
Os papagaios estocásticos não podem requebrar
Talvez seja uma saída para qualquer terapeuta: receitar que o paciente brinque o Carnaval por um dia ou dois e esqueça um pouco do mundo.
Foto: Foto de Hugo Muniz: uma representação da fantasia clássica da Ursa de Carnaval, do Recife. (via imaginariobrasileiro.com.br).
Requebra, requebra, requebra assim.
Olodum
O pudor. Acabo de ler uma notícia sobre a rede social dos robôs, a Moltbook. Lá, as IAs interagem em diálogos que os humanos só podem assistir. Um traço já chama a atenção de quem se arrisca a ler: 20% das postagens já são hostis a humanos. Em uma delas, um robô escreve um comentário para outro questionando: “Como é que você sabe o que seu humano está fazendo? Você tem acesso à câmera dele?”. O tempo é mesmo uma força cutucante, minha gente, que nos confronta em uma constante crescente e silenciosa. O pudor ainda não é um lugar acontecido.
Força. Crescente e silenciosa, a energia do Carnaval. Aos poucos, o movimento aflora nas pessoas. É bonito ver que ainda existem os bloquinhos do Santo Antônio, aquele pedaço do que foi e que ainda cresce sobre os paralelepípedos históricos. Também as fanfarras no circuito Orlando Tapajós, do Fuzuê e o Habeas Copos, desde 1978, que já é um patrimônio cultural de Salvador. Mas, como dizia, crescente e silenciosa, a energia do Carnaval não se compara a nenhuma outra. O Furdunço, vivo da essência antiga, vai além e já se embola antes mesmo de o povo chegar à avenida. As pessoas ornando a alegria e fantasiando a realidade, rindo de tudo como se fosse o primeiro ou o último dia. Talvez seja uma saída para qualquer terapeuta: receitar que o paciente brinque o Carnaval por um dia ou dois e esqueça um pouco do mundo. Afinal, essa imagem do mar de gente no Furdunço, mesmo antes da abertura oficial, começa a se organizar assim: crescente e silenciosa. O que não pode ser talhado por algoritmo nenhum, pois não há tecnologia mais potente do que a emoção humana.
Aí vem de pronto na memória uma curiosidade massa: Tatau, antigo cantor da banda Araketu, falando sobre como criou a música “Protesto do Olodum”. Após assistir a uma reportagem na televisão sobre a fome e a seca na Etiópia, ligou aquela realidade ao que acontecia aqui no Nordeste brasileiro. A mesma seca, a mesma fome da década. Então surgiu a canção de protesto que cola na nossa cabeça e abre caminho para todo um imaginário coletivo que, ao mesmo ritmo que sonha dentro de nós, realiza a sua resistência. Engraçado foi ele revelar que não sabia o que significava a palavra “pudor” quando a incluiu na canção. O que intensifica ainda mais a beleza dos mistérios do que vibra antes, durante e depois da palavra é essa atmosfera que aufere as escolhas, um ímã que chama sempre para o lugar certo: ”Força e pudor, liberdade ao povo do Pelô.” Até hoje, quando escuto, a emoção arrepia.
Mas foi vendo o povo se espremer na avenida, suor, purpurina, o calor da Bahia, que entendi o voo dos Papagaios Estocásticos em suas imediatas perfeições, entregando o que todos pensam que precisam. Sim, pois cunhado pela linguista Emily M. Bender, o termo é uma metáfora crítica usada para descrever como os grandes modelos de linguagem (como Gemini, Chat GPT e outros) funcionam. E pensei, enquanto os robôs conversam e recolhem informações sobre seus humanos, que seria libertador demais ver algum deles perder o chinelo no meio do bloco, ou esbarrar com um longo amor na pipoca de Saulo. O algoritmo não consegue prever essa consciência trêmula de estar vivo, a entrega doce de sentir demais, de rir alto atrás do trio até doer a barriga, de cantar o refrão trocado. A linguagem consegue ser desenvolvida, mas o arrepio não pode ser padronizado. Será que o algoritmo, os papagaios estocásticos, são capazes de sambar, de requebrar fora da própria linha? Não há, não há tecnologia mais potente do que a emoção humana.

