Crônica

O macaco remendado

Toda criança é chata, mas isso não quer dizer que ao menos não gere boas histórias para contar.

Arte de Yoshitomo Nara (Reprodução).


É uma verdade universalmente conhecida que toda criança é chata. Por mais que os pais digam “não é chatinho, não”, o diminutivo de “chato” na frase já diz tudo que você precisa saber. Mesmo sendo dia das crianças, a verdade nua e crua há de ser dita. E eu, não fui diferente. Sempre fui uma criança quieta e comportada que fazia tudo que era mandada, mas isso não significa que eu não tenha o meu momento de chatice aguda às vezes. E pobre coitada da Mãe Bióloga. 

Um pequeno contexto, naquela realidade alternativa que era os anos 2000, tinha em São Paulo um lugar mágico chamado de Simba-Safari. Leitor, aquilo era no mínimo muito irado. Você entrava com o carro em um zoológico, e ia visitar os animais livres, leves e soltos. Então era a ema que cuspia na tua cara, avestruz que metia a cabeça pelo teto-solar você ainda dava comidinha para todos os bichinhos na boca. Sério! Que lugar mais mundanamente incrível. A parte mais selvagem era a dos macacos. Não me pergunte se era uma questão de macaco-aranha ou macaco-prego, não sou Mãe Bióloga para responder. Mas era sem sombra de dúvida a parte mais radical do passeio. Antes de entrar na área dos macacos, o staff do Simba-Safari selava os vidros do carro, pois os macacos abriam. Você consegue imaginar isso? Um macaco pulando na sua janela, batendo com tudo no vidro e abrindo na marra o vidro do seu carro em busca de comidinha? Leitor do céu, se isso não é mega radical, eu não sei o que é! Eles pulavam no capô do carro, batiam nos vidros, esmurravam os retrovisores, tentavam arrancar o para-brisa e ainda queriam te assaltar para conseguir comida. Não tinha como qualquer pessoa de bem não gostar. 

O ponto é, ganhei da gift-shop um macaco (sem nome) de pelúcia. E ele era tão irado e radical quanto os de verdade. E ele é, até hoje a razão de severos traumas que devem ser analisados. 

Veja bem, estava eu um belo dia brincando com o meu querido e muito amado macaquinho Sem Nome. Ele estava se divertindo com todos os outros animais de pelúcia que eu tinha. Mas não era o bastante, eu tinha que mostrar à Mãe Bióloga o que o meu macaquinho conseguia fazer. Mãe Bióloga estava se arrumando para um evento qualquer sem nenhuma importância. Pelo menos, para mim e para nós que estamos analisando apenas uma parte da história: que é a vida do macaquinho sem raça, espécie ou nome. Mãe Bióloga se olhava no espelho passando diversas maquiagens no rosto. 

— Olha, mãe! Olha o que o meu macaquinho faz! — Exclamei eu com toda a felicidade e alegria (que segundo Paulo Coelho não são sinônimos) ao entrar no banheiro. 

Peguei meu amado macaquinho pelas mãozinhas e fiz ele pular. 

— Nossa, Sô. Que legal — Não Bióloga responde sem dar a devida atenção e voltando-se para a própria imagem no espelho. (Estudiosos analisarão esta cena como uma devida justaposição literária a história de Narciso). 

Eu não me contive. Queria que ela visse o que mais ele fazia. 

— Olha ele pula! 

O macaco pulou. Mãe Bióloga olhou pelo espelho e deu um meio sorriso. 

— Olha, ele dança! 

O macaco dançou e a Mãe Bióloga atira um meio sorriso. 

— Olha, ele nada. 

Coloquei o macaco na pia e fingi movimentos aquáticos. Mãe Bióloga nem olhou. 

— Olha, ele faz carinho em você. 

Coloquei o macaquinho no ombro da mãe Bióloga com todo o amor que havia no meu pequeno coração inocentemente indefeso. Não deu outra, leitor. Mãe Bióloga foi mais rápida. Ela agarrou o pobre coitado do macaco com a sua mãozona bruta. 

Eu olhei para Mãe Bióloga sem nenhum movimento. Apenas com os olhos arregalados e a boca aberta. 

— Olha, ele voa! — Mãe Bióloga diz ao atirar o macaco pela janela. 

Eu vejo, na frente dos meus olhos, Mãe Bióloga cometer um assassinato. O macaco voa pela janela desparecendo para todo o sempre da face habitada do planeta Terra. Eu fico paralisada, em completo estado de choque, olhando para a Mãe Assassina que acabou de cometer uma defenestração na frente de uma criança. Mãe Ex-Bióloga não amante dos animais, apenas me encara. Aos poucos, cai a ficha na mente dela do que acabou de fazer. 

— Você matou o macaquinho! Você matou ele! Ele morreu! — Eu grito apontando para ela enquanto lágrimas começam a rolar por minhas bochechas gorduchas. 

— Não! Eu não matei ele! —  Mãe Bióloga se defende. —  Ele voou!

—  Ele não sabe voar! Ele é um macaco! Macaco não voa! —  Digo ao ensinar biologia básica para Mãe Bióloga. 

—  Não, não! Vem ver —  Mãe Bióloga me chama. — Ele só se machucou um pouquinho. Vem ver. 

Mãe Bióloga dispara pelas escadas para o andar de baixo e eu vou atrás dela. 

—  Ele morreu! Ele morreu! Você matou ele! — Eu vou dizendo ao seguí-la. 

Mãe Bióloga vai até o quintal e começa a olhar as plantas. 

— Onde será que esse macaquinho foi, hein? Onde será que ele foi parar? Macaquinho, macaquinho? Chama por ele Sô! Vamos achar ele!

— Ela não vai te responder! Você matou ele! Ele está morto!

Até que Mãe Bióloga, hater dos macacos, acha o pobre coitado caído na terra entre as raízes de algum plantas. Ela pega ele contando vitória. Eu vejo apenas um cadáver. 

— Olha aqui, Sosô. — Ela tenta imitar a voz do macaco falando comigo. — Eu estou bem! Me machuquei só um pouquinho. 

Eu logo pego o macaco no colo averiguando seu estado grave de saúde. 

— Ele se machucou muito! — Eu digo chorando a Mãe Bióloga. 

— A gente coloca Band-Aid nele e ele vai ficar bem. 

Mãe Bióloga encheu o pobre coitado do macaco vítima de uma tentativa de homicídio de Band-Aid da Hello-Kitty. O que ele tinha de preto, ficou rosa. Quase não dava mais para ver a cor original dele. 

— Viu, só? — Ela pergunta para mim. — Agora ele está bem de novo! 

Eu pego o macaco remendado de Band-Aid da Hello-Kitty. Dou dois beijinhos para sarar e abraço ele o mais forte que eu posso. 

— Nunca mais você brinca com ele. — Digo ameaçando Mãe Bióloga que apenas concorda. 

Por conta dos pelos no tecido do bichinho, eu nunca consegui tirar os Band-Aid do macaquinho.  Portanto, ele é eternamente o Macaco Remendado. Mas faz com que qualquer pessoa de bom coração sentir um dó inexplicável de um ser inanimado. Ou não, leitor? Toda criança é chata, mas isso não quer dizer que ao menos não gere boas histórias para contar. 

Feliz dia das crianças (atrasado), leitor.

Leia Também: Festivais literários e de afetos