Em ‘Coração sem medo’ (Todavia, 2025), Itamar Vieira Jr. não descreve uma realidade de maneira engajada, no sentido estrito, mas torna visível aquilo que a sociedade tenta apagar.
Imagem de capa: Victor Moriyama (Reprodução).
Diferentemente dos dois primeiros romances da trilogia, Coração Sem Medo se passa numa paisagem urbana, mais especificamente, na metrópole de Salvador. É ali que acompanhamos a história de Rita Preta, narrada em terceira pessoa, mas inteiramente atravessada por sua voz e memória. O eixo central da narrativa é o desaparecimento de seu filho Cid, levado pela polícia sem qualquer explicação e jamais devolvido à família. A partir desse acontecimento traumático, Rita inicia uma verdadeira odisseia, na qual passado e presente se intercalam. Suas lembranças retornam em ondas, revelando não apenas sua própria infância e juventude, mas também a história de sua mãe, avó e bisavó: todas marcadas pela pobreza, pelo racismo estrutural e pelas agruras de um país que insiste em negar humanidade a certos corpos.
Rita Preta é uma personagem escrita com tons fortes e arrebatadores, mulher destemida, mãe corajosa, incansável na busca por uma explicação para o desaparecimento de seu primogênito. Semelhante a milhões de mulheres brasileiras que criam os filhos sozinhas e, dentro das limitações impostas pela vida, conseguem apenas ser a mãe possível. A figura paterna, quase inexistente, se resume a homens que desconhecem a paternidade, recusam-na ou simplesmente abandonam seus filhos sem sequer os registrar, uma realidade igualmente compartilhada por milhões de crianças no país.
O romance encerra com maestria a Trilogia da Terra proposta por Itamar Vieira Júnior. Por trazer como tema o desespero de uma mãe (dor universal e, ao mesmo tempo, marcada por recortes raciais e sociais) tornou-se, sem dúvida, meu volume preferido da trilogia. Ao longo de mais de 300 páginas, o autor nos conduz por múltiplas camadas de reflexão: a maternidade solo, o abandono paterno, a pobreza, o preconceito, a situação carcerária, a exploração do trabalho doméstico, a violência nas periferias, a escassa mobilidade social daqueles que nunca tiveram oportunidades, ressalte-se: desde 1888, quando a abolição da escravidão apenas empurrou os libertos para as margens da cidade, como se descartáveis. Carregamos, desde então, séculos de desigualdade social.
No romance, vemos claramente como a violência urbana se dirige sempre aos mesmos corpos — sabemos quem morre, quem desaparece, quem é alvo preferencial das forças do Estado. A escrita de Itamar, que lança luz sobre dores e vivências frequentemente silenciadas, aproxima-se da teoria da escrevivência, formulada por Conceição Evaristo. Escrever, nesse sentido, é inscrever as vozes das mulheres negras que historicamente narraram apenas sua dor, mas agora reivindicam o protagonismo de suas próprias histórias. Trata-se de uma escrita coletiva, de ancestralidade, que, neste romance, ressoa também com as reflexões de Lélia Gonzalez e Frantz Fanon acerca da constituição da negritude.
Itamar Vieira Jr. à luz de Lélia Gonzalez

A leitura de Coração Sem Medo à luz do pensamento de Lélia Gonzalez torna-se inevitável quando observamos o modo como Itamar Vieira Júnior constrói a trajetória de Rita Preta. Gonzalez, em seus textos fundamentais para a compreensão de nossa história de desigualdade, demonstra que a sociedade naturaliza uma hierarquia racial e de gênero, em que a mulher negra ocupa o ponto mais vulnerável da pirâmide social. Essa tríplice opressão: de raça, classe e gênero, não aparece de forma ensaística no romance, mas encarnada na experiência vivida de Rita, cuja dor não comove as forças policiais, não mobiliza o Estado e tampouco sensibiliza o judiciário. A busca pelo filho desaparecido revela, assim, não apenas o drama íntimo de uma mãe, mas a confirmação de que a vida negra no Brasil é administrada por estruturas que negam reconhecimento e humanidade. Gonzalez afirma que o racismo brasileiro opera “à brasileira”, mascarado pela ideia de cordialidade, mas produzindo efeitos devastadores, exatamente como ocorre na narrativa, em que a violência institucional não explode em espetáculos brutais, mas atua como máquina de apagamento.
Essa articulação entre violência estrutural e negação da existência encontra eco no pensamento de Frantz Fanon, o qual sustenta que os sujeitos negros, herdeiros de uma história colonial que insiste em permanecer, vivem permanentemente em um estado de assujeitamento, em que sua humanidade é suspensa ou distorcida. No romance, o desaparecimento de Cid sem explicação, sem culpa formal, sem corpo, evidencia o modo como a polícia brasileira opera uma política de exceção contra determinados grupos, decidindo quem permanece vivo e quem pode desaparecer sem consequência. Fanon denomina essa lógica de “gestão colonial da morte”, demonstrando que o colonialismo não termina com a independência política: ele se reinscreve no cotidiano das cidades e no tratamento diferenciado dos corpos. Rita Preta encarna essa condição, pois ela é cidadã apenas no papel, sem direito à justiça nem ao luto.
Ao aproximar Lélia Gonzalez e Frantz Fanon da narrativa de Coração Sem Medo, percebemos que Itamar Vieira Júnior não escreve apenas uma história sobre o desaparecimento de um filho, mas um romance que denuncia a permanência do colonialismo enquanto força atuante no Brasil contemporâneo. Rita Preta é ao mesmo tempo personagem e símbolo: representa as mulheres negras que sustentam o país, mas permanecem apagadas dos discursos oficiais. Nessa chave, a literatura não aparece como panfleto, mas como forma de intervenção: não descreve uma realidade de maneira engajada, no sentido estrito, mas torna visível aquilo que a sociedade tenta apagar. Itamar inscreve sua narrativa na tradição crítica de Gonzalez e Fanon ao mostrar que a violência contra pessoas negras não é exceção nem consequência eventual da pobreza, mas resultado de uma arquitetura social forjada no pós-abolição. Assim, a dor de Rita é coletiva, histórica, transgeracional. Por isso, sua busca é também a busca por um país que ainda não existe.

de Itamar Vieira Jr./
Todavia, 2025/ 345 pp.
No que tange ao fazer literário, penso que escrever literatura é desviar-se do lugar comum, buscar incessantemente estratégias da palavra, sempre em fuga de quem tenta capturá-la. Assim, o literário não reside no que se escreve, mas no como se escreve, e, como defende Roland Barthes, escrever é trapacear com a língua. A literatura brasileira contemporânea, especialmente a produzida por quem resiste a se adaptar à história oficial, se recusa a aceitar o presente como algo dado e definitivo. O agora é, para esses autores, um não-lugar, tensionado diariamente por quem imagina além do visível.
A urgência e o arrojo que marcam nossa escrita contemporânea movem-se pela necessidade de revelar um real ainda encoberto para a maioria. Daí a pulsação constante: o literário emerge para retirar o véu que cobre a sociedade, iluminando aquilo que esses artistas da palavra já enxergam há muito tempo. Subverter a escrita, os temas e os costumes por meio da arte literária torna-se, portanto, tarefa inevitável, como sugere Blanchot ao afirmar que a literatura se anuncia como acontecimento. Nesse mesmo sentido, diz Giles Deleuze: “A saúde como literatura, como escrita, consiste em inventar um povo que falta. Compete à função fabuladora inventar um povo.”
Essa dimensão política, longe de ser panfletária, preserva a realidade social como componente estético. O político, portanto, não está em descrever o real de forma verossímil, e sim em ser, a própria literatura, uma forma de intervenção no mundo.
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