Crônica

Marina Colasanti – tecelã das palavras

Publicado originalmente em 28 de janeiro de 2025.

Foto Marina Colasanti: Zô Guimarães (Folhapress).

É duro nos despedirmos de alguém que admiramos, pois costumam ser pessoas-faróis. No caso de Marina Colasanti não podia ser diferente, embora sejamos acalentados por seus livros, os quais continuarão nos guiando enquanto leitores e (principalmente) enquanto escritores. Colasanti atravessou gerações, e, por ter sido uma escritora, sobretudo, sensível, sua obra se tornou atemporal, tendo em vista abordar questões demasiada e universalmente humanas, não se limitando a um público específico, ao contrário, podendo ressoar em qualquer pessoa que se disponibilize a refletir sobre as complexidades da vida. Não à toa, seus livros soaram (soam) sempre um convite à sensibilidade e à abertura para as diversidades. Suas histórias de ficção ou de reflexões sobre a vida cotidiana tornaram sua literatura fundamental para nós. Podemos afirmar que Colasanti soube ser contemporânea, uma vez que o verdadeiro contemporâneo é aquele que não se conforma com o tempo a que pertence. Ao contrário, questiona-o e percebe melhor as luzes (e as trevas). Ou seja, por estar a alguns passos além, rompe com as regras, escancarando um novo jeito de pensar ou fazer arte, muitas vezes impressionando aqueles que estavam completamente inseridos no tempo, sem nunca desconfiar do logo adiante possível. Não há dúvida de que Marina pertencia a esse grupo de artistas.

Sou convicta de que a literatura não tem obrigação de reproduzir a realidade tal como ela é. Na verdade, penso que ela pretende ser ferramenta de elucubrações a respeito dessa realidade que nos cerca e nos move. Marina sempre soube fazer da sua escrita uma ferramenta para aceitarmos a multiplicidade do existir feminino, pois ela já se sabia fluida e em contínua transformação. Além disso, acredito que o espaço literário seja essa imensa possibilidade de experimentarmos o lugar do outro, tornando-se um ambiente fecundo de possibilidades e de pluralidade, pois aos escritores é permitido o exercício diário do autoconhecimento, tanto que Colasanti desembocou ao longo de seus inúmeros textos reflexões das mais variadas. Já aos leitores é concedida a oportunidade do amadurecimento por meio da empatia, a partir da experiência provocada pela leitura de textos que inspiram múltiplas sensações. Ao longo da minha trajetória de leitora e, acima de tudo, de escritora, sei da importância dos livros de Marina, os quais sempre me tocaram profundamente. Porém, de todos eles, o que mais me tocou, talvez pelo momento em que eu me encontrava, foi o conto “A moça tecelã”. Era um momento em que eu estava me redescobrindo como mulher. A maternidade foi uma experiência avassaladora para mim e a literatura de grandes escritoras como Marina Colasanti me reergueram e me indicaram um caminho para seguir. Depois de lê-la, bem como outras escritoras deste e de outros séculos, me surpreendi ao constatar não haver apenas uma única versão de mim mesma. Sofri então uma epifania, ao mesmo tempo dura e cruel, por eu constatar que jamais voltaria a ser a mesma. Marina Colasanti foi/é uma autora que com grande habilidade de sugerir novos caminhos para todos que se propuseram a mergulhar em seus textos. Ela explorou temas como a liberdade, a dor, o amor, a perda, bem como os lugares sombrios da existência, mas tudo com o cuidado de sugerir uma direção, sem, contudo, ser óbvia, pois sua obra é permeada de metáforas e elementos fantásticos, ainda que trate de questões contemporâneas. Colasanti sabia se nutrir do real para apresentar em sua literatura algo que vai além, pois, para ela, a palavra se tornava ambígua, alcançando poeticidade, sem qualquer intenção de instruir ou ser didática. Marina Colasanti sempre entendeu que no mundo literário a palavra precisa se desnudar para o texto, tornando-se hesitante, ambígua, e, não à toa, poética. Obrigada, Marina, por tudo, por tanto!