
São Paulo: Um Delírio: Uma leitura de ‘Cidadão’, livro de contos de Ricardo Pecego
Cidadão, livro de contos de Ricardo Pecego (Cachalote, 2025), é marcado pelo incômodo. Tudo isso, entretanto, não são atributos ruins à obra, mas apenas mostram que o autor está compromissado com o retrato mais fidedigno possível da cidade de São Paulo.
Como se conta a história de uma cidade? Ou como se elabora o perfil dela? São muitos os caminhos possíveis para fazer um retrato desse espaço geográfico. Comumente, utiliza-se o método das figuras notáveis. Em toda grande cidade, os bustos de seus cidadãos notáveis estão nas praças, nas rodovias, nas encruzilhadas. São essas pessoas que recebem o nome de ruas, de viadutos, de bairros, estações de metrô, etc. Porém, em “Cidadão”, Ricardo Pecego escolhe o caminho inverso.
Comecemos pelo título. Não gosto, no entanto vou recorrer aos gregos para falar um pouco de como aquilo que entendemos como “Cidadão” ainda remete aos fundamentos dessa cultura ocidental. Lemos n’A República, de Platão, que o título de cidadão da República não era entregue a qualquer um. Semelhantemente, a democracia grega não se aplicava a todos aqueles que nasciam em Atenas ou qualquer outra cidade-estado. Na verdade, para pertencer aquele lugar, era preciso possuir uma série de categorias. A primeira delas sempre foi a de ser homem e adulto. Mulheres e crianças estavam de fora, assim como crianças e estrangeiros e escravos. Mas o que podemos falar de hoje? Em uma das diversas epígrafes (que todo conto de Pecego, neste livro, apresenta), lemos o que escreveu a urbanista e psicanalista Joyce Berth: “As cidades são espaços de disputa em que o traçado nos permite identificar os discursos opressores que se formam pelo curso da história e estruturam nossa sociedade”.
De certo modo, essa máxima de Berth parece sintetizar a proposta do livro de Pecego. Para elaborar o retrato da cidade de São Paulo, Ricardo Pecego toma uma escolha: o de registrar nessa moldura fotográfica os rostos anônimos das pessoas que não foram incluídas dentro do projeto de cidadania que herdamos desse modelo ocidental. Porque, afinal, quem pertence à cidade? Se pensarmos no conceito de Direito à Cidade, muito caro aos direitos humanos, quem podemos dizer que tem a possibilidade de andar pelas ruas sem sentir medo? Uma mulher pode andar com a mesma tranquilidade no centro de São Paulo que um homem cis? E quanto a uma travesti? E quanto a uma pessoa com deficiência? Cada conto de Pecego apresenta-nos personagens que destoam do que pensamos enquanto cidadão pleno. São mulheres, travestis, homossexuais, usuários de crack, migrantes e afins. Seu recorte temático, como podemos perceber, está bem delimitado.
Todos que chegam nesse estado são manejados como rebanho que se alimenta, defeca e paira durante o dia. À noite se amontoam para dormir ou desenvolvem hábitos particulares, perambulando pelas camas e corredores, hipnotizaram-se com a simples claridade da lua e assim desfalecem pouco a pouco. (Trecho do conto “302.0”)
“Pecego não nos poupa do absurdo. Percebi-me pensando, algumas vezes, como esses contos desafiam o frágil conceito de verossimilhança”
– Ewerton Ulysses Cardoso sobre “Cidadão”, livro de contos de Ricardo Pecego.
Nos primeiros contos, a figura do usuário de crack se destaca. Somos levados à cracolândia, esse absurdo — delírio — que é uma cidade de zumbis dentro da cidade. A cracolândia é o fracasso de São Paulo, o fracasso de uma nação. Nesse sentido, o autor se aproxima dessas vidas quase como um documentarista. A maioria dos contos são narrados em primeira pessoa, mas soam como uma entrevista. É como se essas personagens estivessem narrando como elas chegaram onde chegaram para um repórter desses programas sensacionalistas. Portanto, tudo o que sabemos é sempre o ponto de vista da própria pessoa. Num exercício louvável de alteridade, o autor constitui vozes diferentes que contam as mais absurdas histórias: abandono parental, acidentes que geraram a perda de movimentos do corpo, migração forçada pelo desejo de uma vida melhor.
Pecego não nos poupa do absurdo. Percebi-me pensando, algumas vezes, como esses contos desafiam o frágil conceito de verossimilhança. Nos estudos literários, prezamos muito por contar uma história verossímil. Contudo, será mesmo que a realidade é verossímil? Ao ouvir histórias de pessoas em situação de rua (eu trabalho há alguns anos enquanto voluntário com pessoas em situação de rua), percebi a complexidade que é a realidade. As histórias absurdas contestam aquilo que compreendemos como provável de acontecer. Pecego entendeu muitíssimo bem isso. Usa e abusa do absurdo para contar histórias que são tão inverossímeis que só podem ser inspiradas na vida real.
Faz tudo isso dentro de um projeto estético que nos lembra as nossas grandes referências do conto. Consegui relacioná-lo principalmente com João Gilberto Noll e Dalton Trevisan. Há um descritivismo interessante. Os cheiros (sempre o mais fétido, o mais incômodo), o despudor do sexo, as minúcias dos corpos doentes, tudo isso nos é apresentado de forma crua e visceral. É quase gráfico. Isso transborda na linguagem repleta de palavrões e palavras chulas, sem o compromisso de fazer da leitura algo agradável.
Pelo contrário, Cidadão é um livro marcado pelo incômodo. Várias vezes me peguei com nojo das cenas descritas, incomodado em ler as desgraças sucessivas que não permitem com que o leitor vislumbre uma possibilidade de esperança nas narrativas. Tudo isso, entretanto, não são atributos ruins à obra, mas apenas mostram que o autor está compromissado com o retrato mais fidedigno possível dessa cidade. As epígrafes já citadas, sempre precisas, também mostram como houve um estudo não apenas no desenvolvimento literário dos contos, porém também enquanto conceito. Ricardo Pecego me parece um autor que escreve a partir de processos de leitura e de pesquisa que são extensos. Gosto desses, os que fazem o dever de casa.
Nem todos os contos, no entanto, são bem sucedidos. Alguns deles escorregam pelo excesso. Excesso de desgraça, excesso de repetições de adjetivos desagradáveis, excesso desse descritivismo gráfico. Em alguns momentos, ficou um pouco claro que havia certa intenção de chocar e, uma vez que o choque vem com certa frequência, uma hora também ficamos insensíveis.
Logo, senti que o livro diminui ao longo da leitura. Ele começa muito intenso, e Pecego é um escritor que sabe escrever (e que, desse modo, faz o bom uso da linguagem para prender o escritor), mas depois conseguimos captar o estilo narrativo, a estratégia da contação, e fica previsível os caminhos que o autor vai percorrer. Sendo assim, penso que poderia ser um livro mais enxuto. Nada é realmente ruim, contudo pode ser cansativo. Isso fica representativo no quanto que eu demorei para ler o livro. Alguns contos me ofereciam estímulos demais e eu precisava pausar a leitura por um tempo e ler outras coisas. É muito difícil ler três contos seguidos de Pecego, e para mim, que, obrigatoriamente, preciso dar conta de um grande volume de leitura, senti-me deslocado (o que não necessariamente precisa ser ruim).
O que fica enquanto síntese é de que é um livro de um autor que tem bastante noção do que está fazendo e que claramente trabalhou nos seus contos sem preguiça. Ricardo Pecego é, portanto, um autor que tem um projeto estético definido e não se mostra em nada amador: é um autor pronto. Os desencontros que a leitura pode oferecer não diminuem a qualidade inegável do seu texto.


