
Ínterim
A memória é uma terra de selvagens, onde a anarquia é a mais fina religião.
Arte de capa: Zarina Hashmi, da série ‘Letters from home’ (reprodução).
E como era lindo iluminar o escuro dos esconderijos com os seus olhos.
Tati Bernardi
Sempre abro os cadernos preenchidos pela metade. Geralmente estão cheios de versos que sussurram, e eu escuto. Por esses dias, encontrei um com o mar verde feito à mão na capa e pensei: uma capa de verdade. Mas não me lembrava de quando nem de como. Apenas da sensação boa, terna, de quando o escrevia — como o caminho de casa no final de uma viagem.
A memória é uma terra de selvagens, onde a anarquia é a mais fina religião. Para aqueles que não devotam nem pregam, sobram espaços vazios. É estranho: para conseguir um pouco de ordem, é preciso se familiarizar com o caos. Como na matemática do ensino médio, que nunca entendi de verdade: são inversamente proporcionais. Ainda assim, precisei dar um jeito de passar.
Os cadernos pela metade são um tanto assim. Eles começam com uma ideia, uma imagem, um som, e logo seus versos são atravessados por listas de supermercado, recados, números de protocolos, avisos no meio da tarde: ligar para Mainha à noite. A vida insiste em invadir a literatura — é um caso sério mesmo. Como se a imaginação fosse, a todo momento, subestimada por uma ideia de real que não pode ser tolhida. É um caos. Mas não seria esse o melhor acolhimento, medido pela vivência, o que dá maior sentido a tudo?
Foi neste mesmo caderno, aqui para nós um provocador, que encontrei logo na primeira página uns versos assim: “quem anda lendo poesia?”. Uma brincadeira com o caos, com o movimento. Uma centelha entre o andar e o ler — dois atos que não se confundem, mas que, embolados, podem cometer belezas, desrazões.
Também nele anotei uns versos de Adília Lopes: O Sol é grande. Caem co’a calma as aves. Isso é sem cura. E eis que cheguei a um lugar que só pode ser acessado pela imaginação, por algo além da lógica dos dias e dos engarrafamentos. No meio das páginas, encontrei duas contas atrasadas. O pensamento se aproximava da noite ao meio-dia.
Mas logo estava lá outro aviso: ligar para Mainha. E enquanto falava com ela, imaginava o verso de Adília, as contas e a obra do vizinho, que já avançava na segunda semana. Até que se fez um silêncio, e no meio da conversa Mainha percebeu:
— Acorde, menino, que o que não dá luz não alumia.
Era a realidade em seu melhor momento. Passei para a página seguinte, em branco, e me lembrei de novo do porquê de tantos lembretes de Mainha naquele caderno. Era assim que eu driblava a vida: o tempo passava mais lento, e não me importavam tanto os problemas da cidade onde a saudade só crescia. O tempo é sem cura, mas talvez seja justamente por isso que nos ensina, página por página, a inventar maneiras de alumiar.
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