Crônica

Retrato de Seu Genaro

Publicado originalmente em 16 de julho de 2025.

Foto: Unsplash.

Fiz um amigo novo recentemente. Falando bem a verdade, foi um amigo meio que herdado. Meio que, não inteiramente. Por alguma risada do acaso, quando eu vou ao trabalho faço o mesmo caminho que minha mãe fazia quando ela voltava do dela. E por alguma risada do destino, o vendedor ambulante que ficava no farol na época da minha mãe, permanece trabalhando no mesmo lugar hoje. O sujeito simpático anda por anos entre os carros vendendo: duas bolas do Homem-Aranha (uma em cada mão), duas raquetes de matar mosquito penduradas em cada braço, algum grampos de segurar o cinto de segurança entre os botões da camisa puída e nas mãos segura suporte de celular para carro. Ah, e um sorriso no rosto, como é evidente. 

Não demorou muito para que ele identificasse a repetição do meu rosto entre os milhares de motoristas que passam diariamente no seu farol, no cruzamento da Avenida Pedroso de Moraes com a Rebouças. Acho que não demorou mais de três vezes para ele começar a pedir que eu abaixasse o vidro e o cumprimentasse na ida ao escritório. O que ele não sabia, é que eu já o conhecia desde que me conheço por gente. Começamos com aquelas conversas rápidas de “e aí! Você por aqui de novo. Vai levar alguma coisinha hoje?” e respostas curtas com “hoje não, obrigada, viu”. Até que um dia o trânsito estava um pouco mais parado do que o habitual, o que sejamos honestos, não é difícil de acontecer na Rebouças, e decidi conversar um pouco mais com o vendedor ambulante. Decidi perguntar o nome dele. 

“É Genaro, lindinha” ele me responde em meio a um sorriso. “Meu pai era italiano de Gênova e…” aí leitor, foram três fechadas e abridas de farol e eu parada no mesmo lugar com o motor ligado para selar a nossa amizade. Na época do carnaval, Seu Genaro me conta as dificuldades de trabalhar entre os carros quando os carros deixam de passar. Nos feriados, Seu Genaro compartilha comigo como o movimento piora e ele não consegue vender. E aos poucos, com ele me contando do seu trabalho na minha janela, foi decorando as bugigangas penduradas no seu corpo. Sem nunca saírem, sem nunca mudarem, sem nunca nem mesmo trocarem. 

É Genaro, lindinha!

Entre duas trocas de sinal e nenhum movimento (padrão Rebouças) Seu Genaro perguntou para onde eu ia todos os dias. Respondi que era trabalho, estágio na verdade. Exibindo o dente de ouro ele me questiona “estágio do que? Mas faz o que?” pendurando na ponta da língua como que funciona esse tipo de oportunidade.  Contei que era estágio de direito, direito tributário essas coisas de imposto e números e taxa Selic. Seu Genaro assente com uma careta  que eu já me acostumei a ver no rosto de diferentes pessoas quando dou a mesma resposta. Depois do silêncio, ele me compartilha que não gosta muito dessa gente, eu dou uma risada “é advogado dá medo mesmo. Eu que o diga”. Ele sorriu, me desejou bom trabalho e eu respondi para ele também. O farol abriu e eu segui.

Por três metros. Comicamente ele se fechou novamente e seu Genaro em dez passos alcançou minha janela novamente. Disse que está com medo do inverno. No inverno, as pessoas não abrem as janelas e ele não vende. Eu não soube o que responder. Ele continuou dizendo que rezava para que hoje ao menos não chovesse, eu cortei a frase dele sem querer. Disse que também não queria e que era “toma cuidado com a chuva, viu?” Na minha cabeça eu logo vi seu Genaro escondido atrás da árvore todo ensopado e tremendo, vendo os raios caindo e tendo que desviar de galhos kamikazes.

Seu Genaro parou com a minha frase. Se afastou da janela, endireitou a coluna e me encarou com a cabeça reta e olhar sério. Ficou alguns segundos piscando ,sem nada a dizer, até que ele balança a cabeça em aceno e diz “obrigado. Pode deixar, lindinha”. Foi aí que o farol abriu de verdade e eu deixei seu Genaro desaparecer no retrovisor para reaparecer na próxima terça e quinta.

Eu sei que não deveria falar com estranhos. E nem deveria abrir a minha janela no meio do trânsito. E que deveria tomar mais cuidado com esse mundo que anda tão maluco… mas da próxima vez que você, leitor, passar no cruzamento da Pedroso de Moraes com a Rebouças, eu espero que abaixe o vidro e dê um saudoso “oi” ao Seu Genaro. E que sinta falta, quando ele por lá não estiver. Afinal, essa cidade é tanto dele quanto nossa, e a rua que a gente passa todo dia a caminho do nosso ganha-pão, é o escritório dele. 

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