
SOSSEGO (AO VIVO), TIM MAIA – 2:43
Para contar todas as mais fascinantes histórias esquecidas nos buracos do asfalto, e lembradas apenas nos momentos de lucidez no natal. Ou então, em uma crônica a cada 15 dias.
Foto de Capa: Tim Maia (Reprodução).
Foi em meados dos anos 80. Lugar fechado, aquela fumaça espessa no ar típica de qualquer lembrança já meio puída pelas falhas da memória e oriunda da quantidade de cigarro da época. Ele saiu da casa noturna. Sentindo aquela leve brisa em refresco, ele pergunta para o rapaz na porta se “tem cigarro aí, bicho?”. Os dois acendem com o mesmo isqueiro e começam a conversar. Até hoje não se sabe ao certo quanto o papo teve de rolar, e quanto de fato rolou; mas enquanto o segundo cigarro ardia em últimos suspiros, o rapaz disse, assoprando a fumaça para fora da boca, que um amigo do seu irmão iria dar um show e se ele não queria um ingresso. Bom, não demorou duas tragadas para responder que sim, sabe-se lá de quem é o show, mas de graça aceita-se tudo. O rapaz sorriu, feliz por ver mais um convidado no show que estava promovendo.
Eles se encontraram, uma semana depois, na porta da casa noturna. Deu um sorriso e mais um cigarro e o ingresso. Lá dentro, prestes a começar o show, o tal do rapaz apresenta “esse aqui é o meu irmão”. O garoto não acreditou, ele pegou cigarro do irmão de um cantor mega famoso? Isso só pode ser brincadeira… “É você quem vai cantar hoje?” o cantor solta uma risada boa de se ouvir “ah… quem me dera ser o Tim…”. Conforme o cantor sai andando, dando uma risada tão melódica quanto sua voz, o garoto só consegue pensar que “Tim” era esse.
O novo amigo o leva para a coxia, dá um cigarro dizendo que “aqui pode fumar” e Tim Maia entra no palco. Assim, no palco. Bicho, esse é o mais próximo que até mesmo o Erasmo Carlos já esteve do Tim e bicho…, essa é a oportunidade que todo o Brasil quer em meados dos anos 80.
“quer que o Tim mande um beijo para a sua mina?”
Mais uma vez, não se sabe ao certo quanto o papo rolou ou teve de rolar para que alguém oferecesse ao convidado de honra uma oferta irrecusável “quer que o Tim mande um beijo para a sua mina?” “Mas é claro que eu quero, bicho!” (Provavelmente não disse “mina” mas algo parecido com isso nos anos 80 e há muitos indícios que ele ficou vermelho e deu aquela risada engasgada disfarçada com tosse típica de fumantes mirins). O coitado garoto não tinha namorada, mas não era necessário, quando te fazem uma oferta dessa, você escreve qualquer nome de mulher no guardanapo e manda para o cara. E nesse caso, não deixou nem mesmo a bituca de outro cigarro doado caísse no papel para não manchar a caligrafia.
Eu sei que foi no Natal passado que o Tio Dadado anunciou que “pô, lembrei de um presente que guardei para você (apontou para minha mãe). Mas guardei tão bem que esqueci”. E saiu buscando uma caixinha de som. A metade mais velha da família, que conviveu com Tio Dadado durante a sua adolescência achou que ele ia mostrar uma música que ele compôs quando aprendeu os dois únicos acordes no violão aos 13 anos. A outra parte da família tinha a certeza que ele se fantasiaria de Elvis para entregar os presentes, como todos os anos. Para a surpresa de todos, Tio Dadado coloca Sossego (ao vivo) do Tim Maia para tocar. “Esse daqui,” ele aponta para a caixinha de som “envelheceu como um bom vinho” ele sorri com um cigarro próprio na boca.
Foi no segundo minuto de música aos 43 segundos que minha casa tremeu. A família foi à loucura com “alô, Lisete! Beijo Lisete!” do Tim Maia. Ouvido por todos, reproduzido no spotify, o beijo que Tim Maia (em pessoa) manda para minha mãe. Para a minha mãe.
E o maior choque foi que Tio Dadado esqueceu.
Foi por conta do 2:43 de Sossego (ao vivo) que eu me inspiro para escrever crônicas sobre a cidade de São Paulo. Para contar todas as mais fascinantes histórias esquecidas nos buracos do asfalto, e lembradas apenas nos momentos de lucidez no natal. Ou então, em uma crônica a cada 15 dias.
E para dizer que o Tim Maia mandou um beijo para a minha mãe, como é evidente.
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