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‘Rosas de Chumbo pesam e não morrem’

A urgência presente em Rosas de Chumbo (2025) nos faz ler e reler para, então, digerir. A obra da escritora e artista Daniela Bonafé, publicada pela editora Praga, torna mulheres silenciadas, conhecidas.


Publicado originalmente em 18 de julho de 2025

Em 2024, o longa-metragem Ainda Estou Aqui (2024), vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional, adaptado do romance de Marcelo Rubens Paiva, tornou Eunice Paiva uma mulher internacionalmente conhecida pela sua luta. Um período vermelho sangue da nossa História política e civil foi assistido, em telas grandes e pequenas, por todos os cantos, por meses. Aquela mulher vivenciou uma das piores ausências : o não saber. Não saber o que aconteceu e o que fizeram com o homem que dividia a vida com ela. Tantas outras passaram pelo mesmo e ainda pior. Elas sumiram e deixaram o vazio do não saber no peito de outras mulheres, mães, irmãs, amigas.

Rosas de Chumbo põe em páginas palavras que não foram proferidas por línguas que foram sepultadas. Passeando por poemas, cordel, conto e dramaturgia, Daniela Bonafé demonstra o cuidado com a vida de cada mulher que se faz presente em sua obra. A pesquisa é inegável. Quão bem foram lidas essas mulheres em arquivos, para tentar compreender quem eram, o que fizeram, o que sentiam.

‘Espero que alguém abra um livro para eu gritar’, Daniela Bonafé, p. 89.

Quando se trata do factual, a ficção sempre deixa algo escapar. Foge da capacidade do escritor captar com exatidão a essência do real, mas isto faz parte da beleza e da dor da ficcionalização dessas mulheres. Bonafé imprime nelas algo que lhes foi tomado a força, a ferro, a chumbo. Tiraram a vida dessas mulheres e Bonafé devolve um pedaço do respiro em cada linha que marca uma possível memória ou um talvez afeto que sentiam durante uma luta legítima por liberdade. O que poderia ser, o que poderia ter sido dito, o que poderia ter sido pensado por mulheres que não puderem ser, dizer e pensar. Sequestradas, mortas e violentadas em uma ditadura que faz o país sangrar, ainda quarenta anos depois.

Em março do presente ano, quando este livro foi lançado, mulheres e homens se reuniam nas ruas do país para gritar contra a anistia, inspirados pelo longa que se tornou, realmente, assunto até dentro do metrô. Faltavam ar nos pulmões dos protestantes para falar tudo que queriam na cara dos que saíram impunes. Dos assassinos e abusadores de mulheres que não podem mais gritar por si. Mulheres que nunca foram encontradas, tão pouco esquecidas. Ser uma mulher, lendo sobre mulheres que foram eternizadas na literatura por outra mulher, me faz querer gritar que esse livro da Daniela Bonafé não foi escrito – apenas – para mulheres. Ele precisa ser lido por todos. Precisam conhecer o nome de Ísis Dias de Oliveira, de Maria Célia Corrêa, de Lyda Monteiro da Silva, de Miriam Lopes Verbena e tantas outras que estão presentes nessa obra e até daquelas que por algum motivo não couberam nessas páginas, porque sim, existiram muitas, talvez incontáveis, desconhecidas pelo desaparecimento.

Talvez esta resenha esteja se tornando muito emotiva, mas não consegui ler Rosas de Chumbo sem sentir tantas coisas. Dor, tristeza, indignação. Como isso pôde ter acontecido? Onde estão essas mulheres? O que fizeram com aquelas que nunca conheceremos nem o primeiro nome? São perguntas sem respostas deixadas por uma ditadura longa e encharcada pelo sangue de quem se opunha aos absurdos. Bonafé também não apresenta respostas, não porque não gostaria, creio eu, mas porque ainda não foram alcançadas. A escritora se ateve ao que tinha em mãos: a história daquelas mulheres. Uma escrita tocante, que surpreende pela forma, tão singular como as vidas dedicadas em cada capítulo. Para Maria Augusta Thomaz, um diário, para Íris Amaral, um conto e para Valmira, irmã de Alceri Maria Gomes da Silva, uma carta. Poemas e haicais. Para tantas. Cinquenta delas. Que viviam do Nordeste ao Sudeste. Muitas passaram pela Guerrilha do Araguaia e lá foram mortas. Algumas atravessaram o oceano para se refugiar em outro país, e ainda assim foram mortas, como relatado no posfácio. Mortas pela ferida aberta e jorrando no peito, com dores causadas pelas ameaças e perseguições. Outras viveram perto de onde vivo hoje, em Cachoeira e em Salvador. Perto demais e ao mesmo tempo tão distanciadas, mas próximas por causa da literatura de Bonafé que as resgata e as faz conhecidas, assim como Eunice. Que essas fiquem tão conhecidas quanto, porque precisam.

Ditadura, nunca mais!

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Rosas de chumbo, Daniela Bonafé
Editora Praga