Crônica

Quem tem medo do bruxo do Cosme Velho?

Publicado originalmente em 22 de junho de 2025.

Tinha por volta de 13 para 14 anos quando li Machado de Assis pela primeira vez. 

Já fazia pouco mais de um ano da morte do meu pai, e eu comecei a trabalhar para ajudar em casa, seja como vendedor de balas ou de picolé nas ruas, seja como ajudante de marceneiro. Morava num morro chamado Merendiba, entre os bairros da Penha e de Olaria, Zona Norte do Rio de Janeiro, e estudava num colégio católico. Na época frequentava uma paróquia da região, onde conheci a pessoa que me apresentou pela primeira vez o Bruxo do Cosme Velho.

Era um padre muito erudito e sensível a qualquer expressão artística. Nunca tive livros em casa, a não ser os escolares. As referências que o religioso citava eram completamente estranhas para mim. Certa vez, ele me passou a seguinte tarefa: Vá até uma biblioteca pública e procure por um livro de contos de um autor chamado Machado de Assis. Machado de quê? De Assis! Ah, acho que a professora falou nesse nome uma vez. Quero que você leia o conto “A igreja do diabo” e depois venha conversar comigo sobre ele. 

Não sou mais católico há décadas, nem tenho mais contato com esse padre, mas a leitura e o papo sobre aquela história foram transformadores, e não consegui parar mais de ler aquele a quem chamavam de Bruxo, encantado com suas feitiçarias com as palavras. Ao mesmo tempo, impressionantes e tão humanas, naquilo que há de mais contraditório, cruel e perene da nossa condição. Raros autores são capazes de escavar a nossa natureza em sua dimensão mais profunda e também superficial, exibindo nossas misérias e fraturas.

Se fosse recomendar um roteiro básico de leitura para o universo de Machado de Assis, começaria pelos contos, especialmente “A igreja do diabo”, uma narrativa menos comentada, mas com vários ingredientes que fazem dele um dos maiores da história da literatura universal. O diabo decide fundar uma igreja, segundo um velho manuscrito beneditino. As pessoas seriam livres para cometerem vícios e iniquidades, mas a natureza humana surpreende o anjo das trevas no final.

Passaria também por “A cartomante”, “Galeria póstuma”, “Teoria do medalhão”, “A segunda vida”, “A causa secreta” e “Pai contra mãe”, não necessariamente nesta ordem. 

E os romances? É natural que alguns recomendem logo de cara seus títulos da chamada “fase madura”, no entanto, eu iria primeiro por Helena, romance de folhetim que reafirma a inegável habilidade de Machado como ficcionista. Aí, sim, chegaria a Dom Casmurro, municiado de algum conhecimento em torno das estratégias narrativas do Bruxo, como sua capacidade de construção de personagens. Você vai perceber o quanto Capitu tem um pouco de Helena. Assim, quando chegar ao inovador Memórias póstumas de Brás Cubas e ao belamente melancólico Quincas Borba, você, leitora e leitor, poderão apreciar melhor os caminhos e descaminhos da pena vadia desse narrador implacável. 

Ah, faltou aquele conto, Eu começaria pelos romances, E as crônicas?, Por que não a poesia? Sim, sim, meu ansioso companheiro, não tiro a sua razão. Não existe uma fórmula ideal e definitiva para começar a ler Machado. Aliás, há uma, sim. Leia. Leia as peças, as cartas, a crítica teatral, a treta com Eça de Queirós, as crônicas em A Semana, os textos largados no sótão pela crítica e pelas antologias escolares, empoeirados e à espera de um leitor que os tire das sombras. 

Comigo foi um pouco assim. Para aquele menino com uma caixa de isopor a tiracolo, vendendo picolé pelas ruas do subúrbio carioca, a descoberta de um velho manuscrito beneditino através de um conto escrito por um Bruxo, nascido no Morro do Livramento, era como se uma fina luz devassasse a penumbra e me fizesse perceber que a poeira brilhante diante dos meus olhos não era de estrelas. A sujeira deitada no chão também pode ser vista suspensa no ar.

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