Entrevistas

“Para além desse muro, é o inconfessável. Eu vou atravessá-lo agora ou não?”, perguntou-se a escritora Isadora Krieger, durante a escrita de seu novo livro, ‘A língua do Pai’

Semifinalista do prêmio Oceanos em 2019, com o livro “Explorações Cardiomitológicas”, e ganhadora do prêmio de melhor livro de poesia de 2022 pela Academia Catarinense de Letras, com “Tanatografia da mãe” (ambos publicados pela Editora da Casa), a escritora Isadora Krieger fala com exclusividade para O Odisseu sobre o processo de escrita de seu novo livro, “A Língua do pai”.

Foto: Carolina Krieger.


Isadora Krieger @isadorakrieger é daquelas escritoras que, quando conhecemos sua obra, pensamos: “Como não tinha lido isso antes”? Seu mais recente livro, “Tanatografia da mãe” (Editora da casa, 2022), já em sua quarta edição, é arrebatador. Nele, Isadora escreve (muito mais que) a morte da mãe; e, ao acessar este espaço-tempo talvez do mais inexplicável que existe – intocável, até -, conduz o leitor ao atravessamento de camadas profundas do Ser-em-si (nós, todos, nascidos de uma mãe). Desde que o eu lírico é guiado pela “interrogação do verso,/através do qual se entrevê reminiscências”, e, principalmente, quando nos alerta: “a Promessa do Destinatário nasce da falta de um nome, repetido à exaustão”, entramos em um universo onde imagens, metáforas, sons, rasgos-de-sentido criam-se por meio do precioso fazer do Poeta: “o silêncio da folha em queda”.

Não espere menos, leitor, de “A Língua do pai”, livro ainda em processo de escrita. Agora em prosa, mas, como ela mesma diz – citando o escritor português Herberto Helder (1930-2015) -, “com aparência poemática”, nele a autora parte de memórias, reminiscências, escavações do passado do pai – com inicial minúscula -, para investigar, dissecar – ressignificar, talvez? – um “Outro Homem”, renomeado com letra maiúscula.  Entre a língua corpórea e a língua-texto do pai escritor, quais movimentos existenciais e estéticos surgem? Quando a matéria vivida se transforma em matéria literária, qual trabalho com a linguagem se estrutura como “movimento de enxada”? – como diz a autora. Qual feminino se instaura, resultante do atravessamento das vozes da mãe e da filha, quando uma das figuras centrais da obra, a Cabeça de Medusa em Corpo de Menina, diz: “eu quero a separação”?

Dedicada exclusivamente à literatura, seja como escritora, seja à frente da oficina criativa que ministra desde 2018, intitulada “Ocultismo, Delírio e Cosmos”, Isadora fala à revista O Odisseu sobre como encontrar a “Voz” do livro e render-se a ela é um exercício de escuta dos mais sensíveis, paradoxais e inevitáveis que existem.  

“Até ‘A Língua do pai’, o masculino aparecia em meus livros de forma muito incorpórea, era uma substância de vapor, meio etéreo. No novo livro, o masculino é tão concreto a ponto de ser uma matéria que se transforma em ruínas. Isso tem a ver com a petrificação, mas tem esse olhar da medusa no sentido de infringir no homem uma queda, fazê-lo cair, e cair quase como uma espécie de castigo mítico”.

Antonio: Como surgiu “A Língua do Pai”? Quando esse pai apareceu como motivo da/na sua escrita?

Isadora: Foi em 2023, eu estava escrevendo uma série de poemas sobre a imbricação entre êxtase e horror na experiência mística. Eu trouxe Deus como um amante, no sentido de que o amor de Deus cava em nós um grande vazio. E em alguns momentos, eu me referia a Deus como ‘Pai’, com inicial maiúscula. Até que, sem perceber, escrevi ‘pai’ com letra minúscula. Quando isso aconteceu, fui lançada instantaneamente para uma cena da minha infância com o meu pai, e foi muito forte, foi algo físico, corpóreo, foi aí que eu me dei conta de que meu próximo livro trataria da relação entre pai e filha. Quando eu voltei para essa cena, a minha sensação física foi a de que eu tinha atravessado uma longa distância e de repente eu cheguei a um lugar onde tinha um muro imenso, e quando eu estava de frente para esse muro eu pensei: para além desse muro, é o inconfessável. Eu vou atravessá-lo agora ou não?  Então eu falei para mim mesma: agora eu não consigo. Até porque eu tinha acabado de escrever o “Tanatografia da Mãe”, estava precisando de um tempo. Só que aconteceu algo da ordem do inacreditável, que são esses acontecimentos mágicos e assustadores que a escrita costura. Eu recebi um e-mail da Maria Teresa, da Academia Catarinense de Letras, me contando que o “Tanatografia” tinha recebido o prêmio de melhor livro de poesia de 2022. Ela, por conta própria, resolveu pesquisar a história da família Krieger e descobriu que meu pai publicava contos em um jornal de Brusque, que existe até hoje, chamado “O Município”, e eu fiquei atônita.

Antonio: Mas você não sabia que seu pai era escritor e que publicava contos nesse jornal?

Isadora: Depois eu lembrei que a minha mãe, uma vez, na casa dela, me contou que meu pai escrevia sobre cinema. E, em outra ocasião, eu estava em um sebo olhando os livros, quando um senhor puxou conversa comigo, perguntou de quem eu era filha e eu disse: do Guido Krieger. Foi quando ele comentou que meu pai adorava cinema, escrevia sobre. Depois, eu fiquei pensando que nessa época eu ainda não tinha ouvidos para escutar o que estava se apresentando para mim. Mas quando tudo apareceu tão evidente, não tinha como tapar os olhos e os ouvidos dessa vez. Então eu fui procurar os textos do meu pai. E isso já era o livro acontecendo. 

Antonio: Como foi esse percurso, de resgatar parte da história do seu pai para o seu processo de escrita?

Isadora: Eu comecei a ficar muito tensa com essa volta para o pai. Mas eu tive um sonho com ele, na noite anterior à viagem. Ele aparecia sentado do meu lado, a gente conversava, eu não me lembro do teor da conversa, mas me lembro da frase final que eu disse para ele: “e eu esse tempo todo pensando que você estava morto”. Eu acordei e disse: eu preciso ir, não tem como deixar de fazer essa viagem. Eu passei duas tardes no museu procurando jornais, com aquelas luvas brancas, pesquisando edição por edição. Me senti em um filme, sabe? Eu procurei, procurei, não achava nada. Até que em uma edição, o editor do jornal “Município” comentava sobre o meu pai, mencionando que ele escrevia para o jornal “O Rebate”. Eu acessei esse jornal e descobri que meu pai era editor chefe dele. E foi lá que encontrei os textos sobre cinema, contos, alguns poemas… Ele era um jovem… Um jovem homem que amava o mar!  

“A escuta da voz é um exercício de manter o ouvido aberto. Porque toda vez que a gente se coloca na frente do texto, a gente para de escutá-la. E às vezes a gente demora para perceber que está se colocando na frente do texto, como se a gente fosse mais importante do que ele. Mas não é”

Antonio: E como foi acessar essa língua do pai, a língua do crítico, do contista, do escritor?

Isadora: Foi muito comovente. Mexeu comigo muito mais do que eu imaginava. Eu lembro que voltei de Brusque e pensei: ganhei uma nova imagem do meu pai. E eu estou escrevendo isso no meu livro agora, que foi como se eu tivesse encontrado um outro corpo do meu pai, o texto dele como um outro corpo, não “O Corpo Inominável”, que é como eu nomeio o corpo do pai no livro. 

Antonio: Você chegou a colocar algum texto do seu pai no livro, algum trecho? Porque se você fala sobre “O Corpo Inominável do pai”, esse outro corpo, o corpo-texto do pai, teve uma existência nomeável no novo livro?

Isadora: Eu me perguntei muito se isso aconteceria. Mas entrou. Tem essa questão do mar, que é muito forte no livro; da relação da minha mãe com o mar, da filha com o mar e do pai com o mar.  E é curioso, porque quando ele ainda estava casado com minha mãe, ele não ia à praia, não gostava do mar. E ele escrevia sobre os filmes do Fellini, e o mar, nos filmes do Fellini, é quase uma entidade, é muito presente. Então eu coloquei um texto do meu pai no qual ele escreveu sobre “Os vagabundos”.

Antonio: Há dois versos em “Explorações Cardiomitológicas” (Editora da Casa, 2019) que dizem assim: “A maneira como morremos diz muito sobre nós/(só não diz mais sobre a forma como amamos)”. De que maneira esses versos conversam com “A Língua do Pai”?

Isadora: Esses versos dialogam com “A língua do pai” pois eu escrevo sobre como o pai morreu. Há um trecho, que eu escrevi após ouvir uma música do David Bowie, que é assim: “Os meus olhos têm cores diferentes. Não veem mais a morte do pai como a pedra basilar, tratado escatológico do masculino”. E isso acaba dizendo muito sobre a minha possibilidade de amar ou não amar um homem. 

Antonio: Então você atravessou o muro do inconfessável?

Isadora: Estou atravessando. E muitas vezes está sendo bem difícil. Eu nunca me senti tão nua em toda a minha vida escrevendo. É uma nudez que chega a me angustiar a ponto de não conseguir escrever, de não conseguir avançar muito. Está sendo uma experiência muito diferente da escrita dos outros livros. Porque quando eu estava escrevendo o “Tanatografia da mãe”, por exemplo, quando eu encontrei a voz do livro, eu o escrevi em um continuum. Mesmo fazendo outras coisas durante o dia, o livro estava ali o tempo todo. Com o livro do pai, por mais que eu já tenha encontrado a voz, eu preciso reler o que eu escrevi para conseguir lembrar que eu já a encontrei. A cada cena que eu escrevo, tenho que reler e reencontrá-la. A escuta da voz é um exercício de manter o ouvido aberto. Porque toda vez que a gente se coloca na frente do texto, a gente para de escutá-la. E às vezes a gente demora para perceber que está se colocando na frente do texto, como se a gente fosse mais importante do que ele. Mas não é.

“No fim, eu acho que eu escrevo para desaparecer.”

Antonio: No seu perfil do Instagram, você escreveu: “Marguerite Duras disse que a escrita às vezes é, sem dúvida, a felicidade. Desta vez já havia até me resignado, pensei que não chegaria neste estado escrevendo ‘A língua do pai’, pensei que escreveria este livro até o fim com a enxada, com raros instantes de júbilo. E eis que para a minha surpresa, chegou o momento em que a escrita caminha por si mesma, o estado de felicidade, quando amo com mais intensidade. Sim, como escreveu Clarice Lispector para o Fernando Sabino, ‘a menor tentativa vale a pena.’” O que você quis dizer com “escrever com a enxada”? E quando ocorreu o momento de virada, digamos assim, da enxada para o estado de júbilo?

Isadora: A imagem de escrever com a enxada, eu peguei emprestada de um poema do Daniel Faria [poeta português, 1971-1999]. Tem a ver com um processo de escavação mesmo, de uma força muscular até. É com um esforço tremendo que essa escavação acontece. E tem a ver com o trabalho com a linguagem. Escrever, reescrever, lapidar. Mas há um perigo nisso, porque, quando você percebe, está tentando burilar tanto a linguagem que se afasta da verdade do texto. E às vezes parece uma espécie de truque para não seguir adiante, sabe? Mas, em outros momentos, o texto vem em um rompante, como se eu fosse sequestrada por ele. É quando acontece o júbilo.

Antonio: Você pode dar um exemplo em que esse “sequestro” aconteceu?

Isadora: Quando eu fui escrever a cena que, para mim, seria a mais difícil de todo o livro.  E eu quis começar justamente por ela. Para a minha grande surpresa, foi isso, eu esqueci que eu existo, esqueci quem eu sou, meu “eu” foi rebaixado a ponto de virar uma espécie de passagem para a escrita. Quando terminou esse primeiro fluxo, fiquei doida para mostrar para a minha irmã. Quando ela olhou para mim, disse: “que expressão é essa no seu rosto, o que aconteceu? Parece que você está possuída por um daemon? Ali, foi a prova de que realmente acontece algo com a gente, até no sentido corpóreo, quando damos passagem para um fluxo tão caudaloso e intenso de escrita. É quando há um sentimento de júbilo e até de reconciliação através da escrita.

Antonio: Em novembro, você dará uma oficina cujo título é “Escrever é ser ninguém – curso de desaparecer no texto”.  E você escreveu algo tão bonito na chamada para a oficina: “Burilar a linguagem para alcançar a verdade do texto.
Encostar o ouvido na sua seiva, na sua concha. Fechar os olhos. Abrir o olho-tão-nu. Ver o texto como ele é quando eu não estou.”  Em “A língua do pai”, o quanto esse desaparecimento existe? De que forma?

Isadora: No fim, eu acho que eu escrevo para desaparecer. E isso não tem a ver com deixar de escrever sobre si ou não escrever sobre algo pessoal. É se ofertar completamente, integralmente e com tudo o que você tem, as suas leituras, suas memórias, suas experiências, seus sentimentos… A gente coloca tudo à disposição da voz. Está tudo ali para ela, pois a voz é quem vai fazer a curadoria, é ela quem sabe o que compõe o texto, o que é do texto. É esse o momento de se retirar da frente dele. Porque, do contrário, a gente fala “ah, queria tanto escrever sobre isso, isso é tão importante para mim, queria tanto que entrasse no texto”. Mas para o texto não é importante, e a voz sabe disso, então não vai entrar.

Antonio: É quase como se fosse um lugar de insignificância? Porque quando a gente escreve, a gente obviamente nomeia, dá sentido e significa as coisas. Talvez o movimento que ocorre quando o sujeito desaparece no texto seja um pouco esse, uma subversão do significante “eu”, que talvez se dilua diante da obra e a gente de fato se torne insignificante?

Isadora: Sim, é exatamente isso! Tem uma cena que eu termino assim: “Não escrevo mais pequeninos poemas para ela [referindo-se aos poemas que escrevia para a própria mãe], minhas amigas apaixonadas me pedem cartas. Escutando outras vozes, escrevo cartas de amor para estranhos. Cartas tão verdadeiras quanto a fragilidade de meu nome. E o que pode alcançar a escrita senão isso? Um voto de pobreza. Eu-sou-a-escritora. A peça que, graças à Voz, se tornará dispensável ao poema”.  

Antonio: Se você fosse fazer uma sinopse sobre “A língua do pai”, qual seria?

Isadora: Amar ou não amar um homem?

Antonio: E você já tem a resposta?

Isadora: Eu escrevo a partir da figura do pai, mas estou escrevendo sobre o masculino, que para mim é um território muito inóspito.  Já no início do livro, eu faço uma pergunta: “a língua do pai é a língua dos homens?” Minha tia me contou uma cena muito bonita do meu pai, que ele se sentava no fim de tarde, sozinho, para escutar blues, no crepúsculo. E foi a partir dessa cena que surgiu o Outro Homem. [Citando um trecho] “Talvez pelo Outro Homem, o amor”. Esse Outro Homem que não se fechou para a Voz, sabe? Voz como instância do feminino.

Antonio: Em todo o seu processo de escrita essa Voz é sempre feminina?

Isadora: Sim. E nesse livro eu a nomeio de Cabeça de Medusa em Corpo de Menina. É ela quem está fazendo esse livro acontecer. Se não fosse por ela, eu não teria essa coragem. De certo modo, eu escuto a voz dela e estou sendo conduzida por ela. [Lendo um trecho] “Cabeça de Medusa em Corpo de Menina. Não sei da voz que usurpa minha língua, embora não haja outra em mim tão arcaicamente íntima. Impossível nomeá-la, a não ser devolvendo ao terrível a sua inocência”. Às vezes ela vem com uma crueldade requintada. A primeira frase que ela diz no livro é: “Eu quero a separação”. No caso, é a Cabeça de Medusa em Corpo de Menina falando através da minha mãe. Tem até um trecho que aparece nas bocas das Mulheres da Família: “As Mulheres da Família não pronunciavam o nome de meu pai. Resguardavam a casa da palavra virulenta. Marcavam o seu umbral com o olvido. Era uma aliança, e entre mulheres. Portanto, tácita. Como Eva ao morder a maçã, nós queremos a separação”. 

Antonio: A Cabeça de Menina em Corpo de Medusa petrificou o pai?

Isadora: Nossa, agora você pegou o cerne da questão. Porque até “A Língua do pai”, o masculino aparecia em meus livros de forma muito incorpórea, era uma substância de vapor, meio etéreo. No novo livro, o masculino é tão concreto a ponto de ser uma matéria que se transforma em ruínas. Isso tem a ver com a petrificação, mas tem esse olhar da medusa no sentido de infringir no homem uma queda, fazê-lo cair, e cair quase como uma espécie de castigo mítico. De fazer levantar para cair de novo, levantar para cair de novo. Tem esse movimento, de uma aliança entre a mãe e a filha, dos olhares da mãe e da filha, que causam a queda do homem.  

Antonio: Além da Cabeça de Medusa em Corpo de Menina, quais outras figuras atravessam a trama? Aliás, qual é trama do livro?

Isadora: Olha, eu acho que estou fazendo algo bem arriscado. Sim, tem uma trama, mas eu não estou preocupada ainda com uma sequência, na composição total do texto. Eu estou escrevendo uma cena aqui, outra ali, e depois, quando eu tiver todas elas, vou imprimir, colocar tudo no chão e tentar costurar uma na outra. Mas eu confio no próprio ritmo do texto, no que ele está apresentando. Mas, voltando às figuras do livro, sim, eu trabalho com algumas renomeações. Por exemplo, tem O Homem Petrolífero, que é o pai, A Mulher Acachapante, que é uma renomeação para a mãe, tem O Outro Homem, A Outra Filha, O Corpo Inominável… 

Antonio: Há dois versos de “Tanatografia da mãe” que dizem assim: “Além da própria caligrafia/o que fica de nós em nossa própria letra”? Qual resposta você daria para essa pergunta?Isadora: Essa pergunta me surgiu através de uma imagem, de comprar livros usados e eles estarem marcados, anotados por outras pessoas, encontrar uma dedicatória. Ah, fica tanta coisa! Nosso sangue, nossas entranhas, a substância mais sutilíssima da nossa alma…