
“Era necessário escrever, mesmo que muitos não lessem”, diz Ana Márcia Diógenes, autora de “Buraco de Dentro”
Em entrevista à revista O Odisseu, Ana Márcia Diógenes sobre o processo de escrita de “Buraco de Dentro” (Patuá, 2024), livro semifinalista do Prêmio Oceanos e que aborda o tema das pessoas em situação de rua.
Fotos: Divulgação.
“Você se considera uma escritora engajada?”, pergunto a Ana Márcia Diógenes, autora do excelente “Buraco de Dentro”, livro inquietante que saiu pela editora Patuá. Pergunto porque, do pouco tempo que acompanha Namárcia (como se apresenta nas redes sociais), percebi que o discurso em prol dos grupos minorizados é uma constante. O tema do seu livro também: em “Buraco de dentro”, a autora busca fazer um retrato literário das pessoas em situação de rua, um tema cortante que muitos de nós evitamos até mesmo em pensar. Enquanto a maioria busca olhar para o outro lado para não se constranger com o escândalo que é a fome e a miséria, Ana Márcia fez o movimento inverso: olhou diretamente. “Eu me considero uma pessoa engajada”, ela respondeu.
Na entrevista que você confere a seguir, Ana Márcia conta que a escrita do livro se deu a partir do incômodo que sentia ao ver pessoas em situação de rua. Ao todo, foram oito anos pensando, escrevendo e reescrevendo o livro e pensando as possibilidades de melhoraria em oficinas de escrita criativa. O comprometimento de Ana com a escrita e com o tema resultou em um livro belíssimo e na aclamação pela crítica. A autora foi semifinalista do prestigiado Prêmio Oceanos, em 2025, e vem alcançando novos espaços com a sua ficção. Conheça um pouco mais de Ana Márcia na entrevista!

“A arte pode provocar mudanças reais”, diz Ana Márcia Diógenes, autora de “Buraco de Dentro”
Ewerton: Ana, gostaria de começar retomando um pouco da sua trajetória, que passa pela literatura infanto-juvenil, pelos contos, pela poesia e chega ao romance em “Buraco de Dentro”. Como é, para você, transitar entre essas formas e por que transitar entre formas?
Ana Márcia: Escrever é um prazer que acompanha algumas descobertas importantes na minha vida. Uma delas foi quando era criança e percebi que ninguém podia adivinhar o que eu estava pensando. Outra foi entender que podia inventar pessoas e situações que nunca existiram e desenvolver histórias imaginárias.
Transitar por formas e públicos variados na literatura é uma extensão dessas descobertas e das vontades que provocaram. Gosto de escrever pensando se a criança ou a adolescente que fui estivesse vivendo no momento em que escrevo. São infindáveis as possibilidades de contar histórias para elas.
Gosto de escrever a partir do que ando lendo, vivenciando, assistindo… Estes movimentos levam a diferentes formas de montar meu texto. Às vezes quero me expressar por palavras-valores e sublimo esta vontade na poesia; noutras me volto a histórias mais breves e efeitos mais rápidos do conto. Se começo a montar uma história de vida, de vidas, na minha cabeça, vou ao romance.
Estes movimentos têm a ver com a pessoa que sou. Uma escritora amiga, a Cecília Rogers, diz que sou movimento. Creio que esta palavra me veste bem. Não quero, pelo menos por enquanto, me prender a uma só forma. Talvez algumas dessas formas acabem me pegando, pelo meu maior envolvimento com as leituras e aprofundamento em torno delas. Mas vai ser um processo natural, não quero forçar um limite.
Ewerton: “Buraco de dentro” fala de um tema muito complexo, que é a questão das pessoas em situação de rua, sobretudo no Brasil. Imagino que não tenha sido um tema fácil de se escrever. Enquanto processo de escrita, como foi a sua aproximação com essa realidade? Para escrever o livro você desenvolveu pesquisa sobre ou preferiu o observar nas ruas?
Ana Márcia: “Buraco de dentro” é uma coragem que nem eu mesma sabia que tinha. Uma coragem de conhecer mais sobre uma situação que me incomoda bastante. Como jornalista, sempre me inquietei com situações de pessoas sem casa, sem acesso à saúde, educação e comida. Depois, como funcionária do UNICEF, passei a conviver mais ainda com esta realidade.
O assunto ganhou maior dimensão quando fui secretária adjunta da cultura do Ceará e o prédio onde eu trabalhava ficava na Praça do Ferreira, centro de Fortaleza, e espaço onde moravam inúmeras pessoas em situação de rua. Via mulheres grávidas numa noite e na manhã seguinte já as via com bebês. Pariam na calçada, ao relento.
Eu observava o cotidiano dessas famílias, mas não sabia o que fazer com o que via. Comecei a prestar atenção também nos catadores de lixo, nos pedintes, nos lavadores de carro. Passei a dar aulas de Jornalismo e continuei atenta a esta situação. Criei o hábito de conversar com eles, perguntar sobre o cotidiano, fazer entrevistas informais. Nem sempre anotava, queria mais absorver seus cotidianos de vida, como percebiam a realidade deles e do que estava à sua volta.
Frequentar cursos de escrita me despertou para a história que, informalmente, eu passei a construir. No início, sentia mais desconforto por estar com tantas histórias doloridas na minha cabeça do que vontade de adaptar o que ouvia, contar seus fragmentos e, também, criar a partir do que passei a saber.
Mas este mesmo desconforto me levou a reconhecer que não podia ficar com tantas dores dentro de mim. Eu precisava fazer com que a sociedade soubesse sobre a profundidade dos buracos que formam a vida das pessoas que habitam as ruas. Era necessário escrever, mesmo correndo o risco de muitos não quererem ler por ser uma ficção dolorida, como é a realidade de quem vive nas ruas.
Foram mais de oito anos nessa peregrinação de conversas e entrevistas. Em cada oficina e palestra sobre literatura que participava, ia avançando no esqueleto da história que criei a partir do que queria contar. Até que passei a ter a mentoria da escritora mineira Mell Renault, que contribuiu fortemente para o desafio de montar esta ficção.
Ewerton: Em um vídeo recente para o quadro “Escritores da editora Patuá”, no Instagram, você fala que se sente feliz quando o seu livro desperta e incomoda as pessoas para a realidade dos moradores de rua. Para além do incômodo, você acredita que a arte consegue provocar mudanças reais na sociedade?
Ana Márcia: Acredito que a arte sensibiliza, desperta para situações antes não percebidas, amplia possibilidades de que alguém seja tocado. A arte pode provocar mudanças reais, tanto é que governos conservadores minam de imediato instâncias culturais, como ministérios e secretarias, para cortar a disseminação de valores mais plurais, mais democráticos.
Não são poucas as pessoas que dizem ter começado algumas vezes a leitura de “Buraco de dentro” até realmente seguir livro adentro. E elas faziam questão de dizer que a crueza da vida, ali entranhada, causava dor e pena. Mas que, como o cotidiano já é pesado, iam adiando.
O tempo em que trabalhei no jornalismo, na comunicação e gestão do UNICEF e na assessoria institucional da Rede Cuca (iniciativa municipal, em Fortaleza, que oferece atividades gratuitas de cultura, esportes, lazer e formação para jovens de 15 a 29 anos) deixou claro que questões sociais devem ser conhecidas por todos.
Por isso também escrevi “Caso porque te amo, mato porque me amo”, inspirado em casos reais de mulheres que mataram os companheiros para que pudessem permanecer vivas. É a mesma pegada dolorida, mas necessária.
Não que eu vá seguir somente este caminho, até porque a poesia, contos e crônicas que faço, por exemplo, têm outras trilhas. Mas se conheço e posso contribuir alfinetando temas para que possam ser mais conhecidos, por que não?
Ewerton: Ainda sobre a última pergunta e sobre o tema do livro: Lygia Fagundes Telles dizia ter orgulho de ser uma “escritora engajada”, isto é, uma escritora comprometida com as causas sociais do mundo. Você também se considera uma escritora engajada? Escrever sobre a realidade dolorida também faz parte do seu projeto de escrita?
Ana Márcia: Me considero uma pessoa engajada e minha escrita reflete isso. Temas que envolvem qualidade de vida de crianças, jovens, mulheres, idosos me pegam de imediato. As injustiças de forma geral.
Escrever sobre o que precisa gerar impacto na sociedade para que seja transformado compõe o meu projeto de escrita, mas não me limito aos temas polêmicos. Meu projeto de escrita é livre. Não me imponho temas.
Ewerton: E como conciliar o compromisso com as pautas sociais e o fazer estético da escrita? É possível?
Ana Márcia: É super possível conciliar. O uso de técnicas de escrita que possibilitem contar cada história a partir da forma que chegue melhor ao leitor é um caminho que o estudo pode nos trazer.
Quando planejei “Buraco de dentro”, ele ia ser narrado em terceira pessoa. Cheguei a escrever uns três capítulos assim. Depois, no processo de mentoria com a Mell Renault, propus mudar para fluxo de consciência. Combinamos de fazer a tentativa e avaliar. Deu certo.
O fazer estético prevaleceu e deu ainda mais força à questão social que eu queria enfatizar, de como os pensamentos e ações se estabelecem numa pessoa em situação de rua, a partir de vivências da infância e do mundo adulto.
“Não me sinto uma autora especificamente nordestina. Me sinto uma autora brasileira, que está no mercado, como vários outros.”
Ewerton: Sua produção é extensa e consistente, sendo uma autora que circula há um tempo, inclusive no espaço público dos jornais digitais. Como é a sua rotina de escrita?
Ana Márcia: Minha rotina de escrita é de duas a três horas por dia quando estou escrevendo um livro. Como sempre estou com um projeto de livro pela frente, esta produção é diária. E tenho a rotina de leitura também, de uma a duas horas por dia. Alguns são livros como referência ao que eu estiver escrevendo e outros para conhecimento, participação em clubes de leitura.
Atualmente escrevo também uma crônica aos domingos, que publico no feed, no Substack e alterno entre dois sites, Blog do Eliomar e InvestNE. E tenho uma coluna de comportamento, quinzenal, que é publicada na Plataforma de streaming O Povo Mais e também no meu feed.
Ewerton: Outra coisa que notei é que você também tem uma rotina que está dedicada na aprendizagem da escrita criativa. Sei que você também é entusiasta das oficinas literárias e encontros de leitura. Gostaria que você falasse um pouco desse equilíbrio entre a inspiração e o trabalho de aprender e trabalhar os textos.

Ana Márcia: Sou super entusiasta do estímulo à escrita criativa e à leitura como um direito humano de todos e todas, desde a infância. Um direito que dá acesso a outros direitos. O despertar do prazer da leitura deve ser aliado à promoção da capacidade de todo mundo em contar histórias, a pensar mundos imaginários, a encontrar formatos próprios de fazer o que se escreve alcançar o outro, a outra.
As oficinas literárias são momentos de auto descoberta, de potencialidades que estavam ali desde sempre, mas que ficavam subjugadas ao peso do cotidiano. São caminhos que se tornam mais claros quando caminhamos neles, sem medo de críticas e sem a censura dos formatos determinados pela teoria.
Os encontros de leitura vejo como uma celebração: a festa de pessoas que gostam de ler, das que querem experimentar ler mais, das que querem conhecer autores que nunca ouviram falar. Participo de vários clubes de leitura e em cada um deles sigo trilhas de leitura diferentes. Às vezes os livros coincidem e isso é muito bom, porque sou apresentada a ângulos diferentes.
E também é muito especial ter um livro escolhido por um clube de leitura. É uma curadoria especial. Este ano, até agora, “Buraco de dentro” já foi indicado como leitura em três clubes: Desvario, Respiro Literário e Nordestina Club. Me emocionei cada vez em que fui informada sobre essas escolhas. Uma felicitância.
Ewerton: Tendo uma produção extensa e de reconhecimento crítico, como você se sente especificamente sendo uma autora nordestina? Você sente que há barreiras geográficas na circulação dos seus livros?
Ana Márcia: Não me sinto uma autora especificamente nordestina. Me sinto uma autora brasileira, que está no mercado, como vários outros. O que acontece é que ainda são muitos os escritores e editores do Sudeste e Sul do país que rotulam quem mora no Nordeste e no Norte, independente da qualidade da nossa produção literária, simplesmente como pessoas que estão bem longe.
E aí, pergunto: longe em relação a quê? A distância entre estados é real em um país do nosso tamanho, mas as barreiras são mais de visão do que de quilômetros. E mesmo nesta relação de desigualdade de visão, vários entre nós, que moramos do lado de cá do país, nos destacamos nos prêmios literários e no volume de vendas.
É necessário – como nação – sermos mais inclusivos e incluídos nas artes de forma geral. Precisamos de mais eventos literários que possam circular, mais leis de incentivo à cultura, e de uma visão para além de quem está ao norte, nordeste, sudeste, centro ou sul do país.
Ewerton: Para finalizar, poderia nos contar se você está trabalhando em algum novo livro agora? Pode nos adiantar alguma coisa?
Ana Márcia: Há quase dois anos concluí um romance, deixei o tempo criar a distância necessária para voltar a ele, com novos olhares, novas perspectivas. Já passou por uma leitura crítica e talvez vá para mais uma. Antes, quero trabalhar ao longo deste ano para me decidir sobre o rumo da história, dos personagens, da forma de contar. Precisei dar este tempo para ver que impacto o livro me causa após este descanso entre criadora e criatura.
E, há mais ou menos três anos, deixei no varal de secagem da escrita um livro de contos. Chegou o momento de tirar de lá, ler e reler um monte de vezes, fazer uma reordenação dos contos, saber se continuo me identificando com o que escrevi, o que não me pertence mais ou o que quero alterar. O texto está agora com um escritor especial para uma leitura crítica.
E, como eu disse que sou movimento, tenho um infantil e outro de contos guardados numa gaveta acolá, escritos anos atrás. Um dia abro novamente. Talvez, até lá, tenha concluído um que ficou no meio do caminho e que já anotei na minha agenda para dar ritmo novamente.
O que quero, cada vez mais e melhor, e sempre, é escrever e ser lida.


