Crítica

‘Querido Amigo’: As Cartas do ‘Boom’

Correspondência de Julio Cortázar, Mario Vargas Llosa, Carlos Fuentes e Gabriel García Márquez reunida em ‘As cartas do Boom’ (Record, 2025) mostra bastidores do movimento que projetou e ajudou a forjar a literatura latino-americana contemporânea.

Foto: Única foto conhecida dos quatro autores juntos (Bonnieux, 15 de agosto de 1970). O grupo se dirigia à casa de Julio Cortázar em Saignon, após a estreia da peça El tuerto es rey, de Carlos Fuentes, no festival de Avignon. Visíveis, em semicírculo da esquerda para a direita: Juan Goytisolo, José Donoso, Carlos Fuentes, Patricia Llosa (de costas), Mario Vargas Llosa, Ugné Karvelis, Abraham Nuncio (em pé), Julio Cortázar e Gabriel García Márquez.

Texto por Cassiano Viana.


“Pelo visto, o nosso verdadeiro destino está na literatura epistolar”
Gabriel García Márquez para Carlos Fuentes, 2 de novembro de 1968

No dia 16 de novembro de 1955, Carlos Fuentes, um estudante de direito de vinte e sete anos que havia lançado, no ano anterior, um primeiro livro de contos, Los días enmascarados, envia do México uma carta para Paris, para o argentino Julio Cortázar, 41 anos, solicitando a colaboração do autor de Bestiário para a revista que dirigia – a Revista Mexicana de Literatura: “Seria uma honra contar com a sua colaboração em edições futuras. Todos nós conhecemos o seu valor como escritor […] Fico no aguardo de notícias suas, com a minha admiração e amizade mais sinceras”, escreve. 

Cumprindo honrosamente a cláusula mínima da correspondência, Cortázar responde a Fuentes, que só conheceria pessoalmente em 1961, enviando o conto “Os bons serviços” – publicado posteriormente em As armas secretas (1959) – e finalizando a missiva de forma carinhosa: “Abraços a Arreola1 e a Paz2 quando se encontrar com eles, e até breve, com o profundo afeto do seu amigo, Julio Cortázar”. 

Assim tem início a troca epistolar que irá culminar no Boom que difundiu em escala internacional a narrativa latino-americana durante os anos 60 do século passado, a partir do sucesso editorial de livros de um argentino (Júlio Cortazar), um peruano (Mário Vargas Llosa), um colombiano (Gabriel Garcia Márquez) e um mexicano (Carlos Fuentes), os representantes mais emblemáticos do fenômeno cultural de repercussão mundial que reunia ainda autores como o chileno José Donoso, o guatemalteco Miguel Ángel Asturias, o paraguaio Augusto José Antonio Roa Bastos, os cubanos Alejo Carpentier e Guillermo Cabrera Infante, o uruguaio Juan Carlos Onetti e o mexicano Juan Rulfo. 

A correspondência, publicada no Brasil pela Record, em As cartas do Boom, reúne, no entanto, cartas trocadas pelos quatro primeiros. O epistolário inclui 207 missivas trocadas entre os autores. O livro se inicia em 1955, com a carta de Fuentes para Cortázar e, e vai até 2012, ano em que Fuentes, aos 85 anos, se despediu carinhosamente de García Márquez como “seu amigo de sempre”.

Alguns eventos memoráveis do epistolário: a construção da identidade dos autores, os acertos com editores e agentes literários, a participação em eventos literários, as comemorações pelo sucesso de Cem anos de solidão, obviamente, as relações dos quatro escritores com Cuba, os bastidores das cartas enviadas para Fidel Castro, sobre os problemas dos intelectuais em Cuba, os boletins médicos de Cortázar, a alegria pelo Nobel de Garcia Márquez, os comentários de Cortázar sobre Blow-up, filme de Antonioni baseado em seu conto “As babas do diabo”, de As armas secretas, o relato de Cortázar na estrada de Paris a Marselha, em 1982,que daria origem a Os autonautas da cosmopista, o pesar pela morte de Carol Dunlop, última companheira de Cortázar, os desejos de Fuentes e Garcia Marques de prolongar nos filhos a amizade íntima e de longa data, a celebração de Fuentes pelos 85 anos de García Márquez.

À esquerda, Gabriel Garcia Márquez e à direita Mario Vargas Llosa (Reprodução)

Fuentes guardou a maioria das cartas, segundo os organizadores do livro ‘As Cartas do Boom’

O livro traz ainda uma seção de “Ensaios e entrevistas”, em que se destacam a resenha de O jogo da amarelinha, por Vargas Llosa, e as belíssimas elegias de Fuentes e García Márquez pela morte de Cortázar, em 1984, e uma seção “Documentos”, que inclui pronunciamentos coletivos dos autores, dentre eles, as famosas cartas enviadas para Fidel Castro, e publicadas no Le monde, em protesto pela prisão de Heberto Padilla, quando tudo começou a azedar e o Boom virou fim de festa.

Segundo os editores, deve-se a Fuentes, que não só guardou as cartas que recebeu, mas fez cópias de boa parte das que enviou, a existência do livro. Vargas Llosa guardou somente as que recebeu. Dos quatro, segundo os organizadores, foram eles que tiveram, desde muito cedo, uma clara consciência da necessidade de preservar os arquivos, preservados, atualmente, na Universidade de Princeton.

Para fins de genealogia, O jogo da amarelinha (1963), de Cortázar, é considerada a obra inicial do Boom, e Cem anos de solidão (1967), de Garcia Márquez, o livro que deu consistência ao ainda fluido e indeciso boom, “outorgou-lhe forma e, de certo modo, o congelou para que pudesse começar a extinguir-se”, escreve o uruguaio Ángel Rama3, um dos primeiros e mais importantes críticos do Boom.

No artigo “El Boom en perspectiva” (1984), Rama aponta o êxito comercial e o espantoso crescimento das tiragens de livros de autores latino-americanos nos anos 1960, dando como referência os títulos de Cortázar: se antes de O jogo da amarelinha livros como Bestiário e As armas secretas eram lançados com tiragens iniciais de 3 mil exemplares, após o sucesso de Amarelinha, as tiragens iniciais de novos títulos e de reedições se instalaram em um patamar de 10 mil exemplares.

No entanto, o ponto alto da produção editorial do período é centrado, segundo Rama, em Cem anos de solidão, que é lançado com uma tiragem inicial de 25 mil exemplares, e que passou, um ano após seu lançamento, a uma tiragem anual de nada menos que 100 mil exemplares, uma “revolução nas vendas de romances no continente”, observa Rama4.

‘Ninguém chega só às literaturas’

Rama foi também um dos primeiros a perceber que, após um período de exaltação e consenso crítico positivo, no início da década de 70 os autores do Boom passaram a ser severamente criticados em reportagens e artigos que reduziam o Boom a uma manobra editorial, a produtos de mass media, a pastiches de romances vanguardistas europeus ou retratos alienados da realidade do continente. Era decretado então, naquele momento, a extinção do Boom.

Rama observa em seu artigo que, antes do óbito, nos anos-chave do Boom, os escritores mais representativos do movimento – Cortázar, Vargas Llosa, Garcia Márquez e Fuentes –  usaram o prestígio conquistado para chamar a atenção dos leitores sobre outros autores “dentro de um legítimo leque de preferências”: Cortázar fez isso com o cubano Lezama Lima e com o uruguaio Felisberto Hernández, Vargas Llosa com o também peruano José María Arguedas, Fuentes com o espanhol Juan Goytisolo etc.

“Ninguém chega só às literaturas.”, dizia Fuentes5.

Ponto pacífico em todo esse debate: a partir da segunda metade do século passado, o Boom ajudou a forjar a Identidade da literatura latino-americana com repercussões até hoje na literatura contemporânea, chamando a atenção dos leitores para autores de diferentes gerações, como Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares, por exemplo, e influenciando a geração seguinte, do pós-Boom: Roberto Bolaño e Ricardo Piglia, por exemplo.

Mas não foram apenas os livros ou escritores latino-americanos da época que ganharam atenção: o continente periférico e desconhecido chamado América Latina também se projetou para o resto do mundo. Cortázar ia além: afirmava que, para além da expansão do público leitor latino-americano, o Boom era a mais extraordinária tomada de consciência por parte do povo latino-americano de uma face de sua própria identidade.

O Boom acontece junto com a Revolução Cubana, outro catalisador do interesse global pela América Latina: se os revolucionários cubanos pretendiam reescrever a história latino-americana, a mesma ambição impulsionava os escritores do boom: “o futuro do romance está na América Latina, onde tudo está por ser dito, por ser nomeado”, escreve Fuentes a Vargas Llosa, em fevereiro de 1964. 

Não à toa, os quatro correspondentes de As cartas do Boom mantiveram, por muitos anos, estreitas relações com Cuba, um referente histórico para intelectuais latino-americanos e europeus do pós-guerra, participando ativamente como jurados do prêmio e do conselho editorial da revista da ‘Casa de las Americas’, instituição cultural fundada em 1959 pelo governo cubano, pós- Revolução, com o objetivo de promover as relações culturais de Cuba com a América Latina.

A leitura das cartas mostra claramente como literatura e política estiveram entrelaçadas, a visão compartilhada sobre projetos literários e políticos em conjunto, e forjaram a vocação política do escritor latino-americano.

E, principalmente, os laços de amizade entre eles.

Não à toa o livro iria se chamar Pachanga de compadres, uma farra entre amigos, uma festa de compadres.

“Querido Mario,
Na noite passada, acabei de ler o teu romance [A cidade e os cachorros], que me comoveu profundamente. Tenho muito a dizer sobre ele e queria te ver logo para conversarmos. Telefona para a minha casa para combinarmos um encontro?”

Julio Cortázar para Mario Vargas Llosa, 13 de junho de 1962

“Querido Julio, (…)
As armas secretas é o melhor livro de contos que já foi escrito e publicado na América Latina”.

Carlos Fuentes a Julio Cortázar, em 2 de outubro de 1962

“Querido Carlos, (…)
Não estou fazendo grande coisa nos últimos meses, justamente porque O jogo da amarelinha me deixou muito vazio e cansado. Mas ti bem sabes que a bateria vai carregando de novo, pouco a pouco…”

Julio Cortázar para Fuentes, em 29 de outubro de 1962

“Magíster,
Não consigo pensar em um jeito melhor de celebrar a primeira metade finalizada do meu romance do que respondendo à tua carta de Nova York. (…) Até encontrei o título do romance: Cem anos de solidão. Soa bem?”

Gabriel García Márquez para Carlos Fuentes, 30 de outubro de 1965

“Querido master, (..) A tua ideia para o romance do tirano é SENSACIONAL: o ovo de Colombo elevado a omelette metafísico. Que maravilha! (…) Notícias destas bandas: Antonioni comprou “as babas do diabo”, de Cortázar, para o seu próximo filme”

Carlos Fuentes para Gabriel García Márquez, 19 de novembro de 1965

“Master,
É importante que escrevas com frequência. No outro dia, estávamos no jardim, vendo tudo pelo lado ruim, quando chegou a tua carta repleta de boas notícias. (…) Nos dias ruins, Mercedes diz: “Como seria bom que Carlos nos escrevesse””.

Gabriel García Márquez para Carlos Fuentes, 25 de dezembro de 1965

“Meu querido Mario, (…) Sou um péssimo correspondente, mas me dá tranquilidade saber sempre onde estão os amigos”

Gabriel García Márquez para Mario Vargas Llosa, 1º de outubro de 1966

“Master miserável,
Faz mais de um mês, quase dois, que não me escreves. Eu sei disso porque a última carta que te mandei foi no dia do meu aniversário”

Gabriel García Márquez para Carlos Fuentes, em 8 de maio de 1967

“E em relação a Cem anos [de solidão], estou um pouco atordoado: já é um sucesso estrondoso! A Sudamericana esgotou a primeira edição de 10 mil exemplares em três semanas, somente no Cone Sul, e já tem segunda edição. O México pediu 4 mil exemplares, que não puderam ser fornecidos na íntegra, e estão sendo vendidos como pão”.

Gabriel García Márquez para Carlos Fuentes, 12 de julho de 1967

“Franqui, Fuentes, Goytisolo e eu estamos elaborando uma carta privada para Fidel sobre os problemas dos intelectuais em Cuba. Evidentemente, tu estás incluído para as assinaturas (…). Quando o rascunho estiver pronto, te mandarei para que me digas se concordas e se vais assiná-lo. PELO QUE MANTENHAS RESERVA TOTAL SOBRE ISSO. Trata-se de estabelecermos contato direto e estreito com Fidel, evitando a exposição, que é inútil e contraproducente. Te escreverei em breve sobre isso) “.

Julio Cortázar para Mario Vargas Llosa, 14 de outubro de 1968

“Mestre,(…) Pelo visto, o nosso verdadeiro destino está na literatura epistolar”

Gabriel García Márquez para Carlos Fuentes, 2 de novembro de 1968

“Meu querido Mario,
Muito obrigado pela tua carta, que me trouxe uma grande alegria em uma época em que as alegrias estão cada vez mais raras”

Julio Cortázar para Mario Vargas Llosa, 20 de fevereiro de 1970

“Queridíssimo Gabriel,
Felicidades pelos teus 85! E pensar que nos conhecemos há meio século.
As nossas vidas são inseparáveis. Agradeço os teus livros grandiosos.
Teu Amigo,
Carlos Fuentes”

Carlos Fuentes para Gabriel García Márquez, 14 de março de 2012.

As cartas do Boom, de Julio Cortazár, Carlos Fuentes, Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa
Editora Record, 2025
Tradução de Mariana Carpinejar
590 pp.

Cassiano Viana é jornalista, escritor e tradutor. Formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), atualmente mestrando do Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com pesquisa em andamento sobre a correspondência de Julio Cortázar com a Casa de las Américas.

  1. Juan Jose Arreola, editor da coleção Los Presentes, que publicou Los diás enmascarados (1954) e, em 1956, Final de jogo, de Cortázar. ↩︎
  2. O poeta mexicano Octavio Paz. ↩︎
  3. Em “El Boom en perspectiva” (1984). ↩︎
  4. José Donoso, em Historia personal del boom, Anagrama. Barcelona, 1972, aponta que, em apenas seis anos, entre 1962 e 1968, havia irrompido uma dúzia de romances que eram, pelo menos, notáveis, povoando um espaço antes deserto. E que foram, ato continuo, traduzidos para vários países. ↩︎
  5. Carlos Fuentes, em artigo publicado em janeiro de 2001, na Folha de SP: “Literatura de Juan Goytisolo reconhece o outro”
    Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2701200118.htm ↩︎