
Uma vida vivida e seus caminhos de ressignificação em ‘Meu Braço Esquerdo’, de Viviane Mosé
Em Meu braço esquerdo: um sim à vida (Civilização Brasileira, 2024), romance indicado ao Prêmio Jabuti de 2025 (sua terceira indicação ao prêmio), o leitor se depara com uma narrativa que causa estranhamento ao borrar as fronteiras entre ficção e autobiografia, prosa e poesia.
Foto: Nando Chagas (Divulgação).
Certa vez, participando de bancas de produção de projetos de pesquisa para estudantes ingressarem na pós-graduação, tive contato com uma candidata com mais de 60 anos que estava com ideias para elaborar o seu projeto de doutorado. Recém-aposentada, ela escolheu passar parte desse novo momento da vida na produção de uma tese, disposta a dedicar quatro anos ou mais na pesquisa acadêmica.
Ao relatar esse desejo, a candidata veio acompanhada de justificativas que atravessavam sua experiência pessoal, como o tempo que estava agora mais livre e a filha que tentava a mesma seleção (mas para o mestrado). O tema escolhido por ela trazia à tona questões importantes para sua trajetória: o lugar da mulher negra e sua produção intelectual, compreendendo de que modo, historicamente, essas sujeitas foram barradas e silenciados – dinâmica que ela própria presenciou no seu cotidiano durante a vida.
Assim, esse episódio evidencia como a produção escrita é atravessada pela subjetividade do sujeito que escreve. De modo semelhante ao que ocorre com a moça do projeto, esse atravessamento também ocorre com autores da literatura brasileira contemporânea. Entre as leituras realizadas nos últimos tempos, percebo esse movimento na obra mais recente de Viviane Mosé, escritora indicada ao Prêmio Jabuti, com mais de dez livros publicados. Transitando entre a filosofia, a psicologia, a psicanálise e a poesia, sua produção intelectual plural engloba ficção e não ficção, enriquecendo o cenário contemporâneo.
Em Meu braço esquerdo: um sim à vida (Civilização Brasileira, 2024), romance indicado ao Prêmio Jabuti de 2025 (sua terceira indicação ao prêmio), o leitor se depara com uma narrativa que causa estranhamento ao borrar as fronteiras entre ficção e autobiografia. Narrado em primeira pessoa, o romance apresenta uma personagem de cerca de 60 anos que rememora a vida, mais precisamente as relações estabelecidas com pessoas que foram próximas e que, de algum modo, a afetam e a constituem como sujeito. Ao longo da narrativa, a protagonista rememora e questiona sua relação com a mãe, com o pai, um relacionamento amoroso com outra mulher e o vínculo com o filho, este último atrelado ao período da pandemia de Covid-19.
Para além desse olhar ao passado, a narradora sempre aponta como as relações são importantes para a produção da sua escrita, seja a partir de momentos de perda, seja de momentos de alegria. Esses afetos funcionam como molas propulsoras que justificam a produção desses textos. Assim, o leitor se depara com uma não-linearidade, pois todos os acontecimentos surgem de forma fragmentada e embaralhada, mas mantêm entre si uma lógica de causa e efeito que permite entender o processo de escrita e o percurso que a personagem faz de transformar e dar novos contornos a determinados momentos da vida.
Uma estética da vida ressignificada
“Mosé mistura a prosa e a poesia ao longo do romance; narrativas e poemas em versos livres, cada qual com sua funcionalidade.”
– Douglas Sacramento sobre “Meu braço esquerdo: um sim à vida”, de Viviane Mosé.
Ao abordar uma vida em sua extensão temporal – anos e mais anos de experiências –, fica o questionamento acerca das escolhas estéticas para dar conta dessa complexidade. Em Meu braço esquerdo, Viviane Mosé brinca com as possibilidades de empreender um romance. O leitor não encontrará um caminho retilíneo, com longos parágrafos e descrição minuciosa de ambientes. Ao contrário, a obra apresenta fragmentação e experimentação de formas.
Esse estranhamento se inicia já na ficha catalográfica, que categoriza o livro tanto como prosa quanto como poesia. Tais experimentações, como aponta Florência Garramuño (2014), permitem o não encaixotamento da produção artística contemporânea, associadas por ela à noção de “frutos estranhos”. Trata-se de obras de difícil categorização, que tiram o leitor e o crítico de zonas de conforto ao inserir outros elementos artísticos, como fotografias, pinturas e afins.
Mosé mistura a prosa e a poesia ao longo do romance; narrativas e poemas em versos livres, cada qual com sua funcionalidade. Enquanto a prosa se apresenta com viés mais memorialístico, a poesia é dotada de uma carga mais subjetiva e questionamentos em torno da própria produção escrita:
A chuva fina sobre as folhas. As manhãs
Os olhos dos bichos. As almofadas
O sofá da sala
Meu filho
Tudo se relaciona comigo. Me implica
Tudo em mim é talhado em carne viva (p. 91)
Portanto, ao abordar uma vida em dinamismo, Mosé emula esse aspecto nas experimentações estéticas do romance. Além disso, a obra conta com ilustrações da artista Nelma Guimarães, que utiliza frases para compor imagens que iniciam as partes do livro: o preâmbulo, a parte 1 (“um abismo sob os pés expõe a farsa da palavra chão”) e a parte 2 (“milagres sobre si mesmo”). No preâmbulo, o leitor é apresentado ao mote inicial da narrativa, isto é, ao que movimenta a escrita da protagonista: a dor. Três poemas são apresentados e tematizam esse estado, evocando a imagem do braço esquerdo com uma faca e de algo estranho nesse lado do corpo; um impedimento que funciona como mola propulsora para a tentativa de escrita. No decorrer do romance, os acontecimentos que originam essa situação são gradualmente revelados.
II
Passei a vida com uma lâmina cravada do lado esquerdo do corpo.
Um rio turvo derramava do meu peito onde vive o coração
E escorria para a mão. Que não escrevia.
Havia uma coisa estranha do lado esquerdo do meu corpo.
Um peso. E tudo era dor. Mas não doía. Não havia lágrima.
Havia uma lâmina cicatrizada na carne.
O peito sangrava. E o sangue estancado não corria.
Mal respirava para não desfazer aquela trama.
Não sabia se um dia arrancaria aquela faca. (p. 17)
Na parte 1, a imagem do abismo é evocada como metáfora das relações que deveriam funcionar como “chão” para a protagonista, mas sofrem constantes abalos, o que expõe suas fragilidades. É o caso da relação com a mãe, marcada por conflitos e altos e baixos, e da relação com o filho durante o período pandêmico, quando a iminência da morte por um vírus instaura reflexões sobre o futuro, a continuidade da vida e a própria prole. Mas, aqui, somos apresentados para além desse passado que descortina relações complexas e complicadas. A narrativa também elabora o luto pela perda do pai e da mãe, assim como a dor de um amor perdido, configurando um processo de ressignificação e elaboração desses sentimentos.
Até que acordo do surto de bondade. Me lembro das coisas horríveis que ela me disse. Uma a uma das piores coisas relembro. Retorno. Revivo. Choro. Sei que tudo isso de algum modo passará. Por isso mesmo talvez eu escreva. Para não esquecer a intensidade da dor que o amor pode causar. (p. 65).
Assim, na parte 2, que tem um tom mais solar, a escrita funciona como cura. Escrever para expurgar e se autocompreender. Tanto a prosa quanto a poesia são carregadas de tons esperançosos, que o leitor desavisado pode interpretar como aconselhamento ou autoajuda, mas que, na verdade, tem contato direto com a filosofia inspirada em Assim falou Zaratustra, de Nietzsche, evocada na epígrafe do livro – em consonância com a trajetória de Mosé como pesquisadora do filósofo alemão. Logo, entender o caos existente dentro de si ocasiona uma mudança no sujeito, processo vivido pela protagonista.
Na impossibilidade de jorrar pra fora construí reservatórios internos que hoje jorram fartura. Sou um ser hidrelétrico. Aprendi a produzir vida a partir de meus próprios limites. E obstáculos.
Na imensa solidão em que vivia fui capaz de abraçar o meu próprio corpo e ser pra mim mesma a mão que me conduzia. Dos destroços da alma tantas vezes dispersa por disparos de ódio aprendi a germinar sementes. Agora faço milagres. Sobre mim mesma. Milagres sobre si mesmo é a regra por aqui. (p. 233).
Ao final, percebemos que estamos diante de uma travessia. Ao entender o caos, a protagonista encontra uma pulsão de criatividade que possibilita o entendimento de si e, consequentemente, a produção literária. Aos 60 anos, ela atesta estar vivendo uma nova vida – o “sim à vida” que demarca o subtítulo da obra –, processo que ocorre de forma gradativa a partir da compreensão da dor como constituinte da subjetividade. Um percurso que mostra as potências de transformação que a vida oferece. Acredito que esse caminho está impregnado da subjetividade e do percurso acadêmico e privado da escritora, aspectos que, às vezes, beira o conselho de psicóloga, em outros, traz indagações filosóficas pertinentes, existenciais. As mudanças temporais e as variações de gêneros deixam a obra interessante e inventiva; um grande passo para consolidação de Viviane Mosé no campo literário.

Meu Braço Esquerdo: Um Sim à Vida, de Viviane Mosé
Editora Civilização Brasileira, 2024
266 pp.

