Reportagem

Manifesto ‘Quem traduziu’ reivindica melhores condições de trabalho

Publicado originalmente em 8 de julho de 2025.

Para que o livro de um autor estrangeiro chegue até o leitor brasileiro, falante de língua portuguesa, é preciso que seu texto passe por uma série de profissionais, em um fluxo produtivo que, embora possa passar despercebido por aqueles que consomem, é bastante conhecido por aqueles que trabalham na linha de frente da produção editorial. Há editores, preparadores e revisores, que trabalham diretamente com o texto a ser publicado, também diagramadores, capistas, ilustradores e designers que dão ao material a “cara” do livro pronto. Além disso, participam diversos outros profissionais para orçar, divulgar, distribuir, vender, dentre outras tarefas importantes para que o livro saia da gaveta do autor e chegue à estante do leitor. Contudo, existe um profissional cujo trabalho é crucial para que esta roda gire, responsável por trazer à vida, em português, um texto escrito originalmente em língua estrangeira. 

O tradutor, e as diferentes concepções de tradução (intralingual, interlingual, intersemiótica), foram tema do vol. 3, n. 19 da Odisseu, em que comentamos desde processos tradutórios à concepções de tradução alinhadas à cultura e à psicanálise. O que aprendemos com esta e outras produções voltadas ao tema, bem como a profusão de cursos, oficinas e debates que vêm surgindo nos últimos anos, é que a tradução é diversa, exige uma tarefa árdua de pesquisa, um certo senso de desconfiança e curiosidade para com o próprio texto, sensibilidade, criatividade, além de, é claro, domínio da língua de origem e sobretudo da língua de chegada. 

A figura do tradutor, embora bastante invisibilizada, atravessa séculos de história, diferentes concepções sobre o ofício e passou por um processo de profissionalização que, no Brasil, encontra ainda desafios e instabilidades. São estes desafios que impõe-se à profissão que mobilizou um coletivo, o Quem traduziu, cujo objetivo é refletir sobre estas questões e fortalecer os profissionais da área. 

Desde 2023, o grupo, que reúne atualmente 63 tradutoras, apresenta suas reivindicações e marca presença em eventos importantes como A Flip, de Paraty, e, mais recentemente, a Feira do Livro, da Associação Quatro Cinco Um, realizada em São Paulo. Foi na esteira deste último evento que o grupo publicou, em 16 de junho, seu manifesto oficial, que pode ser conferido em seu site e Instagram. No texto, há a presença de uma caracterização do ofício de tradutor, mais especificamente a tradução literária/ editorial, e aponta como a profissão enfrenta atualmente um cenário de “precariedade laboral, com remuneração defasada e condições contratuais adversas”, destacando ainda a ausência de pagamento de royalties, sendo esta uma das principais reivindicações do manifesto. Com este tipo de pagamento, haveria uma considerável valorização dos profissionais e dos resultados de seu trabalho, reconhecido como um trabalho autoral em searas como as discussões acadêmicas dos Estudos da Tradução, mas não pelas editoras que contratam e remuneram tradutores, em sua maior parte, profissionais autônomos. 

Para compreender melhor os pontos do manifesto e o contexto de quem será diretamente afetado pelas mudanças propostas, a Odisseu conversou com a tradutora Gisele Eberspächer, membra do coletivo, sobre seu começo na área, a situação de desamparo dos tradutores freelancers, e aproveitamos para tocar em assunto que já a alguns meses tem gerado debates acalorados neste e em outros meios profissionais, a ascensão do uso da Inteligência Artificial como recurso e suposto substituto da mão de obra humana. 

“Editoras menores dificilmente conseguiriam manter tradutores em regime CLT”, diz Gisele Eberspächer

Odisseu: Como foi o seu começo de carreira na tradução?

Gisele Eberspächer: Minha primeira experiência foi com um livro chamado Love, do ilustrador Walter Pax. As ilustrações são inspiradas por textos do H.P. Lovecraft e são acompanhadas de alguns trechos em formato bilíngue. Fui chamada porque conhecia uma pessoa que estava trabalhando na edição do livro. Isso foi em 2014 – e, como gostei da experiência, resolvi estudar Letras, com foco em tradução. 

Odisseu: Quando você começou a traduzir, como estava o cenário profissional quanto a valores praticados pelas editoras e direitos dos tradutores? Houve alguma mudança ou evolução desde então? 

Gisele Eberspächer: Depois dessa primeira experiência, traduzi principalmente jornalismo por algum tempo – e só ali por 2020 comecei a traduzir literatura mais regularmente. Então não sei se tenho um comparativo muito longo para te dar aqui sobre os valores. Mas nesse tempo que estou traduzindo, não sinto que houve um aumento real. Em alguns casos, nem sequer houve uma adequação da inflação. 

Odisseu: A maior parte dos tradutores trabalham como freelancers e precisam abrir uma empresa (ME) para trabalhar, de maneira que não tem muitos direitos trabalhistas como profissionais CLT. Você acha que a contratação CLT seria preferível ou mesmo viável nesta carreira?  Por que? Que direitos mais fazem falta na sua experiência como tradutora?

Gisele Eberspächer: Não sei se seria viável. Talvez editoras grandes até tenham espaço para CLTs das línguas mais procuradas (inglês, por exemplo), mas editoras menores dificilmente conseguiriam manter tradutores em regime CLT e línguas menos procuradas talvez não tenham demanda constante de uma mesma editora. Dito isso, melhores condições de trabalho são importantes. Uma questão é o fato de não ser possível emitir nota de tradução como MEI – um modelo de ser PJ mais viável financeiramente do que ser ME. Outras são as reivindicações que o #quemtraduziu faz em relação aos royalties – que poderia dar um retorno a longo prazo. 

“Consideramos que quem traduz também escreve”, diz Gisele Eberspächer

Odisseu: O #quemtraduziu é um movimento visivelmente importante para a causa dos tradutores literários. Desde sua fundação, houve reverberação das reivindicações no meio editorial? Quais? 

Gisele Eberspächer: Por enquanto tivemos um grande apoio de tradutores e tradutoras e outros profissionais da cadeia do livro, além de um grande interesse por parte de quem lê – que nem sempre sabe como funciona a cadeia de produção ou as condições de trabalho das pessoas envolvidas. Mas é difícil observar uma mudança sistêmica dentro do mercado editorial por enquanto. 

Odisseu: Por que o pagamento de royalties é parte da pauta do movimento? Poderia explicar de que maneiras a tradução constitui-se como trabalho artístico/autoral e como se difere de outras funções no trabalho com o livro, como copidesque e revisão? 

Gisele Eberspächer: Consideramos que quem traduz também escreve – escreve junto com um autor ou autora, e tem um trabalho criativo importantíssimo. Tanto que a Lei do Direito Autoral considera quem traduz autor do livro também. Além disso, somos responsabilizados, como tradutores, pelas escolhas feitas em um livro (tanto que em geral consta nos contratos). Nesse sentido, vemos o pagamento de royalties, o que já acontece em vários países, como condizente com a lei e com o trabalho criativo envolvido. É um caso semelhante aos ilustradores, que depois de se manifestarem, conseguiram dividir os royalties com os autores para livros ilustrados. 

Vemos os demais profissionais da cadeia como essenciais para a qualidade de um livro (várias tradutoras do grupo também atuam em outras competências) – mas não têm um papel tão autoral quanto a tradução. Acreditamos, porém, que as condições de trabalho de preparação e revisão também estão precarizadas e os valores de lauda defasados, e defendemos um aumento dos preços para toda a cadeia.  

Odisseu: Hoje, existe discussão dentro do movimento #quemtraduziu quanto à ascensão e uso de IAs como recurso de tradução no meio editorial? O que podemos esperar da profissão no futuro tendo tais tecnologias em nosso horizonte? 

Gisele Eberspächer: Não acho que haja consenso no grupo sobre o uso de IA e o futuro da profissão com as novas tecnologias. Algumas pessoas já agregaram IAs no mix de fontes de pesquisa, assim como consultam dicionários de papel, dicionários online, Google e várias outras ferramentas ao nosso dispôr. Mas em geral não vemos a IA traduzindo literatura de qualidade com qualidade. No fundo, vamos ter que ver como as coisas se desenrolam. 

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