Crítica

Impressão de um fluído único: uma resenha de ‘As sementes que o fogo germina’

Publicado originalmente em 22 de junho de 2025.

Sumaya Lima é uma escritora de São Paulo, nascida em 1978. Tendo cursado Letras pela USP, também pratica o ofício através da revisão de textos, preparação de originais e editoração. Em seu primeiro livro “As Sementes que o Fogo Germina”, de 2024, lançado pela independente Mondru Editora, a escritora presenteia-nos com forte expressão artística ao dobrar e mesclar os gêneros da crônica e conto, debruçando-se sobre uma escrita de implacável presença.

O cotidiano brasileiro, do trabalho, da família, do trabalho, do sexo, do amor, da violência, do ódio, da vida e da morte, e de diversas camadas da coletividade social, como a saúde pública, são explorados por Lima não apenas como crônica e crítica, mas também incorporando ao texto um espaço mais denso e complexo ao aprofundar relações interpessoais e contextos nas personagens apresentadas. Neste fluxo, há a construção textual que dá caráter envolvente e impactante às narrativas desenvolvidas em “As Sementes que o Fogo Germina”.

Em seu primeiro livro “As Sementes que o Fogo Germina”, de 2024, lançado pela independente Mondru Editora, a escritora presenteia-nos com forte expressão artística ao dobrar e mesclar os gêneros da crônica e conto, debruçando-se sobre uma escrita de implacável presença.

Sumaya Lima. Foto: Divulgação.

A história coletiva é abordada em alguns momentos do livro. Em “Subterrâneos”, a autora discorre sobre os alagamentos, já históricos, na cidade de São Paulo quando há tempestades com grandes volumes de água. Há uma listagem de ocorrências pela cidade ao que a personagem navega pela internet e depara-se com as notícias, em uma espécie de inventário do desastre: “São mais de 30 pontos de alagamento em menos de uma hora”. Então, Lima expõe a realidade de quem vive a cidade nestes momentos de caos, “A toxicidade, espalhada pelas linhas da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos, deforma as faces colados aos corpos cansados dos trabalhadores que se amontoam dentro dos vagões” (p. 28).

Ao procurar por pilhas para lanternas, a personagem é submersa em memórias sobre seu pai e sua morte, conectando o momento de caos citadino ao seu interior turbulento, que também reflete os segredos e camadas profundas das vivências do pai: “Meu pai tinha segredos enovelados nos órgãos internos como teias tumorais. Estrangulado, sem vazão, privado de si, era um corpo tomado por uma batalha entre a razão de ser e a impossibilidade de ser” (p. 30). A cidade, também cortada por rios submersos, é a inegável existência do material e das pessoas ali inseridas, metáfora esta relevante ao parear a expressão do transbordamento íntimo com a impossibilidade da contenção da água da chuva.

O erotismo também carrega a escrita da autora, com descrições explícitas e provocantes, sempre perpassadas por uma observação e contemplação do momento em que as partes envolvidas exultam não apenas o sexo, mas também a dedicação, afeto e conexão. Em “Um Ato”, a autora relata o encontro de duas amantes, proferindo letras de resistência ao encontro compulsório da heterossexualidade ao propor a entrega e, ao mesmo tempo, a relutância: “Nesse momento da vibração, digo que quero penetrá-la. Irônica, você interrompe meu gesto e diz me querer como resposta ao que você quer, e acrescenta: já basta entre nós o vazio deixado por quem nos trouxe uma para outra” (p. 34). Neste texto, a voz narrativa explora a sexualidade, o ato sexual e também um grau existencial que questiona a proximidade e circunstâncias. O vazio mencionado é parte do motivo pelo qual o encontro é possível, em uma possível tentativa de quem sabe preenchê-lo, ou apenas respeitá-lo. 

Em “Crônica Sentimental”, a autora apresenta-nos Renato. Este personagem também é descrito como alguém a quem um certo vazio há de tê-lo penetrado: “Penso em como Renato, tal qual uma chaleira antiga sobre o fogão, há muito já não anuncia o que lhe ferve por dentro. Emudecido, vai apenas se deixando queimar” (p. 45). O personagem aqui remete, então, ao objeto que perde a função total, apenas extinguindo-se aos poucos, em uma espécie de desaparecimento do ser.

O desencontro da existência de si e para com o outro em “Na Manhã, Para que Ainda se Tenha a Coisa, É Preciso Antes, na Noite, Perder a Coisa”, mostra tanto a possibilidade da permanência como da ausência, ou uma presença etérea e instável: “Você, terra ardente, e Ela, ternura esquiva, expõem sua atração pelo indeterminado e brincar de multiplicar segredos. Comunicando gestos de uma ausência futura” (p.70). A autora apresenta então a efemeridade do que não perdura, tanto no momento em que se vive e pensa, esvaziando a ocasião, assim como no perecimento do tempo e encontro que se desfazem.

Em “Dolls”, a autora expressa ainda outro encontro/desencontro entre possíveis amantes. Um, o que escreve, outro, o que observa. O narrador observador testemunha o escritor a perder-se: “Absorvido, íntimo no escuro, sinto que nele você se desintegra”. Neste texto, Lima nos oferece uma espécie de metalinguagem, onde o escritor desfaz-se para dentro do ofício de escrever, para dentro do papel, deixando o mundo ao seu redor em ausência e carência: “Você não admite a falha. Já queimou muitos papéis para não deixar nenhuma prova da falta de ternura. Do que fica, só você compreende, o que é uma pena para quem vem depois”. A reflexão de que o ser-humano, o escritor, promove a dissolução de si ao desaguar em sua expressão é ao mesmo tempo reafirmada em seu oposto, criar-se e existir apenas através do que o oblitera: “Mesmo imerso na obscuridade, você escreve a fim de que o enxerguem e não o esqueçam. Deseja que o cheirem, tateiam, desfolhem as páginas como se nelas houvesse a impressão de um fluído único”  (p. 84).

“As Sementes que o Fogo Germina” apresenta diversos outros tópicos relevantes e inquietantes que merecem ser futuramente analisados e discutidos. Nesta resenha reservei-me ao ato de abordar a ausência e a presença, o fazer e desfazer do artista e das personagens, marcando a possibilidade e impossibilidade do encontro e suas nuances muito humanas: auto-questionamento, relutância, entrega e desconforto para consigo e com o próximo. Vivendo em um século marcado pela fragmentação da auto-percepção, de identidades e da cultura, Sumaya Lima contribui para que possamos pensar e sentir sua arte a germinar sementes de dúvida, de horror, de paixão, sexo, apatia e frustração. Através de imagens e personagens intensos e profundos, a autora presenteia-nos com nada menos do que uma super-realidade emocional, mental e física. E se temos sementes em estado latente, a provocação do texto de Lima traz a tensão necessária para que tenhamos aflição suficiente para deslocar a complacência de deixarmos-nos intocados pela realidade proposta: não há vivência possível sem o próprio desagrado desfazer-nos em quem podemos ser ou deixar de ser.