
O gado vai sempre ao poço: 50 anos de ‘Lavoura Arcaica’
Em ‘Lavoura Arcaica’, Raduan ainda subverte a conhecida Parábola do Filho Pródigo, quando a volta pra casa do protagonista se transforma em tragédia ao invés da redenção bíblica.
Por Lucas Daniel Tomáz de Aquino.
Imagem de capa: Cena do filme Lavoura Arcaica.
Raduan Nassar é uma lenda na literatura brasileira contemporânea. À moda de grandes autores que possuem obras escassas, tal como o mexicano Juan Rulfo, o americano J. D. Salinger ou mesmo como seu compatriota Manuel Antônio de Almeida, Raduan Nassar publicou apenas 3 obras em uma carreira literária que se estendeu até os anos 1990.
Seu romance de estreia, Lavoura arcaica que completa meio século este ano, foi publicado originalmente em 1975 pela José Olympio editora. Em 1978, ele publicou a novela Um copo de cólera, que narra as duras desavenças de um casal e seu posterior reencontro amoroso, na qual prevalece a mesma densidade lírica de seu livro anterior.
Apenas em 1997 chegou às livrarias Menina a caminho, o último gênero literário restante nos escritos de Raduan Nassar, dando no volume de contos a continuidade dos temas abordados no romance e na novela, tais como o desejo, a identidade e o afeto, narrativas curtas produzidas em diferentes momentos de sua vida.

A estreia do autor paulista, filho de imigrantes libaneses, se deu somente aos 40 anos de idade, narrando em primeira pessoa a história de André, um jovem do meio rural que foge do seio familiar por conta da rigidez moral do pai e por conta de sua atração secreta e incestuosa pela irmã, Ana.
O livro tornou-se célebre especialmente por conta da estilística pendular do romance, quando mescla a prosa e a poética, utilizando anáforas, aliterações e assonâncias que dão ritmo febril ao discurso. Na narrativa, Raduan ainda subverte a conhecida Parábola do Filho Pródigo, quando a volta pra casa do protagonista se transforma em tragédia ao invés da redenção bíblica.
Destacou-se também na crítica, desde o lançamento do romance, um bloco inteiro ou jorro único de texto em um capítulo (estilo que seria replicado novamente em Um copo de cólera), às vezes com um único parágrafo ocupando páginas e mais páginas e que em Lavoura arcaica, simboliza na linguagem a febre de André por Ana e o afã da “partida” que abre o início do livro.
Em “Lavoura Arcaica”, a aparente “desordem” narrativa configura a também a confusão do jovem em contraponto à rigidez opressiva de seu pai
O estilo de Raduan Nassar é repleto de orações coordenadas e subordinadas que se encadeiam umas às outras em pontuações econômicas. Suas frases dão ênfase ao fluxo de consciência e à impetuosidade de André, mimetizando no leitor sua torrente de paixão e fuga. Em certo sentido, a aparente “desordem” narrativa configura a também a confusão do jovem em contraponto à rigidez opressiva de seu pai.
Após a publicação de Lavoura arcaica, o autor foi agraciado com o Prêmio Jabuti como autor revelação de 1976, ganhou o prêmio Coelho Neto da Academia Brasileira de Letras e ainda uma menção honrosa no Prêmio APCA, da Associação Paulista de Críticos de Arte.
O livro, hoje clássico, conseguiu arrebatar até mesmo figuras aparentemente díspares: Alceu Amoroso Lima, o Tristão de Ataíde, sujeito muitas vezes ligado ao conservadorismo e à época presidente da banca julgadora do prêmio da ABL, disse que Lavoura arcaica, cujo conteúdo toca temas delicados como o incesto, era um “livro impressionante, magistral”.
A adaptação ‘impossível’

Em 2001 o diretor Luiz Fernando Carvalho adaptou o romance para as telas. O filme recebeu dezenas de prêmios e entrou para a lista dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos da Associação Brasileira de Críticos de Cinema.
Muitos à época julgaram impossível tal adaptação, visto o vigor poético e linguístico da obra de Raduan Nassar que em 2016, pelo conjunto da obra, recebeu o Prêmio Camões, o maior prêmio da Língua Portuguesa, honraria concedida pelos governos do Brasil e de Portugal. No mesmo ano, sua Obra completa em volume único foi editada pela Companhia das Letras. Seu legado é extremamente conciso (escritores e editores conhecem bem a importância de cortar excessos no texto) e mesmo assim injetou na literatura brasileira contemporânea uma densidade estilística e temática desde então nunca vistas, pois a subversão da forma, a musicalidade da linguagem, a delicadeza da narrativa, tudo isso confirma a sentença final de Lavoura arcaica: “o gado vai sempre ao poço”. Dito isso, sabemos onde beber da fonte do maior gênio estilístico da literatura de nossos dias.
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Lucas Daniel Tomáz de Aquino é escritor, tradutor e professor de Filosofia na FATEO/Seminário Maior de Brasília. É mestrando em Metafísica pela Universidade de Brasília e autor do volume de contos Lâmpada diurna (Penalux, 2020).
