Crônica

Sente o gingado

Eu havia treinado a minha dança no chuveiro muitas vezes antes. Estava mais do que pronta para exibir minhas incríveis habilidades. Eu sentia a capoeira. Eu vivia a capoeira. Eu era a capoeira.

Arte: ‘Capoeira’, de Maria Auxiliadora da Silva (Acervo digital do MASP).


Quando me perguntam qual esporte eu pratico, tenho dificuldade em não responder “maratona de leitura”. E tenho mais dificuldade ainda em inventar alguma coisa para falar na hora do que deixar aquele clima chato em dizer “nada”. Eu me esforço, sabe? Eu tento impressionar e causar uma boa primeira impressão, mas quando esta pergunta aparece, fica difícil me defender. De qualquer forma, quem me conhece sabe: eu tentei. Juro que eu me esforcei muito para ser esportiva, mas tem coisas na vida que vem de fábrica e nesta edição, o aspecto do atleta ficou preso em Curitiba. 

Mas houve um tempo em que Mãe Bióloga ainda podia sonhar, e em uma única tentativa, eu fiz esporte. Aos 7 anos. Como o bom leitor já sabe, puxei o meu espírito de Policarpo Quaresma pelo simples motivo de Mãe Bióloga ter encarnado o próprio Policarpo Quaresma por toda a minha infância. E no quesito de esporte, não foi diferente. Eu fui fazer o esporte mais brasileiro de todos: Capoeira. 

Tenho vagas lembranças das aulas. Minhas memórias de quando eu tinha apenas sete anos ainda são nubladas, mas sei que depois da aula, Mestre Coelho aparecia com um berimbau na quadra e quando fazia frio as aulas eram na sala de música da escola. Mestre Coelho explicava que a capoeira na verdade era uma luta disfarçada de dança, na qual os escravizados praticavam para que os senhores de engenho não percebessem que eles estavam lutando. Era uma luta disfarçada de dança para evitar represália, que foi criminalizada por muito tempo até que em 2014 se tornou Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO. 

Conhecimento geral da nação, não é? 

Bom, eu só lembrava que era uma dança. E é isso que importava. Dançar. 

Nas aulas, eu tinha a certeza, surda e cega que aquilo era apenas uma dança mega criativa. O seu parceiro fazia um movimento e você respondia com outro e vocês dançavam livremente com os passos complementares um ao outro. Não tinha certo ou errado, apenas a livre criatividade. Eu amava isso. Me jogava nos movimentos, sentia o gingado e dava o meu melhor em expressar meus movimentos com muita inventividade. E Mestre Coelho tocando o berimbau no fundo. 

Eu não compartilhei com ninguém estes meus pensamentos. Deixei-os guardados para mim apenas, concentrados nas vozes da minha cabeça que iam a loucura sentindo o gingado e se remexendo. Quer dizer, nesta época eu ainda achava que as vozes da minha cabeça e as vozes da cabeça de todo mundo pensavam a mesma coisa. Se tratava, portanto, de uma certeza. Assim segui com a vida. Grande erro. Erro este que me mordeu na cerimônia da entrega de cordas. 

Mestre Coelho fez um grande evento na escola. Chamou todos os pais de todos os alunos de todos os níveis, chamou os outros alunos não praticantes, chamou os professores e chamou uma outra escola para “dançar” com a gente nesta cerimônia. Tinha gente tirando foto, tinha gente filmando, tinha o ginásio completamente lotado e tinha até mesmo a Mãe Bióloga e Pai Engenheiro presentes em um mesmo local em um mesmo evento, o que é algo extremamente raro e demonstra o caráter extraordinário da ocasião. Mas eu não tive frio na barriga, leitor. Não fiquei nervosa, não suei. Na verdade, eu fiquei muito entusiasmada com a oportunidade. Afinal, eu havia treinado a minha dança no chuveiro muitas vezes antes. Estava mais do que pronta para exibir minhas incríveis habilidades. Eu sentia a capoeira. Eu vivia a capoeira. Eu era a capoeira. 

Mestre Coelho chama o meu nome, Pitanga Porã. Segundo o tupi de Mestre Coelho, significa “Menina Bonita”, mas naquele momento, leitor, eu era apenas uma besta enjaulada pronta para me alimentar da capoeira pelo resto dos meus dias. 

Encarei meu parceiro de dança. Ele tinha que estar apto para me enfrentar na pista. No centro do ginásio. Na frente de todo mundo. Ele estava nervoso. Coitado. Seria devidamente jantado por mim, capoeirista nata. O coitado era de outra escola, ele olha para os pais. Ele se mostra receoso. Vejo os pais dele sentados nas arquibancadas acenando o encorajando. Eu nem mesmo olho de relance para Mãe Bióloga e Pai Engenheiro. Não preciso disso. Eu sou a capoeira. 

A dança começa com Mestre Coelho tocando o berimbau. Tã-rãn-tãm. Tã-rãn-tãm Está ouvindo o berimbau, leitor? Tã-rãn-tãm. Tã-rãn-tãm… começo a me mover como manda a performance. Um pé para trás, depois o outro. Uma mão na frente, com os punhos cerrados, e depois a outra. Corpo inclinado para frente. Sente o gingado, sente o gingado. Tã-rãn-tãm. Tã-rãn-tãm…

A dança vai crescendo. Vai ficando mais complexa. O oponente é bom, muito bom. Tã-rãn-tãm. Eu tenho que melhorar, tenho que fazer bonito para toda a escola ver. Tã-rãn-tãm, tã-rãn-tãm. De repente eu fico nervosa. Mão direita para frente, pé esquerdo para trás. Mão esquerda para frente, pé direito para trás. Tã-rãn-tãm. O gingado vai dominando meu corpo. Vai crescendo cada vez mais. Tã-rãn-tãm. Eu sou a capoeira, eu sou o gingado. Tã-rãn-tãm. 

Até que…

Até que o gingado que vem é outro. É disco anos 70. Entre uma mão na frente e depois a outra, meu punho fechado se abre. Meus dois dedinhos se esticam. Se alinham com os meus olhos. E de repente, estou fazendo o passo mais clássico da discoteca, dedinhos de paz e amor atravessando os olhinhos de guerreiro. 

Eu sou a capoeira. 

Tã-rãn-tãm. Tã-rãn-tãm. 

Meu parceiro para da dançar. Ele se volta ao Mestre Coelho incrédulo com o meu passo. Ele levanta as mãos questionando: 

— Qué isso? — O menino pergunta descrente na imagem da guerreira disco anos 70 encarnada na sua frente. 

Mas isso me encoraja a continuar, estou arrasando demais. Deixei-o sem chão. Derrotei o inimigo. Eu sou a capoeira. Danço ainda mais empolgada. Até todo o ginásio não conseguir mais segurar a risada e cair em coro na gargalhada. 

Mestre Coelho imediatamente para a nossa dança. Sem saber muito bem o que fazer nesta situação que saiu completamente do seu controle, ele levanta a minha mão e prossegue a cerimônia entregando a minha nova corda, muito bem-merecida, cinza e verde. As gargalhadas se misturam com as palmas e eu no fundo todo mundo sabe que depois dessa, não tinha como ficar sem corda.  

Depois dessa, eu não tive muita coragem de praticar outro esporte. Como o meu mais amado leitor sabe, fui obrigada a jogar futebol por um tempo, mas você já sabe como essa história acabou. Às vezes penso que na verdade, o mundo que não estava preparado para as minhas habilidades.