rememoração das pessoas sobre o impacto do finado na vida delas, bem como a elaboração de narrativas que tentam justificar uma mudança radical de comportamento, mencionando como a língua (o ato de falar e expor o outro) resultou num verdadeiro pandemônio.

[…] Enfim dar adeus à desgraceira da cidade. Quem for mais fraquinho carrega esse caixão aqui, que o corpo é leve e o trabalho é fácil. Os homens mais fortes levam o baú. Vem, Das Dores. Vem, Tininho. Não se enganem com o tamanho. É pequeno, mas é pesado. É um caixão todinho pra língua. (p. 11).

Esse conto inicial apresenta ao leitor uma estética polifônica, pois, numa mesma narrativa, temos visões e vozes diversas, demonstrando como as localidades são plurais. Além disso, essa narrativa panorâmica amalgama a estrutura dos espaços periféricos, desde o interior — quando as narrativas se passam em Nazaré das Farinhas — até o desaguar em Salvador, na Cidade Baixa. Tal dinâmica se repete no conto “Carmem ou: uma história onde nada acontece”, em que, num dia de folga da protagonista, o leitor acompanha várias situações que acontecem concomitantemente às suas ações: 

Na distância de algumas ruas, longe o suficiente para ela não ouvir, a polícia arrebentava tudo, metia tiro e atravessava o corpo de N. exclusão de ilicitude, alguém digitaria um pouco depois. Carmem se jogou na cama de novo, respirou todo ar que conseguiu e rezou pra que amanhã fosse um dia daqueles, um dia onde nada acontecesse. (p. 72).

V

Ao nos depararmos com personagens tão plurais que giram em torno de uma mesma localidade — o bairro da Massaranduba —, o leitor entra em contato com problemas que afetam essa região e constituem os enredos narrativos. Um exemplo é a influência da das igrejas evangélicas, com seu modus operandi voltado ao controle do corpo, da crença, do comportamento e da economia dos sujeitos. No conto “O peso do Reino de Deus”, Honória, uma senhora que tem “12 filhas, o que resultou em um montante de 33 netos, 299 bisnetos e 98 tataranetos, com promessa de mais” (p. 23), começa a frequentar a igreja e, desejando subir ao púlpito para receber as bênçãos do pastor após ter feito uma doação em dinheiro grande, passa a juntar latinhas. A coleta acontece até o ponto da exaustão física, por conta do peso acumulado nas costas.

Abáz, autor de Massaranduba, para a revista O Odisseu. Foto de Marlon Chagas.

Quase chegou, corpo curvado, respiração difícil, os pés se arrastando até a última latinha, os dedos entortados quase alcançando, sentiu o peso do reino de Deus todinho nas costas. O corpo ficou ali embaixo até esbarrarem naquela pilha. A velha de cara no chão. (p. 26).

Outra especificidade, que alfineta o mundo acadêmico, aparece no conto “Modelos da Maré”. Nele, mulheres que vivem nos Alagados, em casas de palafitas no mangue, são confrontadas pela visita de pesquisadores que tentam aplicar, na comunidade, as teorias que leem em sala de aula. As palafitas, o andar que tenta se equilibrar em pontes de madeiras e o balanço provocado pela maré alta são elementos definidores do percurso dessas personagens. Assim, o leitor se depara com uma estrutura narrativa em que os sujeitos estão sempre em posição de incerteza, como se, a qualquer momento, pudessem cair no mar ou no mangue. Por isso, alguns contos terminam de forma trágica, mostrando a força intempestiva e imprevisível que marca a vida de sujeitos negros em bairros periféricos.

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Abáz, autor de Massaranduba, para a revista O Odisseu. Foto de Marlon Chagas.

Nesse percurso, muitas narrativas soam familiares, como se já tivessem sido escutadas em outros momentos da vida, o que torna óbvio como a obra está plasmada em uma vivência soteropolitana. Para além do bairro em que os contos orbitam, o uso do baianês reforça essa familiaridade. A marca da oralidade atravessa tanto os diálogos quanto as descrições, atestando o local de enunciação do autor, oriundo de bairros populares de Salvador, como se observa no conto “Improvisos”:

[…] Lidiane, vai trocar a fralda do teu filho que Miguel se cagou todo. Tô indo, mainha. É o fim dos tempos. Pai matando filho, filho matando pai. Antigamente não era assim. O que é desgraça, me deixe que hoje não tô boa. Menina, o filho de Ziza é viado, o pai descobriu, arrebentou a cara do menino. Deus é mais. Pega ali o baralho. Tá roubando é sua cabelo duro? Ô, nega, e tu acha que tu é branca é? (p. 68-69).

Abáz, autor de Massaranduba, para a revista O Odisseu. Foto de Marlon Chagas.

No conto final, que dá nome ao livro, o leitor se depara com personagens que atravessaram contos anteriores, rememorando o mote narrativo que marcou o enredo de cada um. O texto encerra o livro mostrando a disparidade geográfica existente na própria capital baiana. O protagonista sente vergonha de morar na Massaranduba e, ao participar de um evento num bairro de classe média alta, é surpreendido pela visita fantasmática do seu avô, que o reconduz ao local onde nasceu. Essa travessia é marcada pela ressignificação daquele espaço e instaura um sentimento de pertencimento no personagem, configurando um encerramento muito potente para pensar as dinâmicas de pertencimento que envolvem sujeitos e bairros periféricos.

[…] Quando chegamos nas ruas sujas de meninos descalços, ele olha como se existisse algo naquela pilha de barracas de madeira em cima de água suja ou na mulher que, contava minha mãe, caiu em cima do pau fincado na água e rasgou a xereca. […] Talvez existisse algo no shortinho de Babalu, que ganhava a vida dando uns minutos de alegria pro batalhão sem rosto que toda noite a encontrava entre ratos, baratas e irmãos no escuro largo de Roma. (p. 75).

VI

Ao concluir a leitura do livro do Abáz, me senti tocado e atravessado pelas memórias evocadas. Porém, o que mais me chamou a atenção foi perceber que existe uma dicção instaurada em todos os contos, revelando um autor que começa com o pé direito no cenário literário nacional. Ao abordar periferias e modos plurais de ser baiano — nas adversidades e nas alegrias —, caminhamos com personagens que falam um sotaque conhecido para quem é da Bahia. A afetação de me ver presente, atrelada à sensação de escutar aquilo que li em algum momento da vida, mostra a força da escrita de Abáz, que extrai do popular, em suas variadas cores e tons, a semente para compor essa obra. Massaranduba é bairro, árvore, livro. Massaranduba é potência.

Massaranduba, de Abáz
Editora Sesc, 2025
88 pp.

Conteúdo publicado originalmente no n27 da revista O Odisseu, em breve disponível na íntegra aqui no site.