
Não assista a nenhum filme antes de ler este texto!
Há alguns anos que os canais de crítica cinematográfica têm se proliferado pelo Youtube, Tiktok e outras mídias sociais e junto com eles se formou um público considerável que influenciado por esses produtores de conteúdos passaram a se crer também críticos.
(Foto: Kraven, o caçador (2024))
Uma vez a cada quinze dias, costumo caminhar da minha casa até uma xerox que existe aqui perto para imprimir as listas de presença de um grupo de estudos que coordeno. Mantenho essa rotina há mais de dois anos, e uma coisa sempre me chama a atenção. O local possui dois funcionários que, na maioria das vezes, exercem suas funções enquanto conversam entre si, tendo um assunto específico que se repete com mais frequência: o cinema.
Perdi as contas de quantas vezes cheguei lá e encontrei os dois em meio a diálogos acalorados sobre filmes que haviam assistido, em sua maioria blockbusters hollywoodianos. Entre as muitas conversas que ouvi, uma delas me marcou mais do que as outras e me trouxe reflexões que buscarei compartilhar neste texto.
Na ocasião, estavam duas pessoas sendo atendidas quando adentrei o estabelecimento e eu seria o próximo (assim que qualquer uma delas recebesse o material cuja impressão haviam solicitado). Enquanto isso, abro o WhatsApp e encaminho o documento da lista de presença para o contato do local, de modo a agilizar as coisas para quando chegasse a minha vez.
— Você já assistiu Kraven? — pergunta o primeiro, fazendo referência a Kraven, o Caçador, filme lançado em 2024 como parte do projeto de adaptações do universo de O Homem-Aranha pela Sony.
— Kraven? Que filme é esse? — pergunta o segundo enquanto entrega algumas folhas recém-impressas nas mãos de uma senhora, que logo pede mais algumas cópias.
— Kraven é um vilão do Homem-Aranha. Tipo Venom.
— Então é da Marvel?
— Não. É da Sony.
— Sony é Marvel, pô!
O primeiro entrega os últimos materiais impressos para a pessoa que estava à minha frente e aponta para mim. Informo que já enviei o documento por WhatsApp e, enquanto ele abre a conversa no computador, continua para o colega:
— Todo mundo falando mal do filme. O filme é de fudê.
Recebo minha folha impressa e saio do local morrendo de curiosidade sobre a continuidade da conversa.
Não assisti a Kraven, o caçador e nem pretendo. Estou certo de que não teria uma boa experiência com o filme, e não digo isso pelas opiniões divulgadas, mas porque minha experiência com a Sony não costuma ser boa. Apesar disso, saí da xerox ainda pensando o quanto aquela conversa toca num ponto que tem me incomodado. Há alguns anos que os canais de crítica cinematográfica têm se proliferado pelo Youtube, Tiktok e outras mídias sociais e junto com eles se formou um público considerável que influenciado por esses produtores de conteúdos passaram a se crer também críticos.
E não me refiro aqui ao interesse legítimo por cinema, nem ao desejo de entender melhor como uma obra audiovisual funciona e conhecer seus detalhes técnicos. Interesse que eu mesmo compartilho desde a adolescência, mas que não deve ser critério para que uma pessoa assista nenhuma obra ou tenha opiniões acerca delas.
Há uma mudança de disposição na maneira como se olha para a obra audiovisual por parte desse público. Trata-se de uma postura que impede o espectador de experienciar verdadeiramente o que a obra pode oferecer, pois ele já se encontra, de antemão, motivado a identificar falhas, incoerências, inverossimilhanças e problemas estruturais, permanecendo em uma posição de avaliador e não espectador, como se o que tornasse uma obra audiovisual boa fosse simplesmente cumprir um rigoroso checklist técnico. Mais do que isso, como se um filme ou série pudesse ser objetivamente bom ou objetivamente ruim.
Não quero fomentar aqui uma inimizade entre Crítica e Público; pelo contrário, é justamente o dualismo que me incomoda, dualismo Crítica vs. Público e também dualismo Público vs. Público, como creio ser o caso neste texto. Tampouco estou me opondo à importância da crítica, mas entendo que a postura adotada pelo público em questão deriva, em grande parte, da falta de compreensão que possuem sobre o papel da crítica, que não deveria ser reduzida a classificar um filme como bom ou ruim. Uma outra parte deriva da proliferação de canais que prometem o “olhar verdadeiro”, o “verdadeiro significado”, a “revelação dos segredos” que o público comum, em sua suposta ignorância, seria incapaz de perceber. “Você entendeu o filme X errado”, “Não assista ao filme X antes de ver este vídeo”; afinal, você não quer assistir ao filme de forma errada, não é mesmo? O que me incomoda é essa separação entre quem supostamente sabe ver cinema e quem apenas vê.
O espectador, seduzido por essa promessa de um lugar especial dentre os outros bilhões de espectadores, passa a abrir mão da experiência particular com a obra para performar o papel daquele que conhece o jargão e supostamente saberia distinguir um bom filme de um filme ruim. Seu olhar não perdoa o “arco mal resolvido”, os “diálogos expositivos” ou o “roteiro preguiçoso”: frases que poderiam ser oriundas de legítimos instrumentos de análise que enriqueceriam a experiência daquele que assiste ao filme, mas que passam a denotar muito mais signos de pertencimento a um público culto, hierarquicamente superior ao público leigo.
Por mais coletivo que seja sentar em uma sala de cinema para assistir a um filme, a experiência com a obra cinematográfica continua sendo particular. Quando permitimos que nossa subjetividade seja substituída por uma performance de um discurso que chega pronto aos nossos ouvidos, abrimos mão dessa experiência do cinema que é própria e diz respeito a cada um individualmente. Muitos chegam a se perguntar o que deveriam ter sentido ao assistir a um filme de que todos estão falando, ou se o que sentiram é “válido”. Muitas vezes, assistem tentando encaixar a obra naquilo que já ouviram ser comentado, empobrecendo a experiência direta que poderiam ter, o encontro íntimo e imprevisível que só a arte é capaz de produzir.
Se, para aquele funcionário da xerox, Kraven, o Caçador é um bom filme, não é porque ele não sabe diferenciar um filme bom de um ruim, nem uma questão de seu olhar ser ingênuo, diferente de um olhar mais técnico; é simplesmente porque aquela experiência com o filme é completamente sua. O conhecimento técnico, nesse aspecto, é irrelevante; ninguém precisa saber como assistir a um filme. Aliás, é até melhor que não saiba, para que possa ser surpreendido.

– ‘A Invenção de Hugo Cabret’ (2011)
Não importa o quão impecáveis ou cheio de furos sejam o roteiro de uma obra audiovisual, sua estrutura, CGI, diálogos ou atuações; o que realmente define um bom filme é o seu impacto emocional, e não um relatório técnico. Obviamente, os elementos citados são importantes e contribuem para esse impacto emocional, mas, em última análise, ele dependerá exclusivamente da experiência particular de cada indivíduo: suas experiências anteriores, outros filmes que viu ou deixou de ver, suas memórias, medos, anseios, sonhos e afetos. Qualquer tentativa de universalizar um tipo de “barema” do “filme bom” atende muito mais a uma demanda comercial, voltada a prever o que vai vender mais, do que à experiência legítima do público com a arte, que, muito longe de orientar-se por um manual do bom gosto, é, por natureza, pessoal e imprevisível.
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