
Os gestos especulativos de Luciany Aparecida
Em Aziri, Luciany Aparecida adensa o panorama das vidas sequestradas nas rotas coloniais.
Foto: Marlon Chagas (Revista O Odisseu).
Luciany Aparecida acaba de publicar Aziri, plaquete da caixa de Janeiro da coleção Círculo de Poemas. Preludiando seu novo romance, Tinta da Bahia (no prelo), Aparecida dá aqui os primeiros rastros de sua protagonista, Aziri Dagwa, personagem ficcional baseada na fotografia Africana da Nação Mina, de Christiano Junior (1864-1865), dando a ver alguma informação sobre seu sequestro, nas proximidades do Rio Níger, e tráfico da Costa da Mina até o Brasil.
Mais do que prelúdio de Tinta da Bahia, é possível enxergar em Aziri a extensão do diálogo iniciado em Macala (2022, Círculo de Poemas), no qual a autora trabalha com Mulher negra da Bahia, de Marc Ferrez, em semelhante procedimento de revisitar a violência dos registros fotográficos de pessoas negras do século XIX. Se, no seu próximo romance, Aparecida pretende abordar os contextos em que a personagem se torna Francisca Maria e, posteriormente, Chica d’Água, na plaquete acompanhamos o fantasma de Aziri assombrar poemas, numa dicção que parece de outro tempo, tematizando a sua gênese.
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Por mais que deliberadamente recorde a origem violenta daquela fotografia e as relações coloniais que fundam a sua produção, o texto não se atém a uma atmosfera melancólica, antes o contrário: dá nome, adensa a subjetividade da personagem e confere a ela mundo, descobertas e saídas. Assim, a fundação de Aziri parece se dar no compromisso de erguer linhas de fuga e traçar uma outra rota.
Algo, no entanto, chama atenção no que diz respeito às composições rítmicas, um tanto mais soltas neste caso do que no livro anterior. A escolha pode fazer sentido ao passo em que Aparecida leve em consideração as fraturas de suas próximas personagens – um cuidado para que as vozes destas mulheres não sejam homogêneas e possam construir, cada uma, a sua própria diegese. Caso se expanda como projeto poético, revelará excelente maturidade lírica e plena possibilidade de texturas.
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No seu procedimento, Aparecida se aproxima também de uma série de intelectuais que revolve as fotografias das não nomeadas. Destaco aqui, entre muitos outros exemplos possíveis, o ensaio Uma figura menor, de Saidiya Hartman, (parte do livro Vidas Rebeldes, Belos Experimentos, publicado no Brasil pela Fósforo, com tradução de floresta), e as composições acima de retratos coloniais na série Afetocolagens, de Silvana Mendes, artista visual maranhense, indicada ao Prêmio Pipa em 2023 e 2025.
Cabe dizer que também que a retomada desta rota colonial (e de muitas outras) tem sido revisitada em diversos trabalhos de importância, caso de Um defeito de cor, obra de 2006 de Ana Maria Gonçalves, e samba-enredo de 2024 da Portela (compositores: Rafael Gigante, Vinicius Ferreira, Wanderley Monteiro, Bira, Jefferson Oliveira, Hélio Porto e André do Posto 7), Agontimé e sua lenda, de Judith Gleason (com tradução recente de Henrique Borralho, publicada pela Editora Pitomba, de São Luís – MA), e na produção acadêmica já clássica de nomes como Pierre Verger, Nunes Pereira, Luis Nicolau Parés, Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti, Sergio Ferretti e Mundicarmo Ferretti.
Um mosaico das vidas envolvidas nessa rota, pois, parece comparecer nessas aproximações, num esforço coletivo não só para debater, mas para criar. No gesto especulativo de Aparecida, que em muitos casos poderia ser considerado sociológico ou de cunho reparativo, enxergo a configuração de uma possibilidade imaginativa e de expressão das urgências emocionais que os registros imagéticos não deram conta (ou não pretendiam).
Se alguns podem ver problemas nesse procedimento e observar um novo processo de violência no preenchimento de lacunas históricas, contrapõe-se a operação dessa literatura como expansão e transbordamento de arquivo. A pesquisa de Aparecida retoma imagens que talvez não representem experiências de liberdade, mas impulsionam um movimento capaz de transcender mesmo aquelas vidas, numa renovada celebração de reconhecimentos, sem a ilusão de que isto possa ser alguma espécie de antídoto.




