
Por uma crítica literária negra: uma entrevista com Jorge Augusto sobre ‘Modernismo Negro’
Em entrevista a Catiane Pereira, Jorge Augusto comenta sobre a pesquisa em torno da escrita de Modernismo Negro (Segundo Selo, 2024) e o cenário da crítica literária contemporânea.
Foto: Deni Sales (O Odisseu).
A entrevista que você lê agora foi realizada pela jornalista Catiane Pereira com o professor e poeta Jorge Augusto, já conhecido pelos leitores da revista O Odisseu. Quanto tomamos consciência da existência desta entrevista, feita logo após Augusto receber os prêmios Jabuti Acadêmico e Biblioteca Nacional (em 3º lugar), decidimos trazê-la para esta edição. Isso porque o pensamento de Jorge Augusto, tão bem concatenado na obra Modernismo Negro: A Literatura de Lima Barreto (Editora Segundo Selo, 2024) foi fundamental para a nossa própria consciência a respeito de uma crítica literária que não se limita aos princípios teóricos ocidentais. Vale lembrar que, ainda em 2024, quando o livro havia sido lançado há apenas algumas semanas, a revista O Odisseu elegeu Modernismo Negro como um dos melhores livros do ano. A partir de então, o livro passou alguns meses caminhando à margem do sistema literário hegemônico, mas se multiplicando enquanto referência nos cursos de letras e nas pós-graduações em literatura nas universidades públicas da Bahia. Os prêmios Jabuti e Biblioteca Nacional certamente ampliaram seu alcance. Mas a trajetória de docência e de escrita acadêmica de Jorge Augusto, talvez o grande crítico literário de sua geração, é que são o seu auge. Boa leitura!
Equipe editorial da revista O Odisseu.
“Não tenho a pretensão nem a ilusão narcisista de que o livro funda um debate”, diz Jorge Augusto sobre a escrita de Modernismo Negro: A literatura de Lima Barreto

Poderia apresentar o seu livro Modernismo Negro: A Literatura de Lima Barreto?
Modernismo Negro é um trabalho que propõe, pensar a modernidade brasileira a partir de uma perspectiva negra e periférica, ou seja, é uma tentativa de compreender a obra de Lima Barreto, de um lugar político e epistemológico no qual a cultura e a experiencia nega, são os pontos de partida. Nesse sentido, definir a existência de uma crítica ao projeto de modernidade euro-ocidental, na obra do autor, exigiu de nós diferenciar o modernismo brasileiro, conhecido e festejado pela intelectualidade nacional do que eu venho chamando de modernismo negro.
Após essa parte inicial onde busco caracterizar o que seria modernismo negro na obra de Lima Barreto. Parto para ler os romances do autor, com as ferramentas críticas e teóricas do que chamamos de epistemologia negro-brasileira, isto é, em diálogo franco, intensivo e contínuo com o referencial cultural negro-africano reinventado no Brasil, dialogando com uma série de intelectuais negros que tem forjado maneiras novas de pensar a teoria da literatura, como Edmilson de Almeida Pereira, Leda Maria Martins e Muniz Sodré, entre tantos mais.
Alguns exemplos da diferença entre o que Lima Barreto e o Modernismo paulista propuseram, podem ser sumarizados assim: o autor não dialogava diretamente com as vanguardas históricas, não tinha como pauta central de sua literatura a identidade nacional e a superação da dependência cultura e nem tinha na assimilação seu principal modelo de interação com a alteridade, ou seja, não havia coincidência entre as pautas centrais do Modernismo de 22 e a obra de Lima. Sua crítica à modernidade vinha do repertório cultural negro que circulava nos subúrbios do Rio de Janeiro e não de uma assimilação, fosse ela crítica ou mimética, das produções europeias.
Na parte final do livro investimos em discussões sobre o legado de Lima Barreto para questões centrais de nossa literatura e sociedade, pensando por exemplo, como podemos depreender dessa conversa com sua obra contribuições para o debate, político, ético e epistêmico para o campo intelectual e literário, sobretudo aquele construído pelo trabalho artístico e teórico de pessoas negras no Brasil.
Como construiu essa obra? Como ela ajuda a pensar no Brasil de ontem e no de hoje?
A obra foi construída como é todo trabalho dessa natureza, com pesquisa, escuta e diálogo, e no caso específico desse livro, acionando o que eu chamo de redes de solidariedade negro-epistêmicas, pois não tenho a pretensão nem a ilusão narcisista de que o livro funda um debate, ou algo nesse sentido, isso inclusive seria um tanto ridículo e ingênuo. Muito pelo contrário, meu objetivo com esse e com os outros livros é me inserir e tentar contribuir para essa rede de diálogos e trocas que vem sendo construída há muitos anos no campo da literatura negra no Brasil. Então, o livro foi construído tentando produzir algo que se somasse nesse trabalho de pôr em circulação uma crítica da literatura que não se baseie exclusivamente em pressupostos da crítica canônica, mas que busca compreender as literaturas não-canônicas, sobretudo, a partir de um arcabouço crítico e teórico de matriz afro-brasileira.
De forma mais objetiva, podemos dizer que a obra é produzida em diálogo intensivo com as contribuições de Muniz Sodré, Leda Maria Martins e Edimilson de Almeida Pereira, que pesquisam e produzem nessa perspectiva teórica desde o século passado, elaborando e pondo em circulação ideias com as quais eu dialogo para produzir o livro.
Na Bahia, onde atuo e estudo, também me insiro em uma rede com nomes como Florentina Souza, Denise Carrascosa, Ari Sacramento, Henrique Freitas, Silvana Carvalho, Maria Dolores Rodriguez, Silvio Roberto Oliveira, Lívia Natália, Fernanda Miranda, entre outros. A meu ver, todos esses e essas intelectuais, cada um a seu modo, têm buscado contribuir para o debate sobre uma teoria e ou uma crítica literária a partir da cultura negra, ou em dissenso com as formulações hermenêuticas da tradição ocidental, isso é, são pesquisadores e intelectuais que têm forjado outras possibilidades analíticas para a produção literária de pessoas negras.
Dito isso, eu acho que o livro pode ajudar a pensar o Brasil, justamente porque o observa de um lugar de experiência específico que é a vida negra e periférica, porém, pensada não como um lugar menor e precário apenas, pois não se trata de uma crítica que investe na vontade de inclusão, no cânone, nem na história literária tradicional. Em último caso, não se trata de requerer o reconhecimento da grandiosidade de autorias negras como Lima Barreto e Carolina Maria, mas de chamar atenção para o fato de que, o Brasil que se narra afastando de si a experiência negra e periférica, não conhece a si mesmo. Mas afastar não é apenas entendido, aqui, como não contar a história, não incluir na narrativa, o afastamento de que falamos aqui é ontológico, no sentido em que a tradição canônica não nega apenas os sujeitos negros, suas línguas e memórias, mas sobretudo, suas formas de narração.
Nesse sentido, não se trata apenas de narrar uma história suplementar, seja da crítica literária ou da própria literatura, mas de propor novas possibilidades epistêmicas e políticas, éticas, econômicas e culturais, a partir da obra de Lima Barreto e da crítica literária brasileira, feita por pessoas negras.
Você defende a existência de um “modernismo negro”, que dialoga com Lima Barreto. Como essa perspectiva tensiona a leitura tradicional do modernismo brasileiro?
Adiantei um pouco dessa resposta na primeira questão, né? Vou desdobrá-la mais um pouco. Entre as pautas centrais do Modernismo de 22 estava a citada necessidade de produzir uma identidade nacional, descobrir e popularizar, inventariar e inventar, características que singularizassem a experiência brasileira, não apenas disfarçando a descendência e rompendo a dependência lusitana, mas singularizando-a no quadro geral das nações. Tratava-se, como sabemos, de afirmar-se único. Nesse contexto, a mestiçagem, até então vista como signo da degenerescência socio-racial, é elevada pelos modernistas paulistas ao status de totem da nacionalidade, mas mitigada da violência colonial que também a constituiu e passando a ser retoricamente defendida como aquilo que nos definia enquanto povo, a marca de nossa singularidade e unidade nacional. Porém, explicado de modo grosseiro, essa mestiçagem emerge como discurso nacional aureolada de uma festividade fundadora, a mesma que caracteriza os eventos da abolição e da proclamação da república, por exemplo. Migrando para o imaginário social como uma afirmação de igualdade jurídico-política. Uma mestiçagem narrada entre a raça e a étnica, entre genética e cultura, na passagem do século XIX para o XX, é tomado como conceito sociológico, e pula direto pra economia, afirmando uma igualdade política entre os agentes sociais. A democracia racial emerge como um fantasma disforme, sem corpo, dessa equação imperfeita e confusa, sustentada em uma forte e repetitiva engrenagem retórica que se regozija de ter fundado a república e a democracia no Brasil, sem ter dado as bases mínimas de sua efetivação.
Essa engenharia retórica seria impossível se pensamos o Brasil a partir de Lima Barreto, pois essa mestiçagem, que nos constitui e aparece em sua obra de diversas formas, não está apaziguada, festiva e desmemoriada. Pelo contrário, em sua obra as relações raciais estão sempre inscritas sob tensão, como acontece nas mais variadas dimensões da vida de qualquer pessoa no Brasil. Nesse sentido, seria impossível, se compreendêssemos a presença de Lima Barreto, como agente central do debate brasileiro no início do século XX, ou se como querem alguns pesquisadores, ele tivesse sido incluído no Modernismo de 22, seria impossível para o movimento paulista, fazer da democracia racial o núcleo discursivo de nossa nacionalidade.
Jorge Augusto: “A crítica tradicional se nega a compreender como forma, pressupostos estéticos que não descendem diretamente das culturas e tradições europeias”
Muitos pesquisadores enquadraram Lima Barreto como “documentador do Brasil”. Como o livro propõe deslocar esse olhar?
Lima Barreto é assustadoramente atual. Ao reler sua obra encontrei reflexões sobre a popularização das igrejas evangélicas no subúrbio, isso lá no início do século XX, um fenômeno que hoje marca profundamente a vida cultural e política do país. Essa atualidade espantosa de sua obra mostra como ele soube identificar as estruturas que sustentam o racismo brasileiro, mas acabam por criar também uma grade interpretativa para sua literatura, com a qual a crítica tradicional se sente absolutamente confortável, porque não é desafiada a dar conta da complexidade crítica e estética de seus textos.
A leitura mais senso comum reduz sua obra a um biografismo ou a um “documentarismo” do Brasil. Ele é visto como alguém que relatava sua própria vida ou fazia crônicas do país. Lima Barreto, o biógrafo do Brasil. O problema é quando essas chaves de leitura monopolizam a crítica do texto literário, deixando de fora sua experimentação formal, suas invenções estéticas que trazem novas possibilidades imaginativas para a sociedade. O Efeito disso é que essas interpretações impedem que o texto literário seja, o que ele é: literário. Transformando-o em documento histórico e aplacando sua potência crítica e disruptiva. Ou dito de outro modo, a crítica exclusiva da documentação biográfica impede a fabulação no texto literário negro.
A ironia é que essa mesma crítica que privilegia a leitura do texto negro na chave biográfica/documental/denuncista, vive acusando a literatura negra de ser conteudista. Não foi outra a crítica que bombou na Folha de São Paulo, dia desses, quando uma ex-professora da USP, Aurora Bernardini, desenterrou a oposição forma x conteúdo para expor opiniões sobre a literatura contemporânea, entre as quais o fato de autores com Itamar Vieira dar mais importância ao conteúdo que a forma, o que impossibilitaria que a obra fosse realmente literária.
O que está efetivamente em jogo em formulações como essas, que se repetem sazonalmente na imprensa brasileira, para requentar e revalidar debates antigos, é o fato de que a crítica tradicional se nega a compreender como forma, pressupostos estéticos que não descendem diretamente das culturas e tradições europeias. Assim, as invenções, experimentações e produções estéticas criativas que interagem diretamente com formas da tradição negro-africana espalhadas pela afrodiáspora, são desconsideradas enquanto gestos criativos. Nesse sentido, mesmo na “tradição da ruptura” só são validadas aquelas que dialogam com as formas da tradição euro-ocidental, ou seja, deve haver uma continuidade na ruptura, e ela deve perpetuar o legado, a epistemologia e a história da literatura de matriz europeia. É por funcionamentos críticos como esses, que nunca se havia compreendido a dimensão estrutural da oralidade na obra de Lima Barreto, como agora começamos a discutir.
O que essa conquista representa diante das barreiras de reconhecimento no campo literário brasileiro?
Ganhar um prêmio é bom, claro, mas também é perverso. Parece que tenho que empenhar e comprar a ideia de um tipo de protagonismo, de uma lógica de vencedor, ou relacionado ao fato de estar inventando algo novo, e não é nisso que acredito. As tradições culturais negras não funcionam pela lógica da “invenção individual”, mas da ancestralidade e das conexões. O que tento fazer é justamente produzir novas conexões em uma rede de pensamento negro que já existe, como citei acima.
É nesse sentido que tenho dito que O Jabuti não premiou a mim, especificamente, mas ao livro: ou seja, as ideias que lá estão e que só existem porque dialogam com muitos outros pesquisadores negros e com a tradição negra que se forja fora da universidade, inclusive. Então, o que eu gostaria é que, reconhecida essa dimensão coletiva do trabalho, essa conquista abrisse portas não só para mim, mas para inúmeras pessoas negras que estão produzindo conhecimento e não têm, assim como eu, visibilidade. Esse prêmio só faz sentido se contribuir para ampliar a presença de intelectuais negras e negros na crítica literária brasileira, nos seus mais diferentes espaços, como jurados dos grandes prêmios, como pesquisadores cnpq, com premiados, nas festas literárias etc..
Meu desejo mais particular é que a premiação impulsione o livro, as ideias que circulam nele, a chegar na escola pública, através do livro didático e de outros materiais. Quero que jovens possam abrir o livro e ver ali o que já consomem no dia a dia: rap, slam, provérbios da oralidade negra. Porque isso também é literatura. Gustavo Black Alien, Rincon Sapiência são alguns dos maiores poetas do país, Naga Faya, que foi semifinalista do Prêmio Oceanos de poesia, gente que produz com sofisticação estética e potência criativa. O mesmo vale para movimentos como o Slam das Minas. Essas produções precisam ser tratadas na escola com o mesmo valor que damos ao soneto ou ao haicai. Não se trata de trocar uma coisa pela outra, mas de esgarçar epistemicamente a ideia de literário, ou seja, de ampliar o espectro imaginativo da língua e da literatura. Isso seria importante para vencemos uma disputa na qual temos falhado vergonhosamente, que é produzir uma democracia efetiva em nosso país.


Entrevista publicada no n29 da revista O Odisseu, “A crítica literária hoje”, já disponível para os assinantes da revista e em breve disponível gratuitamente no site.
