
O poema e os dias de Claudia Roquette-Pinto
A poesia visual de Claudia Roquette-Pinto não se agarra a soluções estabelecidas, mas rompe com qualquer tentativa de prescrição.
custa o tempo de um tropeço
lapidar uma palavra.
“Litografia”
Uma das definições clássicas da poesia trata da sua capacidade de nomear as coisas (do grego, onomas poiésis), restituindo, assim, a vida que se desvanece quando uma palavra acaba de ser dita. Afinal, a literatura é o limiar do que morre, do que murmura na antessala do precipício, mas insiste em não ter fim. Não se trata de amarrar as coisas a um determinado conjunto de signos verbais, e, sim, de fazê-las girar em torno de outras possibilidades da relação entre a linguagem e o mundo.
Octavio Paz, um dos meus poetas de cabeceira, se debruçou sobre o tema em O arco e a lira, ensaio incontornável sobre a experiência poética: “Nos lábios de crianças, loucos, sábios, cretinos, apaixonados ou solitários brotam imagens, jogos de palavras, expressões surgidas do nada”. No entanto, ele adverte que essas palavras não são obras, embora a poesia ocupe seu mesmo nível: “A fala, a linguagem social, se concentra no poema, se articula e levanta”.
Nos “Penetráveis” de Hélio Oiticica somos lançados em face de novas experiências sensoriais com a cor, o som e outros elementos que compõem suas estruturas, fazendo do espectador parte integrante do processo de significação da obra. Esta não é possível sem aquele. Alguns poemas são como penetráveis, levando-nos a percorrer os labirintos da fala e de sua relação com as coisas e reconfigurando, desta maneira, o corpo, as emoções, os pensamentos e os dias.
Saio do livro A extração dos dias: poesia 1984-2005, de Claudia Roquette-Pinto, com essa sensação. Lançado pela Círculo de Poemas, é uma das publicações de poesia contemporânea mais importantes dos últimos anos. Reúne parte expressiva de sua produção poética, qual seja, seus cinco primeiros livros (Os dias gagos, Saxífraga, Zona de sombra, Corola e Margem de manobra) e alguns inéditos de juventude, oferecendo ao leitor um percurso privilegiado em torno da obra de uma das vozes mais expressivas da lírica contemporânea nacional. A organização do volume é de Gustavo Silveira Ribeiro, professor de literatura brasileira da UFMG e grande ensaísta da nossa poesia atual, que também assina o posfácio.
Como bem ressalta Ribeiro em seu texto, a poesia de Claudia é “eminentemente lírica”, mas de um lirismo crítico, ou seja, “voltado sobre si e conhecedor de seus próprios impasses”. A voltagem poética em seus versos surge, então, resultante de uma tensão entre os objetos evocados e as possibilidades de reinseri-los na experiência com o mundo por meio da linguagem: “mas se eu uso uma palavra nova/ como tivesse uma pedra na língua/ áspera troca tranca trinca/ maxilares dormentes” (“Litografia”, Os dias gagos). O emprego de imagens opostas em sua poesia amplia os sentidos produzidos pelo entrechoque de signos e desestabiliza qualquer expectativa em torno das coisas nomeadas.
A poesia de Claudia Roquette-Pinto é também carregada de visualidade. A produção de sentidos do que se vê ou do que se torna possível ser visto aponta para uma outra percepção das coisas. Crio, logo (re)vejo: “a ponta corada machuca/ estira outra cor na curva/ rubor que amarela e aveluda” (“Tato e visão”, Os dias gagos). Embora temas relativos ao âmbito da história da arte estejam também presentes, não é a mera referência onomástica a estilos, técnicas e mestres do passado que caracteriza fundamentalmente a sua influência. Sua poesia não se agarra a soluções estabelecidas e previsíveis. Ao contrário, por meio dos próprios elementos compositivos do poema, ela rompe com qualquer tentativa de prescrição da imagem apresentada: “é noite: todos os/ nus são nus pen/ umbra laminando o/ dorso à luz e lív/ ido lençol aves/ so ao escuro mur/ mura murmúrio” (“No estúdio”, Saxífraga).
A poeta Marília Garcia, na orelha do livro, muito acertadamente, aponta para uma “metamorfose das coisas” na poesia de Claudia, cujos versos “escavam, desmontam e transformam a realidade”. Há uma inquietação dominante nessa transformação do mundo e dos corpos operada pelo poema, assim como uma violenta delicadeza em acolher também aquilo que não se deixa apreender, imperscrutável: “Sem você eu caminho no plano,/ tudo escorre/ – há um silêncio aturdido/ uma cota do que morre/ por dentro daquilo que brota./ Sem a sua luz, o que me resta?/ Palmilhar às cegas/ um quarto de veludo/ onde o espelho, mudo, assiste/ à fuga do que reflete.” (“[Por que você me abandona]”, Corola). Apesar da fuga, é nessa zona indistinta, névoa espessa e áspera, que vamos ao encontro do que está vivo, incandescente. A poesia é fala erguida, como observa Octavio Paz, e é também, por isso, uma forma de habitar o abismo.
O poeta polonês Zbigniew Herbert, no ensaio “Por que os clássicos”, sugere a descrição de objetos, não de sonhos, como exercício básico de uma escola de literatura. Se existisse essa escola, uma outra lição possível, com prova prática ao final do período letivo, seria a descrição do que antecede uma queda, limite da extração de mais um dia:
O que o corpo quer
é a vertigem de se perder
no salto das águas
(não: resistir ao curso),
cruzar o campo de força,
suas explosões
entre os corpos mudos,
cumrpir o gesto hesitado,
o impulso que entorna o caldo,
precipitar o susto
(bem-vindo e sem reparo)
de cair dentro do outro,
enfronhar-se
no escuro desse pulso,
consumir,
chegar ao fim.
(“Pulso”, Os dias de então).

A extração dos dias: Poesia 1984-2005
Claudia Roquette-Pinto
Círculo de Poemas, 2025
368 pp.

