
Uma enorme baleia azul
Nem toda crise é destruição — talvez uma disrupção. A construção de uma vida não passa dela precipitando-se: você não cabe mais dentro dessa casca, dessa estrada.
Arte de Adriana Varejão (Reprodução).
Do ventre da baleia ergui meu grito:
Senhor! (dizer teu nome só é bom),
Em fé, em fé o digo, mesmo com
Um coração pesado e contrito
Que és de tudo verdade e não mito
Daniel Jonas
Até os dezoito, poucos de nós conhecíamos as principais ruas e avenidas da cidade. Os bairros da televisão só apareciam quando se comemoravam as históricas alegrias carnavalescas. Nosso centro era Cajazeiras, Pau da Lima, Castelo Branco, Boca da Mata, Jardim Nova Esperança, Marotinho — bairros que hoje soam como nomes de filmes, mas que, na época de menino, eram partes inteiras de um país. E foi beirando a primeira idade adulta que desbravamos a noite da orla soteropolitana. O clímax — nada calmo — seria o porto da Barra, onde vivi uma das experiências mais marcantes da formação de um jovem periférico de Salvador, mas, acima de tudo, de alguém que escrevia.
Éramos eu e mais dois amigos, inseparáveis até que a vida empurrasse cada um para um canto do mundo. Os bravos são aqueles que conseguem escrever, sem o uso de palavras molhadas, um poema de amor. Não sei se esse era o lema dos meus amigos, mas ele me perseguia — mesmo que eu não soubesse disso naquela época.
Pegamos o carro do pai escondido. Fomos de festa em festa e, por fim, na alta madrugada, paramos na praia em frente aos semáforos piscando. Uma viatura. Poucas palavras. A bota preta na cara. O som do engatilhar. A vida diante dos olhos e da rua vazia. Até que, do mar, uma luz — seguida do som do quebrar das águas — surgiu uma enorme baleia azul, 33,5 metros, 190 toneladas, saltava e abria a boca. Eu via, de um jeito bem simples, o verso do poeta português Daniel Jonas: “Do ventre da baleia ergui meu grito.” Todos estavam embasbacados, e a nossa cena se diluía.
Aquela visão do mar não me abandonou. Anos depois, ao ouvir Dona Pilar falar de retornos e travessias, percebi que a baleia ainda nadava dentro de mim. Eu já vivia em Alcântara, Lisboa, e arrendava o seu apartamento. Aquelas tardes em que descobrimos o mundo chegavam pela voz de um casal de retornados, Pilar e Manuel: um fio de melancolia servido com uma meia de leite e alguns biscoitos. Ele havia endossado a história quando se jogou da ponte 25 de Abril naquele mesmo mês em que retornou da África, com apenas a roupa do corpo. O ano era 1975. Com sua partida, restou o T2 de Alcântara, que ela herdara dos pais. Logo, ela o alugava para pagar a sua morada em outro apartamento.

Eram sempre os dois a conversar sobre as copas das árvores atrás daquela porta de chave mestra, tão antiga quanto todas as dores do mundo. Sim, ela falava no plural e reservava o lugar do marido ao seu lado no sofá. A xícara, o cinzeiro, a janela aberta. A presença da ausência era funda — um ar quebradiço, como é o rosto de quem guarda a espera. E seu sorriso abria-se tal um fado à beira do Tejo, que nos soprava logo ali, na mesma paisagem da ponte.
Havia um livro aberto sobre a mesinha da sala. Na página, uma frase sublinhada de vermelho: “Naquele momento, o futuro se tornou seu passado que se aproximava!” Era Mahmoud Darwish que falava sua tristeza sem que fosse proferido um único som ao vento, que insistia nas cortinas gastas.
Ela contava sobre a vida em um país estranho que, pouco a pouco, se tornara sua casa. A pequena varanda sortida de cores. O cheiro da terra molhada, uma terra em suas mãos. Os passeios nos finais de semana. O súbito. As catanas nos pescoços. O navio. O retorno. Dona Pilar mantinha o dedo levantado ao segurar a xícara. Conversava baixo e de forma calma. Pintava enquanto falávamos de uma vez em que cortou a mão — o rubro de seu corpo atenuado pelo branco da tela e pelo amarelo das flores que forjava. Criava uma luz crepuscular… ou seria uma alvorada?
Das vezes que tentei falar, sua voz encobria a minha. Mesmo em pequenos lapsos de linguagem, suas pausas diziam, e eu calava. Nas nossas conversas, me resumia a ouvir e respirar. De muito é feito um olhar que acolhe o peito sem canção. Ela tinha um fado como um fio na voz.
Nem toda crise é destruição — talvez uma disrupção. A construção de uma vida não passa dela precipitando-se: você não cabe mais dentro dessa casca, dessa estrada. E Dona Pilar pintava movendo as palavras.
Eu sacava o lápis, queria anotar o movimento de seus olhos, a gota que escorria e lia as marcas de seu rosto. As conversas com a minha senhoria foram minha primeira lição de como se escreve enquanto vida — e que nem sempre esses textos são feitos com palavras. A verdade é que, durante todos os nossos encontros, eu rabiscava uma enorme baleia azul naquele papel. Tão viva em cada traço, quando jorrava pelo espiráculo.
Leia Também: Mudaram os parâmetros: Estamos todos na pré-merda

