Manancial

Torço para que destino também tenha destino

 E que o destino do meu destino seja o destino do meu destino.

Arte de capa: “Eternidade”, de Abdias do Nascimento.


Escrevo um novo livro e invejo um dos meus personagens em construção. Ele está buscando uma coisa que busca ele de volta. Me pergunto se o que eu busco também me busca. Se o que desejo também me deseja. 

Meu personagem percorre um caminho para chegar ao que busca. Eu também estou num caminho. Espero que seja o caminho que vai ao encontro do que procuro, ainda que a gente se trombe e do choque estrelinhas e passarinhos rodem sobre nossas cabeças como num desenho animado. 

Torço para que destino também tenha destino. E que o destino do meu destino seja o destino do meu destino. A estrada que me leva não tem retorno, já tentei voltar mil vezes, mas é coalhada de encruzilhadas. Sofro por pensar que talvez tenha passado pelo cruzamento antes de cruzar com essa coisa que eu busco e que talvez me busque. 

Penso, ainda, que a coisa que talvez me busque também por outras pessoas. No fim, não sou tão especial. E o meu desejo é o desejo de um monte de gente. O destino nos levará a todos de baciada. Às vezes, acho que cheguei ao ponto de encontro, penso ter achado minha turma. Em algum momento, seremos arrebatados e levados ao nosso lugar. Espero não ter me amarrado ao grupo errado. Espero com ainda mais força que minha galera, essa galera que vai junto comigo em busca da nossa coisa, não seja uma galera chata. Não me perdoaria por perder o bonde porque simplesmente acho as pessoas desagradáveis e a elas não quero me associar. 

Invejo apenas o personagem do meu livro, uma pessoa que não existe, e mais ninguém. Porque quando se trata de desbaratino, todos nós, de carne e osso, estamos perdidos. Vai ver é por isso, inclusive, que livros ainda são vendidos e comprados. Dos mais sagrados aos mais pagãos.  

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