
Libra com ascendente em libra
Vez ou outra me traem as pessoas em quem confio. Traem-me, também, as letras, e eu só me dou conta do erro quando publico o texto. Às vezes, traio a mim mesmo e tenho a cara de pau de me fazer de surpreso.
Imagem de capa: performance de Marina Abramović (reprodução).
Confiei minha vida à mulher que atravessou a Amaral Gurgel hoje cedo. Estávamos lado a lado. O sinal estava fechado para os pedestres e um ônibus, parado, impedia que víssemos se carros vinham mais atrás, velozes. Ela decidiu cruzar no sinal fechado para os passantes porque viu uma outra mulher, do outro lado da via, atravessando. A primeira confiou que a segunda era uma trabalhadora apressada às 7h55 da manhã, e não uma suicida, e cruzou o asfalto. E eu, de certa forma, confiei minha vida às duas, como se tivesse pouco a perder se morresse hoje.
Escrevo este texto ainda em vida, confiando em meus pulmões. Confio que minha respiração curta é só mais uma crise de ansiedade, e não um infarto. Confio minha vida ao barbeiro que passa uma navalha afiada na minha jugular a cada mês. Confio que é segura a mistura de concreto e ferro que sustenta o metrô passando tão fundo no subsolo quanto o leito do rio Pinheiros. Confio que os aviões vão voar, mesmo na chuva. Confio em beijos no rosto.
Confiei nos professores de Língua Portuguesa que me ensinaram as crases que usei neste texto. Agradeço especialmente àqueles que me ensinaram as exceções, pois sempre há.
Vez ou outra me traem as pessoas em quem confio. Traem-me, também, as letras, e eu só me dou conta do erro quando publico o texto. Às vezes, traio a mim mesmo e tenho a cara de pau de me fazer de surpreso.
Traio os outros quando digo que quero, mas na verdade não quero. E aí culpo meu signo, e então traio minha descrença. Deuses, energias e horóscopos… Não os traio, não os creio. Mas há exceções.
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