
O trauma generalizado da família Ganeff
Quando alguém toca em qualquer assunto relacionado a “coelhos” nos almoços de domingo é um tabu. Até mesmo na Páscoa a decoração de coelhinhos foi devidamente banida.
Imagem de capa: Satyabratasm via Unsplash.
Leitor, deixo aqui um aviso prévio que este é o maior absurdo que já aconteceu na história da minha vida e na história de toda a minha família. Do fundo do meu coração, até hoje ninguém se conforma que isso aconteceu. E você está prestes a se juntar a nós nessa.
Quando eu era criança, ganhei uma coelha de presente do Menino Máximo. Baita presente grego, eu sei. Mas ela era uma graça e era o meu primeiro bichinho de estimação. Ela era uma grande conquista que foi sempre desejada por uma criança. Uma coelhinha enviada da Páscoa mesmo, branquinha de olhos vermelhos e super peludinha. Bela era uma fofura. Ganhei quando ela era ainda bebezinha. Na época, fiz até com os meus primos um batizado com um padre a madrinha e padrinho como pede a lei. Tudo certo. Mas aparentemente apenas eu e Deus gostávamos da Bela. Nem mesmo ela gostava dela mesma.
O tempo foi passando e Bela foi tendo comportamentos anormais. Eu morava em uma casa que tinha um quintal relativamente grande, e Bela era livre para circular pelo gramado como quisesse. Ela andava livre por todo o terreno da casa, era o sonho de qualquer coelhinho. Mas não o dela. Bela não ficava na grama. Bela não andava. Bela ficava o dia inteiro, todos os dias sem exceção, no zero-zero olhando para a parede. Sério mesmo. Com um gramado grande para ela correr e fazer coisas de coelho, com várias plantas para ela cheirar e fazer o que quer que coelhos façam, ela ficava exatamente onde havia um resquício de cimento, acomodada bem no encontro dos muros, de frente para o nada, olhando para a parede.
E assim Bela gostava de passar os dias dela. Não cabe a nós julgar, escolha de cada um, mas não era muito normal, não. Impossível dizer o contrário. Mãe Bióloga notavelmente nem um pouco nata, hater dos macacos e desentendedora dos coelhos, alegava que ela tinha depressão. Alegação esta que até que faz sentido, se tirar o contexto que tratava-se de um coelho. Talvez Bela sentisse sozinha, talvez ela sentisse falta da família de coelhos que permaneceu no petshop, talvez ela só não gostasse de grama e ficasse apenas onde havia asfalto, talvez ela sofresse de distúrbios. Não sei dizer, mas sei que eu tentei de tudo para fazer com que ela saísse desse momento difícil. Todo dia eu voltava da escola e fazia carinho nela para ela se sentir melhor, eu até tirava ela do zero-zero e dava uma cenourinha para ela. Mas a coelha logo voltava para a parede.
Uma sexta-feira, eu iria para a casa do Pai Engenheiro (filhos de pais divorciados, uni-vos) e me despedi da Bela pelo final de semana. Pai Engenheiro, em pleno exercício de suas faculdades mentais, nunca deixou que a coelha de normalidade questionável habitasse seu apartamento. De verdade leitor, essa é uma das poucas atitudes de sanidade que você vai ver nestas crônicas. Voltando, me virei para a coelha no zero-zero e disse ao dar um beijinho nela:
—Tchau, Belinha. Até domingo!
E com um beijo, me despedi. Tal qual Julieta fez com Romeu. Uma belíssima prova de amor verdadeiro. No domingo, voltei demasiado cansada. Na segunda, eu fui para a escola. Na segunda à noite, (ou já era terça?) estava chovendo. Olhei para a chuva batendo na janela e me voltei para Mãe Bióloga:
— Está chovendo! Temos que tirar a Bela da chuva!
A coelha esquisita não saia de frente para a parede mesmo quando chovia.
Mãe Bióloga respondeu:
— Vai lá! Busca ela.
Você entendeu essa parte, leitor? Vou repetir para você entender bem.
Estava chovendo, eu virei para Mãe Bióloga e disse:
— Temos que tirar a Bela da chuva.
E Mãe Bióloga, em pleno exercício de suas faculdades mentais, respondeu:
— Vai lá!
Você entendeu? Ela respondeu “vai lá”. Então “lá” eu fui. Na chuva. De noite. Tirar minha coelha do zero-zero para colocá-la em sua casinha sequinha e quentinha longe da chuva.
Quando eu cheguei no zero-zero e vi que “lá” ela não estava. Neste momento meu coração se encheu de alegria. A coelha havia finalmente enfrentado suas batalhas, guerreado os seus demônios, saído do buraco da depressão profunda que se encontrava e abandonado o zero-zero para viver feliz no grande gramado que havia à sua disposição. Senti um orgulho inenarrável naquele momento. Me dirigi à casinha dela com uma felicidade que preenchia o vazio do meu peito infantil. Todavia, logo que eu encontrei a casinha vazia, uma súbita dúvida se alastrou dentro de mim. Se a coelha não estava no zero-zero e não estava na casinha, onde ela estaria? Retornei para dentro de casa com esta questão a ser resolvida.
— Mãe, não achei ela. — Indago ao entrar no meu lar. — Mas ela não está no zero-zero! — Digo com muita alegria na minha voz.
— Que coisa boa, Sô. — Mãe Bióloga, repito, Bióloga, responde.
— Mas onde será que ela está, né? Olhei na casinha e não encontrei também…
Assim que meus olhos encontram os de Menino Máximo sentado ao meu lado na mesa, ele logo desvia para os de Mãe Bióloga. Havia algo de errado. Menino Máximo nunca fica calado.
— Ah, não sei… ela deve estar por aí… — Mãe BIÓLOGA responde como quem não quer nada.
Menino Máximo pigarreia. Faz que não com a cabeça. Abaixa os olhos. Se volta para a toalha de mesa. Eu olho para Menino Máximo. Ele não olha de volta. Olho para MÃE Bióloga. Ela suspira e puxa uma cadeira.
— Então, Sô — ela esfrega as mãos — a gente precisa conversar. — Termina dizendo a pior frase a ser dia em toda a língua Portuguesa.
Como qualquer outra pessoa que ouve esta frase, eu nada respondo. Apenas espero ela continuar.
— A Bela foi para um lugar melhor. Ela está agora em uma fazenda grande com vários bichinhos para poder brincar com ela.
— Mas ela gosta da parede… ela gosta de ficar no zero-zero… — Respondo com uma voz tão fraca que não sai direito.
— Mas é verdade, filha. Ela está em uma fazenda grande com vários bichinhos com ela. Bela está feliz. Buscaram ela e agora ela é feliz.
Agora, leitor, é a parte que eu te digo que Mãe Bióloga não estava mentindo. Mãe Bióloga estava falando a verdade. E este é o maior plot twist na história de toda a literatura brasileira e é o que traumatiza a família Ganeff até os dias de hoje. O fantasma da verdade, nasce neste exato momento. E você precisa estar pronto para ouvir a verdade que nos assombra.
Está preparado?
Colocando alguns panos quentes, aviso que em casa, morávamos eu, Bela (a coelha), Mãe Bióloga e Vó Portuguesa.
Um belo dia, Vó Portuguesa foi sozinha ao shopping para um passeio casual. Ao entrar, ela imediatamente se dirige ao petshop e conversa com os funcionários clamando que gostaria de falar com o dono. O dono não estava. Vó Portuguesa deixa, portanto, um telefone para contato e aguarda (com a paz de um Buda) a ligação avisando que o dono estava in loco.
Dois dias se passam.
Vó Portuguesa recebe a ligação. Ela se locomove novamente ao shopping, se dirige ao petshop. Conversa com a proprietária. Vó Portuguesa mostra fotos. Vó Portuguesa faz bom uso de sua lábia, sabendo muito bem a arte do comércio ela se empenha em um discurso de altíssima qualidade digno de ser lecionado em aulas de persuasão. Vó Portuguesa faz um negócio jurídico com um objeto de terceiro. Vó Portuguesa aperta às mãos da proprietária do petshop. Combinam de se encontrar no sábado de manhã.
Sábado de manhã, Vó Portuguesa não acorda cedo como de costume. Ela teve insônia durante a noite. Dormiu mal. Sábado de manhã ela ainda estava deitada na cama. Dormindo. De porta fechada. Às dez da manhã. Algo muito inusitado, mas Vó Portuguesa arquiteta seu plano sem levantar suspeitas.
Tocam a campainha. Mãe Bióloga atende.
— Bom dia. Vim buscar a coelha?
— Perdão.
— A coelha — a moça repete no portão. — Eu vim buscar a coelha.
— Que coelha? — Mãe Bióloga não entende o que estava acontecendo.
— Dona Maria Luísa1 veio falar comigo e disse que tinha uma coelha branca para doação. Vim buscar. — A moça levanta a gaiola para que Mãe Bióloga possa ver a veracidade do que estava alegando.
— Ah… mas a coelha… — Mãe Bióloga tenta dizer, mas logo é impedida.
— Dona Maria Luísa fez questão de assinar um papel a respeito da coelha — a moça diz sem paciência. — Assinou a doação.
Sem mais o que fazer, Mãe Bióloga abre a porta. A moça se dirige ao zero-zero, pega Bela, a coloca na gaiola sem mais nem menos. Ao ver Mãe Bióloga chorar ao assistir a cena, a moça a reconforta:
— Ela vai para um lugar melhor. Vou levá-la para uma fazenda grande com vários bichinhos para ela brincar.
Portanto, leitor, quando Mãe Bióloga repete essa mesma frase para mim, ela não estava mentindo. A coelha literalmente foi para uma fazenda. Bom, literalmente não. Na verdade, ninguém sabe o que aconteceu com ela. Se a mulher vendeu de novo, fez teste em animal, a colocou numa panela, ou a levou para uma fazenda ninguém sabe dizer. Mas até hoje, essa é a maior polêmica da família. É unânime a inconformidade em relação à atitude da Vó Portuguesa. E ela ainda se defende, viu? Diz que era uma coelha de raça, que não estava sendo bem cuidada entre outras ladainhas que não colam. Acredite se quiser, leitor. E a gente responde o que? Quando alguém toca em qualquer assunto relacionado a “coelhos” nos almoços de domingo é um tabu. Até mesmo na Páscoa a decoração de coelhinhos foi devidamente banida.
Tenho certeza que você não esperava terminar assim, né?
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- Sim, Vó! Coloquei o seu nome para todo o Brasil saber! ↩︎


