Artes Plásticas

MUNCAB recebe “Inclassificáveis”, exposição marcada pela rematriação de obras

Entre os artistas reunidos na exposição estão Sol Bahia, José Adário, J. Cunha, Louco Filho e Babalu, que apresentam obras voltadas a paisagens e experiências atravessadas por memória, cotidiano e pertencimento.

Fotos: Exposição ‘Inclassificáveis’ (MUNCAB – Salvador) por Denni Sales.


O Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (MUNCAB), em Salvador, realizou uma coletiva de imprensa no dia 13 de março, para apresentar a exposição “Inclassificáveis”, mostra que reúne cerca de 100 obras de artistas nordestinos recentemente incorporadas ao acervo da instituição. As obras fazem parte de uma coleção reunida ao longo de mais de três décadas pelas colecionadoras Bárbara Cervenka e Marion Jackson, através do Instituto Con/Vida.

No entendimento do museu, o retorno das obras configura um processo de rematriação, conceito que ganha força nas vozes da curadoria. O curador Jil Soares destaca a escolha do termo como uma licença poética: “Todo o processo de rematriação se deu a partir do empenho, do esforço e das negociações de mãos femininas. Nada mais justo do que utilizar o termo rematriação ao invés de repatriação”.

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Exposição ‘Inclassificáveis’ (MUNCAB – Salvador) por Denni Sales.

Reforçando essa perspectiva de retorno à origem, a curadora Jamile Coelho explica que o movimento partiu de uma consciência das próprias colecionadoras sobre o destino final das peças. “As colecionadoras entenderam que era o momento delas voltarem para casa. Elas procuraram o MUNCAB e a gente começou esse processo, que durou quase dois anos, de trazer essas obras de volta”, afirmou Jamile. Para ela, a exposição é o resultado dessa grande ação de trazer para a Bahia obras que foram coletadas no estado e no Recôncavo ao longo de 30 anos.

Para a diretora-geral do MUNCAB, Cintia Maria, a exposição cumpre uma função social e política essencial ao questionar os estigmas impostos à produção negra. “A exposição ‘Inclassificáveis’ vem justamente para questionar esses lugares onde a arte afro-brasileira foi colocada durante muito tempo. Estamos falando de artistas que têm uma produção intelectual e visual de extrema relevância, e que muitas vezes foram colocados em caixas de ‘arte popular’, ‘arte primitiva’ ou ‘arte naïf’”, afirmou.

Cintia reforça que a mostra busca reposicionar esses artistas no tempo presente: “O que a gente quer mostrar é que essa produção é contemporânea, é viva e dialoga com o agora. Receber esse acervo é, antes de tudo, um ato político de retomada de narrativa”.

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Exposição ‘Inclassificáveis’ (MUNCAB – Salvador) por Denni Sales.

A historiadora e coordenadora do MUNCAB, Jéssica Freitas, reforça que a chegada do acervo é um marco para a democratização da arte. “O mais importante é entender que essas obras voltam para o seu lugar de origem para serem vistas pelo seu povo. O MUNCAB tem esse papel fundamental de democratizar o acesso a essas obras”, pontuou.

A concepção espacial da mostra, assinada pela diretora de arte Gisele de Paula, foi pensada para acolher esse retorno. “Construir um espaço é pensar o quanto essas obras, ao retorno, precisam ser acolhidas, sentidas e rememoradas. É um projeto que se propõe a impactar e a rememorar as nossas ancestralidades”, destacou Gisele. Organizada em três núcleos curatoriais, “Restituir Sentidos”, “Escolas Invisíveis” e “Cotidianos”, a mostra articula diferentes trajetórias, linguagens e técnicas artísticas em diálogo com territórios da Bahia, como o Pelourinho e cidades do Recôncavo Baiano. Entre os artistas reunidos na exposição estão Sol Bahia, José Adário, J. Cunha, Louco Filho e Babalu, que apresentam obras voltadas a paisagens e experiências atravessadas por memória, cotidiano e pertencimento.

Serviço

Exposição: Inclassificáveis Onde: MUNCAB (Centro Histórico de Salvador)
Funcionamento: De terça a domingo, das 10h às 17h (acesso até as 16h30)               
Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). Gratuidade às terças-feiras.

Exposição ‘Inclassificáveis’ (MUNCAB – Salvador) por Denni Sales.

Denni Sales é doutorando e Mestre em Artes Cênicas pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal da Bahia (PPGAC/UFBA). É especialista em Gestão e Produção Cultural pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e graduado em Filosofia pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), com ênfase em Estética e Filosofia da Arte. Sua pesquisa e prática artística concentram-se nos campos da produção, direção e dramaturgia, investigando processos de criação voltados a vivências LGBT+. Com trajetória interdisciplinar, transita entre o audiovisual, a performance e as artes cênicas, com publicações em dramaturgia, participações em coletâneas e direção de curtas-metragens.