
O Retrato do Seu Costina
Seu Costina tem três filhos. Apenas um o visita. Dia sim e dia não. Seu Costina deve ter uma penca de netos, mas só vi um visitar o avô.
Imagem de capa: Exposição Vulgo (1997-2003), de Rosângela Rennó
Na casa à frente da minha mora um velhinho. Seu Costina anda pelo bairro com dois cajados altos, um em cada mão (tal qual um alpinista), camisa social, acompanhada de calça formal, cinto, sandália e meia. Ele passa o dia cuidando do jardim da frente que, de tanto cuidado e poda excessiva, tornou-se terra seca com um verdinho ou dois. Ele corta as mudas com uma tesoura, sobe na escada para podar o que está acima do muro e quando acaba o trabalho, senta em uma cadeira na varanda observando os carros passarem na rua.
Seu Costina tem cento e um anos e mora sozinho.
Ele um dia morou com as crianças, mas o tempo passou e saíram do ninho. Ele tinha uma esposa, mas faleceu há mais de uma década e meia. Desde a ascensão da companheira de vida, com a casa vazia, ele se recusou a abandonar o lar que criou sua família. Morando sozinho aos cento e um anos, ele observa na casa empoeirada por falta de gente, os fantasmas das pessoas que um dia moraram ali sentados no sofá o fazendo companhia. Quando a noite cai, eu ouço Seu Costina conversar com os porta-retratos, hoje, vazios de vida.
De todos os moradores da rua, eu sou quem sabe mais sobre a vida de Seu Costina. Não é por nada, não, leitor. Seu Costina mal deve saber que existo, mas é que eu sou a única que presto atenção. Veja bem, leitor, é que a minha escrivaninha fica de frente para a janela, e de todas as mil acrobacias que se imagina que um escritor faça, eu faço observando Seu Costina sem querer. Por vezes penso que ele vê a menina esquisita que passa o dia na janela, mas se me vê, nunca deu um tchauzinho.
Seu Costina tem três filhos. Apenas um o visita. Dia sim e dia não. Seu Costina deve ter uma penca de netos, mas só vi um visitar o avô. E foi quando se fez um ano da morte da avó. Seu Costina não conversa com ninguém. Às vezes com a faxineira uma vez a cada quinze dias que fica por meio período nos sábados, às vezes com um motorista de Uber que os filhos chamam para levá-lo ao médico. Às vezes com os atendentes da farmácia quando ele vai uma vez por semana tomar injeção. Às vezes com o guarda noturno quando vem buscar o pagamento.
que não existam mais Seu Costina
O velhinho português é uma das pessoas mais mal humoradas que você vai conhecer na sua vida. Ninguém gosta dele. Ele é um velhinho alto, rabugento que grita com força e foi abandonado por conta da própria avareza. Por conta disso, ninguém sente muita dó dele. As pessoas aqui do bairro o ignoram completamente e quando são obrigadas a suportá-lo desprezam sua altíssima idade confundindo com demência (inexistente).
Mas eu, caro leitor, observo Seu Costina todo dia. Eu vejo o esforço que ele faz para abotoar a camisa passada certinho, mesmo que ninguém vá ver. Eu vejo cortando as plantas com dificuldade sendo a única coisa que tem para fazer. Eu o vejo sozinho todo santo dia e vejo, como ele, os fantasmas de todas as histórias mortas em sua boca por conta de ouvidos desinteressados. Eu ouço, caro leitor, Seu Costina chorar todos os dias em sua solidão de uma vida centenária.
Eu vejo, acima de tudo, como todas as pessoas ao redor de Seu Costina esperarem pelo seu fim.
Agora mesmo, enquanto estudava para minha prova final de Execução, eu vejo Seu Costina encostar-se à sombra na calçada enquanto espera alguém para vir buscá-lo. E eu vejo a decepção nos olhos de Seu Costina quando é um Uber desconhecido e não um de seus três filhos.
Com essa imagem à minha frente, eu decido pintar o retrato do Seu Costina. Com essa imagem que fisgou minha completa atenção enquanto estudava Execução. Com essa imagem que vejo todos os dias, desejo te mostrar, em todas as mais profundas rugas de expressão, como é triste deixar pessoas de uma vida cheia, serem esquecidas nos cantos da cidade esperando pelo fim sozinhas.
Para o bem do meu sensível coração, caro leitor, que não existam mais Seu Costina. Se um dia os anjos permitirem a idade para nós chegar, que não seja eu ou você, solitários assim.
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