Crítica

“Em que espelho ficou perdida minha face?”: sobre o livro Para não acabar tão cedo, de Clarice Freire

É desprezível o entendimento humano de que o envelhecimento exista para pesar nas mulheres e em mim como se cada fronteira dobrada pelo corpo fosse uma derrota ou uma vergonha triste, quando, na verdade, significa triunfos tácitos riscados na pele. Poucas coisas são mais bonitas no corpo feminino do que os sinais da vida que são capazes de ser e gerar no mundo.

Foto: Ana Branco/ Reprodução


I

Nos últimos quatro anos, com o ingresso no doutorado, fiz uma mudança de casa. Fui morar com meu avô, no quarto vago que antes era destinado aos filhos que o visitavam, mas que, nos últimos anos, já não dormiam tanto em sua casa. Ao subir e me instalar para passar o período do doutorado num lugar mais tranquilo e privado – o que se espera de uma fase marcada por maior recolhimento e dedicação a uma pesquisa longa –, tive a companhia constante de meu avô.

II

Num desses rompantes de convivência com um senhor de mais de 80 anos, ele interrompia a rotina para falar de seu passado. Narrava a vida na Península Itapagipana, localizada na capital baiana, e retratava com muita vivacidade a relação com minha avó, o nascimento dos filhos e a perda de um deles. Tudo em meu avô parecia acoplado ao Tempo. Era como se o Tempo estivesse junto dele, caminhando pela casa, influenciando essas digressões.

III

Meu avô faleceu antes da conclusão do meu doutorado, em julho de 2025. Não vai assistir à minha defesa de tese, mas suas histórias permaneceram. Foi nessa relação que pude perceber como a velhice traz consigo uma perpetuação das memórias, e como essas rememorações não são simples retornos nostálgicos; muitas vezes, são questionamentos sobre os rumos da vida e sobre atos passados.

O início deste texto foi escrito antes de eu terminar a leitura do romance Para não acabar tão cedo (Record, 2024), da escritora recifense Clarice Freire, finalista do Prêmio Jabuti em 2017 na categoria Ilustração, que, após se tornar best-seller com suas produções poéticas – quem não lembra da febre de Pó de Lua, publicado em 2014, e Pó de lua nas noites em claro, publicado em 2016? –, faz aqui sua estreia na narrativa longa.

IV

No título desta crítica, retomo os versos finais de um poema sobre a velhice, em que Cecília Meireles, no poema “Retrato”, constrói uma voz poética angustiada e pensativa diante da percepção de que a vida passou muito rápido. O desencadeamento ocorre quando essa voz percebe seu rosto, já não tão jovem, refletido no espelho, evidenciando como o tempo age de forma visceral e incessante sobre o corpo, elaborando uma crise pautada na mudança da fisionomia que o passar do tempo provoca. Portanto, o retrato remete tanto à imagem congelada e imortalizada pela fotografia quanto ao movimento contínuo do tempo que transforma a fisionomia. Ecos desse poema atravessam as páginas e o mote central do romance de Clarice Freire. Aqui o leitor é apresentado às irmãs Augusta e Lia, moradoras de Recife e marcadas por traços linguísticos locais. Augusta cuida de Lia, que após uma queda que afetou a bacia, não consegue mais andar. Certo dia, ao se olharem no espelho, ambas percebem que não são mais idosas, mas que rejuvenesceram.

V

Esse rejuvenescimento, contudo, não é recebido de forma tranquila. Ambas são mulheres que viveram opressões de gênero desde a juventude até a velhice. Para a irmã mais velha, existe um questionamento constante sobre a própria lucidez – evocando discursos sociais que associam o corpo envelhecido à senilidade. Para a irmã mais nova, representa liberdade, já que seu corpo envelheceu prostrado numa cama. Assim, guiada pelos fluxos de liberdade provocados pela juventude inesperada, a irmã mais nova – com seus arroubos de ruptura do status quo desde sempre – conduz a irmã mais velha, cuja função sempre foi cuidar da outra, por lugares que remetem às suas histórias como irmãs.

É desprezível o entendimento humano de que o envelhecimento exista para pesar nas mulheres e em mim como se cada fronteira dobrada pelo corpo fosse uma derrota ou uma vergonha triste, quando, na verdade, significa triunfos tácitos riscados na pele. Poucas coisas são mais bonitas no corpo feminino do que os sinais da vida que são capazes de ser e gerar no mundo. (p. 39)

Estabelece-se, assim, uma relação especular nessa irmandade, na qual as diferenças aparecem e, concomitantemente, mostram o quanto são parecidas, para além do fato de viverem a velhice juntas.

VI

A experiência de ouvir meu avô rememorar o passado no fim da vida tornou-se ainda mais significativa durante a leitura do romance de Clarice Freire. Essa relação fica mais latente quando as personagens percorrem espaços que estão atrelados ao passado das duas, como a antiga casa, o mar, a comida afetiva e a tentativa de ir para a casa de campo. Todas essas paragens e esses deslocamentos não são em vão; são ícones de memória, por meio dos quais o leitor tem acesso à construção cuidadosamente elaborada do passado das personagens.

Despertando do seu ontem íntimo e esfumaçado, Augusta organizou os cabelos já tomados pela liberdade e entrou, por fim, em casa.

Eu não sei se conseguiria dizer bem o que se passava na alma de Augusta naquele instante. Ela viveu naqueles cômodos sem Lia por um período bastante largo de sua vida. Augusta era a mais velha, tinha suas ânsias sempre secretas, sempre desautorizadas, mas quem deixava mostrar a sede do mundo era Lia. (p. 68-69)

Como observa Ecléa Bosi, em Memória e sociedade: lembranças de velhos, há na sociedade uma obrigação social atribuída aos idosos: “lembrar, lembrar bem” (p. 63). Tal exigência, no entanto, não recai sobre sujeitos de outras idades, uma vez que o velho estaria situado nesse lugar de suposto descanso, um corpo memorioso distante da dinâmica acelerada do dia a dia. Bosi aponta ainda duas possibilidades de pensarmos os idosos e sua relação com o passado: a imersão total na rememoração ou a rememoração a partir de marcos temporais. Clarice Freire constrói duas personagens em que o rejuvenescimento do corpo é o início de um retorno ao passado em contrapelo, questionando-o, tensionando-o.

Por isso, o narrador do romance não são as personagens principais, mas o próprio Tempo. As irmãs vivem um presente mecânico, no qual o passado não encontra espaço nos afazeres cotidianos. Quando o Tempo assume a narração, percebemos uma instância que tudo conhece e que não se deixa aprisionar em caixinhas, logo, não há demarcações de flashbacks; um ícone aciona a lembrança e o Tempo toma conta da narrativa.

Não é nenhuma novidade ver palavras dedicadas a mim, já estou bem habituado. Canções, histórias, romances, poemas, livros, epopeias, confidências, filmes, peças de teatro, a filosofia, a religião ou a mitologia, tudo, todas as formas de arte já me usaram como matéria, se declararam em amores de um jeito apavorado ou voraz, cantaram em multidões, lançaram-me maldições ou negaram minha existência. (p. 114-115)

Ao final do romance, o leitor compreende que essas idas e vindas marcadas pela voz do Tempo fazem parte de um percurso de despedida. A aproximação da morte parece trazer tudo à tona, instaurando o desejo de alinhar fatos e organizar um passado vivido em companhia e cooperação mútua. Augusta abdicou de muito em favor dos outros, e Lia teve seus desejos interrompidos por um acidente, justamente no auge de sua liberdade. Tempo e morte, memória e morte, pares recorrentes na literatura, proporcionando elaborações e experimentações estéticas. Aqui não é diferente. O leitor encontra uma prosa poética com inserção de versos, representando facetas de um passado bonito e singular, como na carta de Lia ao Tempo:

Caro Tempo,
Eu sei que você está aí.
Saiba que sempre soube.
Só que não digo.
Serei franca,
como você é comigo.
[…]
Olha só,
o Tempo está passando.
Já fez tudo o que sonhava?
Olha o mundo rodando, menina. (p. 116-118)

VII

Clarice Freire aborda a velhice com delicadeza poética num romance fluido, que propõe bons questionamentos sobre o ser mulher nessa etapa da vida e sobre os caminhos delimitados por uma sociedade patriarcal. Para além das rugas que emergem nos diálogos entre Augusta e Lia, o romance constrói, de forma coerente, uma brincadeira entre tempos, como observa Ecléa Bosi ao caracterizar o idoso como alguém que transita entre presente e passado. Neste livro, não é diferente, a velhice ganha luz em uma narrativa potente e sensível.

Para não acabar tão cedo, Clarice Freire.
Record, 2024.
216 pp.

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