Crônica

Um dia en la playa

O mar azul-esverdeado já está cheio de argentinos e brasileiros na manhã de feriado prolongado sem sinal de chuva. Não são dez horas quando a disputa por um espaço na areia alcança um momento crítico.

Capa: Mural na Avenida Paulista, em São Paulo. EFE/ Reprodução


Maradona e Pelé abraçados e sorrindo um ao outro. Não é imagem de inteligência artificial, mas um adesivo de propaganda de um carrinho de ambulante que circula na praia de Canasvieiras sem que muita gente dê atenção.

O mar azul-esverdeado já está cheio de argentinos e brasileiros na manhã de feriado prolongado sem sinal de chuva. Não são dez horas quando a disputa por um espaço na areia alcança um momento crítico.

“No é no!”, grita em portunhol um turista a um atendente de um bar. Baixo, bronzeado, de cabelo escuro meio grisalho e topete invocado, o banhista poderia, à primeira vista, se passar por hermano, mas quem atravessou a fronteira foi o cara do quiosque, vindo da Argentina para trabalhar na praia e que tinha acabado de instalar guarda-sóis e cadeiras. São iguais no bronze e na estatura.

O turista tentou falar na língua do vizinho sul-americano para ser enfático, mas não tinha adiantando muito. O funcionário do bar insiste que o banhista e sua família não podem ficar ali com suas coisas tão próximos da área demarcada por ele, uma linha horizontal que já se mistura com os apetrechos de outros frequentadores atrás e adiante.

Mais dois funcionários do bar, que haviam instalado um carrinho de bebidas no meio da praia, cercam o banhista em intimidação. O turista não recua. Desta vez em português, pergunta se o quiosque tem alvará. Mostram um papel a ele. Argumento errado. Diz que vai chamar a polícia. E vai mesmo.

Some da praia por alguns minutos. Enquanto isso, a família espera ao sol, sentada nas cadeiras que haviam trazido. O turista retorna não com um, mas dois policiais. Todo mundo ao redor se vira para ver. Enquanto a conversa segue, o banhista injustiçado gira a cabeça para ter noção do tamanho da plateia. O atendente, fazendo às vezes de gerente do bar, não toma multa, mas um sermão. Quem passou dos limites foi ele.

O turista lavou a honra, mas não o corpo. Fica um bom tempo sentado na areia após o incidente. A cabeça ainda não tinha esfriado. Nem a camiseta tirou. Afunda na cadeira de praia entre a esposa e a filha. Tira uma latinha de cerveja do cooler e a abre dramaticamente como se quisesse reforçar sua vitória. Dá um gole e só então relaxa.

A calmaria parece ter voltado à praia. Ali perto, uma garota brasileira chama o amigo argentino gerações mais velho para jogar bola. Entre embaixadinhas, cabeçadas e chutes desajeitados, ora na água ora na areia, a dupla simboliza a convivência pacífica que tornou famosa a praia do norte de Florianópolis.

Meia hora depois, um ambulante passa vendendo facas de churrasco.

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