Crítica

‘Ressuscitar mamutes e reviver a mãe no romance de Silvana Tavano’, por Douglas Sacramento

Escrever e lembrar, morrer e esquecer, são instâncias no campo do jogo literário proposto por Silvana Tavano em ‘Ressucitar Mamutes’ (Autêntica, 2024).

Foto: Reprodução.


Roland Barthes, em Diário de luto, numa das entradas, mais precisamente do dia 26 de novembro de 1977, ao elaborar e escrever sobre a morte da mãe, afirma: “Assusta-me absolutamente o caráter descontínuo do luto”. Quando alguém morre e iniciamos esse trabalho de luto, como aponta o pensador francês, vivenciamos suas idas e vindas, seus altos e baixos. Estamos diante de um questionamento e de uma falta que nos coloca na (im)possibilidade de transpor em linguagem a ausência do outro e, consequentemente, a nossa iminente morte.

A morte traz consigo demandas, costuras e nuances. Sou pesquisador dessa temática e, há quase dez anos, me debruço sobre ela, investigando como a literatura dá conta de abordar o falecimento e como a tessitura do texto traça caminhos – em diálogo com aspectos culturais e estéticos – para tentar colocar em palavras um tema tão espinhoso e, para muitos, ainda um tabu. Por pesquisar esse tema, leio muitas obras cujo enredo gira em torno da partida. Nos últimos meses, reli diversos livros literários que tratam da perda de entes familiares, especialmente após a morte de meu avô. Sempre me interessei pela costura entre memória e morte – tema de minha dissertação, posteriormente publicada como livro. Mas, nos últimos anos, ao escrever minha tese sobre pós-morte na literatura, percebo que o que mais tenho feito é, de fato, pensar na morte.

Dessa última leva de livros lidos, me deparei com o romance aqui analisado, movido por um comentário da Natália Timerman – autora de As pequenas coisas (Todavia, 2023), excelente romance sobre a perda da figura paterna. No Histórias Diversas Podcast, Timerman afirmou que Ressuscitar mamutes (Autêntica, 2024), romance de Silvana Tavano, é “Literatura, com L maiúsculo” e explicou que a obra gira em torno da morte de uma mãe e da elaboração de um luto por parte da filha. Fiquei curiosíssimo e comprei o livro.

Silvana Tavano é uma escritora contemporânea que, durante muitos anos, escreveu para o público infantil – segmento pelo qual recebeu o Prêmio Jabuti em 2022. Recentemente, enveredou para o romance, colhendo frutos em abundância: seu primeiro livro, O último sábado de julho amanheceu quieto (Autêntica, 2022), foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura na categoria Romance de Estreia. Ressuscitar mamutes é seu segundo romance e foi semifinalista do Prêmio Jabuti 2025, na categoria Romance; além de indicado ao Prêmio Oceanos e ao Prêmio São Paulo de Literatura.

Ressuscitar mamutes aborda o luto. A protagonista do romance – narrado em primeira pessoa e caracterizado pela diluição de fronteiras entre personagem e figura autoral – perdeu a mãe no início dos anos 2000, logo, somos apresentados a essa figura materna por meio da elucubração da filha sobre a perda. A mãe morreu de forma repentina, após uma cirurgia, deixando duas filhas. Entre o nascimento da mais velha e da caçula, sofreu alguns abortos. Trata-se de uma mulher que se separou e não voltou a se casar, que conheceu o marido na igreja e viajou com a filha após o divórcio. Uma mãe e avó querida pelos netos.

Silvana Tavano. Foto: Luiza Sigulem (Divulgação)

Silvana Tavano reflete sobre o ato de ‘desextinguir’ em Ressuscitar Mamutes

Mas, para começar a abordar essa falta, o romance apresenta ao leitor, com um tom ensaístico que perpassa toda a narrativa, as pesquisas voltadas a ressuscitar mamutes para “restaurar o ecossistema do pastoreio do Ártico” (p. 8). A ideia é trazer esses animais de volta por meio da clonagem, de modo que o pastoreio contribua para evitar o derretimento do permafrost – nome dado ao solo ártico que impossibilita a escapada dos gases do efeito estufa retidos sob as camadas de gelo. Portanto, Silvana Tavano reflete sobre o ato de “desextinguir” (p. 9) ou “ressuscitar passados, inventar futuros: ciência e literatura viajam no tempo dos sonhos para chegar ao impossível” (p. 10).

Com essa frase que encerra a “introdução do livro”, somos apresentados ao mecanismo que estrutura as escolhas estéticas do romance. A partir desse momento, o leitor passa a acessar vestígios – como fazem os cientistas ao estarem diante do fóssil de um mamute – e é também por meio desses vestígios que se projeta o desejo de ressuscitar o animal e a mãe da protagonista. Ciência e Literatura. Logo, ao introduzir essa imagem inicial, o texto coloca em cena uma das relações mais potentes e belas da literatura: a memória e a morte, que, nesse bailado simbólico, possibilitam o retorno de quem já partiu. Um modo de ressuscitar pela arte, começando o exercício de reconstruir a memória dessa mãe e de apontar modalidades e conexões possíveis para compreender o luto e o trabalho do luto. 

“[…] Como pontas de um iceberg, cenas que o trauma congelou emergem, compactadas em paisagens desconhecidas: a filha que não consegue entrar no mundo da mãe; a mãe inacessível durante a vida e na morte – minha mãe acenando de uma casa desconhecida, que só consigo vislumbrar de fora.”

Silvana Tavano em ‘Ressucitar Mamutes’ (p. 25).

Ecoando o pensamento de Barthes sinalizado no início deste texto, observa-se uma descontinuidade no trabalho do luto, e essa especificidade permeia todo o romance da Silvana Tavano, começando pelas questões temporais, destacadas já na primeira parte da obra: seria possível acessar tempos outros? A resposta é organizada nos modos listados pela narradora de viajar no tempo, por meio dos quais é possível entrar em contato com quem já se foi – por fósseis, por lugares com fendas temporais – e para isso existe a inserção de uma linguagem ensaística que cita acontecimentos e experiências. Dessa forma, o romance mostra ao leitor que, para chegar a alguma conclusão sobre a perda, é preciso estar acompanhado e amparado, pois os ensaios costurados na narrativa remetem a outros ensaios, que dialogam com escritores, criando uma rede que dá significado a essa perda. 

Quanto ao tempo, há, em toda a obra, uma tentativa constante de compreender novas formas de percebê-lo – o hoje que são múltiplos hojes, por exemplo –, situação que leva a protagonista a atestar a angústia da escrita ao tentar dar conta de um tempo que já não é mais o mesmo, em razão da cisão que a morte provoca no sujeito: a falta da mãe e o reconhecimento de que própria finitude da protagonista pode estar próxima.

“Mas hoje também é hojes. Um tempo largo, único e múltiplo, que tento abraçar no plural, e provavelmente falho. Existe palavra capaz de apreender o tempo se escrevo aqui pensando no que acabei de escrever e, ainda, no que virá em seguida? O tempo é (também) a angústia da escrita.”

Silvana Tavano em ‘Ressucitar Mamutes’ (p. 23).

Motivada por essa tensão entre tempo e escrita, a narrativa deságua na tentativa de escrever a partir da angústia, ou seja, a partir da perda da mãe. Trata-se de um esforço de narrar esse passado que retrata a vida da mãe da protagonista, desde antes do casamento e da maternidade até o momento de sua morte. A angústia do tempo é justificada pelo próprio modo como a protagonista narra essa perda, emulando uma compreensão outra das categorias temporais: um hoje dentro de hojes. Assim, o ato de escrever funciona como prática que organiza os sentimentos da perda e traz de volta a presença da mãe, em um movimento que entrelaça passado e futuro: 

“Remontar a vida ao lado dela – escrever faz parte desse esforço. Mas a memória se configura por si só, me desafia, esconde imagens que as palavras poderiam desenhar. Expõe entrelinhas que não quero ler.”

Silvana Tavano em ‘Ressuscitar Mamutes’ (p. 65)

Como na citação anterior, rememorar implica uma nova leitura dos fatos e revela detalhes antes recalcados. Esse modo como a escrita elabora o luto é conceituado por Barthes, numa das entradas de seu Diário de luto, por volta de 12 de abril de 1978, de maneira muito visceral: a escrita funciona como um mecanismo de não aniquilamento da memória materna. Afinal, é inevitável que, com o passar do tempo, as memórias se tornem mais recônditas; entretanto, a escrita as traz à tona e combate o esquecimento.

“Escrever para lembrar? Não para me lembrar, mas para combater a dilaceração do esquecimento na medida em que ele se anuncia como absoluto. O – em breve – “nenhum rastro”, em parte algum, em ninguém.”

Roland Barthes em ‘Diário do Luto’

Assim, escrever e lembrar, morrer e esquecer, são instâncias no campo do jogo literário proposto por Silvana Tavano. As últimas partes do livro elevam esteticamente a dilatação do tempo, que compõe o plano de fundo desse embate. A narrativa apresenta uma retrospectiva na qual a mãe se desloca entre temporalidades, atravessando o espaço-tempo, pois já não está mais presa ao tempo cronológico do mundo visível. Para mim, esse é o ponto alto do romance, marcado por maestria e poeticidade.

Passeamos junto com a narradora – que, no labor da escrita, manipula o tempo – e com sua mãe, que flutua etereamente pelas caixinhas de marcação temporal. Acompanhamos a trajetória de 1949 até 2003, ano da morte da mãe, e, em seguida, avançamos para o futuro, seguindo a linha cronológica de 2004 até “um dia”, após 2054, quando a bisneta da mãe da protagonista completará 30 anos. 

Ao iniciar o romance abordando a possibilidade de ressuscitar mamutes, chegamos ao desfecho com o mamute ressuscitado – funcionando como metáfora metaliterária que representa o labor da protagonista ao escrever. Narrar para ressuscitar quem não está mais aqui. Narrar para ressuscitar mamutes. Narrar para ressuscitar a mãe.

Os mamutes ressuscitados não são idênticos aos originais, são híbridos, marcados por mudanças provenientes da manipulação científica sobre o passado. Aos poucos, esses mamutes híbridos “parecem-se cada vez mais com seus antepassados” (p. 114), embora seja impossível alcançar o original. O mesmo ocorre com a narrativa sobre a perda da mãe: ela não restituiu o passado tal como foi, mas o aproxima e oferece novas possibilidades de imaginar futuros.

Essa estratégia torna o romance potente, revelando as nuances de vulnerabilidade próprias do processo de enlutamento, com imagens profundamente elaboradas e costuradas na organização estética da obra. Faço coro a Natália Timerman: é Literatura com L maiúsculo.

Ressucitar Mamutes, de Silvana Tavano/ Editora Autêntica, 2024/ 120p.

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Douglas Sacramento é doutorando em Estudos Étnicos e Africanos (Pós-Afro/UFBA) e bolsista CAPES. Mestre em Literatura e Cultura (PPGLitCult/UFBA). Desenvolve pesquisas sobre a morte e suas representações na literatura negra e não negra, abordando temas como pós-morte, luto e perda, corporeidade ausente e presente, erotismo e morte, ritos fúnebres e as relações entre morte e religiosidade de matriz africana.