
Fim-do-mundo: Divisão racial do espaço em ‘O céu para os bastardos’, de Lília Guerra
Fim-do-Mundo, nome que sintetiza bem o universo que a autora quer retratar em O céu para os bastardos (Todavia, 2025): a periferia de São Paulo.
Foto: Bruno Santos (Folhapress).
O Céu para os Bastardos, romance de Lília Guerra lançado pela Todavia em 2023, é um mosaico de vozes periféricas que dão corpo ao fictício bairro de Fim-do-Mundo, nome que sintetiza bem o universo que a autora quer retratar: a periferia de São Paulo.
Num dos trechos mais fortes, lemos:
“Andando a pé, é possível constatar com maior atenção questões elementares que assolam Fim-do-Mundo. Como são sujas as ruas, as calçadas aleijadas, fios repletos de restos de rabiola, paisagem doente, cheiro de fossa, correntezas de água podre beirando as guias. Uma cadela magra passou por mim numa ocasião, carregando uma sacola presa aos dentes, como se voltasse das compras. As tetas vazias, a ninhada certamente a aguardava faminta, escondida em algum buraco.”
Com essa descrição, Guerra estabelece o espaço do romance. É o que Lélia Gonzalez chamou de divisão racial do espaço: a periferia, a degradação e a pobreza designadas a um grupo específico de pessoas. A autora acerta o tom ao compor personagens complexos que enfrentam uma rotina pesada, em que sobreviver é um ato de coragem.
A leitura também evoca a noção de desterritorialização, proposta por Deleuze e Guattari. Ao construir uma consciência de minoria, Lília Guerra desvia do padrão hegemônico e abre caminho para um novo tipo de literatura. Para os filósofos, a literatura dita marginal não se fecha no particular: tudo nela é coletivo e político. Nesse sentido, a escritora desterritorializa a língua dos dominantes e encontra o seu próprio deserto, mas um deserto fértil, capaz de carregar consigo uma comunidade inteira, um povo por vir.
Ela atinge, assim, aquilo que Deleuze chamou de “alvo da literatura”: aproximar o limite do fora, onde a linguagem se transforma em delírio, metamorfose e devir. É desse movimento que emergem novas visões e vozes. As personagens de Guerra estão à margem da sociedade e da razão, mas recusam a invisibilidade. A literatura lhes devolve o centro.
A narradora do romance, Sá Narinha, é uma mulher negra, periférica, trabalhadora doméstica. Uma realidade que segue extremamente presente no Brasil. Aqui, vale retomar as palavras de Lélia Gonzalez:
“O Céu para os Bastardos não é apenas um romance sobre personagens periféricos: é um gesto político, que reconfigura a língua, desloca os limites da literatura e revela a potência de vozes historicamente silenciadas.”
– Myriam Scotti
“Mas é justamente aquela negra anônima, habitante da periferia, nas baixadas da vida, quem sofre mais tragicamente os efeitos da terrível culpabilidade branca. Exatamente porque é ela que sobrevive na base da prestação de serviços, segurando a barra familiar praticamente sozinha. Isso porque seu homem, seus irmãos ou seus filhos são objeto de perseguição policial sistemática (…). Por outro lado, que se veja quem é a maioria da população carcerária deste país.”
Assim, O Céu para os Bastardos não é apenas um romance sobre personagens periféricos: é um gesto político, que reconfigura a língua, desloca os limites da literatura e revela a potência de vozes historicamente silenciadas. Nesse movimento, Lília Guerra aproxima-se do conceito de escrevivência, formulado por Conceição Evaristo. Escrevivência é a escrita que nasce da experiência vivida, sobretudo das mulheres negras, e que transforma a memória pessoal e coletiva em literatura. O texto não é apenas representação, mas sobrevivência e denúncia; é a inscrição da vida no corpo da linguagem.
Guerra, ao dar voz a uma narradora negra, periférica e trabalhadora doméstica, faz da ficção uma continuidade da vida, e da vida uma matéria literária incontornável. Como em Evaristo, sua escrita recusa o apagamento, inscreve a dor e a luta de uma coletividade e, ao mesmo tempo, afirma a potência estética dessa experiência. Desse modo, O Céu para os Bastardos se integra a uma linhagem de autoras que escrevem para que suas personagens (e, com elas, suas comunidades) não sejam esquecidas, mas reconhecidas como parte fundamental da literatura brasileira contemporânea.
O céu para os bastardos, de Lília Guerra
Editora Todavia, 2023
176 pp.

