A distração possível

Mó Dupé

Se reclamare significa “gritar de novo”, “clamar repentinamente”, de onde vem a palavra “agradecer”?

Arte ‘Criança Babá Egun’, de Dalton Paula (via Lisson Gallery – Reprodução).


Depois de finalizar a jornada de trabalho, tento me equilibrar antes de calçar os tênis para sair para andar. Algumas imagens e sons da cidade insistem em invadir nossos pensamentos, gritam o quanto é perigosa a relação intrínseca que há entre o comportamento tóxico em nível micro, pessoal, e a suposta crise de valores e violência em nível macro, social, que nos alcança nas diversas camadas da rotina diária.

Passei a concordar com um único “sim”, no máximo mais duas ou três palavras diante de conversas que não valem a discussão. Alimentar a ignorância é um “esquenta” para o vale-tudo da vaidade. Concordar quase sempre encerra o diálogo de supetão. Mas isso vai nos destruindo pouco a pouco por dentro. Há um perigo em não gritar na hora certa. Assim como há perigo em não perceber algumas possíveis estratégias para guiar o corpo nas crescentes curvas dos dias.

Existem palavras treteiras, sim, mas há outras que conseguem ser caminho, transformando-nos em experiência. Pois algumas práticas cedem lugar à salvação. Operam nos passos seguidos, no silêncio entre os passantes. Caminhar é um quase estado de meditação.

Já vi quem usasse a caminhada para pensar na solução de problemas matemáticos e familiares, no verso, no refrão. Há quem cure declínios de toda natureza caminhando — ou ao menos acredite nisso. O que importa? O que fazemos com a força do pensamento pode muito. Com ela, já vi fecharem portas, empurrarem peças enfileiradas de dominó e até entortarem talheres. O pensamento é capaz de mudar a forma, o curso, a nossa rigidez em busca de uma ideia única de felicidade.

A cada dia tenho moldado um tijolo a mais — e me dou por paz nisso. No campo que se abre após os quarenta anos, é imprescindível entender-se dentro do que seria uma “gestão de expectativas”. É simples, na verdade, depois que você se acostuma a começar por algum lugar, sem desistir depois de uma semana, nem deixar que o mar diário de tarefas consiga minar o arco de consciência que surge a cada ato de construção da solitude. E aí nos perguntamos: como acolher uma tensão que tantas vezes cresce entre as costuras das relações familiares, dos amigos, nos ambientes de trabalho ou até com os vizinhos de um mesmo andar?

Estratégias diárias são ferramentas de aferição. Uma das que venho tentando aperfeiçoar — o que pede harmonia entre suas parcelas moral e prática — são as pequenas fugas. Há uma filosofia inteira sobre elas.

de onde vem a palavra agradecer…’

Li em um artigo que reclamar adoece o cérebro. Eu estava no estacionamento, à espera de algo que não me recordo agora, mas lembro da sensação que ficou quando alguém abriu a porta e amassou a minha, sem se importar, nem pedir desculpas. É difícil manter a lógica prática na rotina. Lembro que parei de ler para bradar e, com o frio do silêncio alheio, reclamar — palavra cuja raiz etimológica vem do latim. Se reclamare significa “gritar de novo”, “clamar repentinamente”, de onde vem a palavra “agradecer”? Lembro que, depois de alguns minutos, mais calmo, agradeci por não ter transformado aqueles minutos em horas, dias.  

No candomblé, o ato de “bater a cabeça” no chão ou na esteira sagrada significa reverência, respeito e agradecimento por todas as bênçãos — Mó dúpé, que em iorubá significa “eu agradeço”, ou Àwa dupé, “nós agradecemos”. Ainda menino, lembro de dona Pequena, que dava caruru de sete meninos e fazia parte dos mitos de fé que formavam meu imaginário e o de tantas outras crianças de Salvador. No meio da festa, quando ninguém reparava, ela saía a passos lentos para o fundo da casa da Rua Dois, no fim de linha de Sete de Abril. Lá, eu a via se agachando silenciosa até a cabeça tocar a esteira de palha — Mó dupé! Mó dupé!

Cada passo afasta um pouco o peso que colecionamos sem perceber, a caminhada é uma pedagogia discreta. Agradecer é a principal das estratégias diárias. Eu tinha lá pelos dez. Grande parte eu lembro; outra, talvez recrie — mas agradeço antes de tudo.

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