
“Foi libertador escrever sem me prender ao meu próprio retrato”, diz Manno Goés sobre a escrita de seu primeiro romance ‘A Fraternidade’
Em ‘A Fraternidade‘, Manno Goés, reconhecido principalmente pela sua atuação como compositor e produtor musical, constrói personagens complexos em um thriller que brinca com a realidade.
Foto: Caio Lírio.
Um bom thriller consegue mobilizar muito de um leitor. Essa literatura de tirar o fôlego, marcada por reviravoltas e a tensão constante faz sucesso justamente por conseguir envolver a emoção e a expectativa. Bom, isso, pelo menos, se for um thriller bem-sucedido, como é o caso de A Fraternidade (P55 Edições), romance do baiano Manno Góes que cativa pelo ritmo narrativo galopante e a complexidade dos personagens.
Manno Góes, que é mais conhecido como produtor musical e compositor, sobretudo na Bahia em que suas composições foram trilha sonora da vida de muita gente (inclusive a minha), revela neste livro uma face diferente de sua persona artística. Na entrevista que você confere agora, ele afirma que “outro Manno” sempre existiu, mas só agora se revela. Não se trata, simplesmente, de uma nova linguagem artística (ou seja, da música para o texto literário em prosa), mas de uma nova imagem mesmo! Se em suas composições, Manno se revela um compositor ligado à baianidade, ao verão tropical (pelo menos nas mais famosas), A Fraternidade, seu primeiro romance escrito há quinze anos, traz um lado mais soturno e cosmopolita que mostra a diversidade de um dos mais profícuos artistas baianos das últimas décadas. Confira a seguir, a entrevista!

“Eu queria um personagem que representasse o limite entre o bem e o mal”, diz Manno Goés sobre a escrita de ‘A Fraternidade’
Ewerton: Podemos classificar “Fraternidade” como um “romanção” desses de várias reviravoltas. Mas gostaria de usar o termo “novelão”, especial para nós brasileiros. Digo isso porque é um livro com uma narração muito cinematográfica. Conta um pouco como foi a construção da narrativa a descrição das cenas e também dos personagens.
Manno: Gosto do termo “novelão”. O Brasil entende bem o que é um “novelão”: personagens complexos, paixões, traições, humor, surpresas, drama… A Fraternidade tem tudo isso, sempre com um pé na literatura, na pesquisa e no tempo histórico. Desde o início, eu quis que o leitor enxergasse as cenas. Por isso escrevi com um olhar quase de câmera. Cada ambiente foi pensado como um plano. Os personagens nasceram dessa observação do humano. Eu não queria estereótipos, mas pessoas. E, às vezes, uma simples frase deles me levava para caminhos que eu nem planejava. Foi um processo bem vivo, quase um set de filmagem.
Ewerton: O fascinante personagem Jack Kevorkian é um dos pontos mais interessantes do livro. Em vários momentos, me peguei tentado a pesquisar se o personagem existiu como você narra no livro (por conta da verossimilhança). Acontece que Jack Kevorkian também foi um doutor que lutou pelo direito à eutanásia. Me conte como foi a construção desse personagem e o porquê da escolha de Jack Kevorkian.
Manno: Muitos personagens do livro têm nomes inspirados em pessoas reais e gosto da ambiguidade que essa associação provoca. No caso de Jack Kevorkian, por exemplo, há uma clara provocação. Na vida real, Kevorkian foi um médico americano que fez da pesquisa sobre a eutanásia sua principal meta. Conhecido como “Dr. Morte”, ele defendeu o direito de pacientes terminais escolherem o momento e a forma de sua morte, entendendo a eutanásia como uma expressão de dignidade e autonomia humana. De certa forma, o meu Kevorkian também atua para que pessoas possam dar fim às suas vidas. Tudo bem que, no caso dele, há uma diferença fundamental: ele é um assassino, não um benfeitor. Eu queria um personagem que representasse o limite entre o bem e o mal; alguém capaz de atos sombrios, mas movido por uma lógica moral própria. O nome foi uma provocação, sim. Assim como o do arquiteto Jimmy Corbusier, inspirado em Le Corbusier, um dos precursores do movimento brutalista. Ou como Dante, o maquiador, que carrega algo do personagem Danté, do Conde de Monte Cristo. Gosto quando a literatura brinca com o real, fazendo o leitor sentir que já ouviu aquele nome antes, criando, quase de forma subconsciente, uma ponte entre a ficção e o mundo que a inspira.
Ewerton: O romance é um tipo de narração super desafiadora, ainda mais um como o seu, que tem várias peripécias. Quanto tempo demorou até você concluir a narrativa? E quais os principais desafios?
Manno: Escrevi esse romance há uns quinze anos. Escrevê-lo mexeu comigo. Com meu entorno, meu humor. Não é tão isento passear por camadas tão profundas e violentas, sem se sentir impactado de alguma forma. Foi uma época em que as construções dos personagens e das cenas afetaram minha rotina, minha forma de olhar as pessoas. Sei disso hoje. Talvez não conseguisse escrever esse livro agora. Sacrifiquei muita coisa em mim para permitir que essas imagens me conduzissem. Foi uma escolha, e não me arrependo dela. Mas não sei se faria de novo. Para escrever sobre as sombras, é preciso parar de olhar para a árvore e observar o que está atrás dela. Foi um desafio não enlouquecer escrevendo A Fraternidade. Certamente, enlouqueci algumas pessoas que me amavam nesse processo. Sinto muito por isso.
Ewerton: Há um delicioso senso de humor em todo o livro, mesmo quando lemos com o coração na mão. Como foi para você dosar os momentos tensos da história com o humor?
Manno: O humor é o oxigênio do desespero. É o que impede o drama de se tornar insuportável. Acho que tenho essa habilidade de rir mesmo nas situações mais trágicas. E, de certa forma, o humor em A Fraternidade cumpre esse papel: há um alívio, uma pausa entre as dores. Eu não o planejei racionalmente. Ele vinha com os personagens, da própria humanidade deles. Um humor escatológico, caótico. Nenhum ser humano é unidimensional. Mesmo nas tragédias, existe o ridículo, o sarcasmo, a ironia. Acho que a possibilidade de rir no meio da ruína é fascinante. Tarantino é craque nisso.
“Eu precisava sair da Bahia para enxergar esse universo que quis retratar”, diz Manno Goés sobre primeiro romance
Ewerton: Depois de ler o romance, passeei pelo seu livro de contos, “Acarajé Bour Mercier”, que traz, já no título, um pouco da baianidade que marca a sua trajetória enquanto compositor. Mas em A Fraternidade você mostra um lado menos bairrista e mais cosmopolita de Manno Góes. Como tem sido para você mostrar outra face de sua personalidade artística?
Manno: Eu acho que todo artista tem múltiplas vozes dentro de si. A baianidade faz parte da minha formação, do meu olhar, do meu sotaque, da minha relação com o mundo. Tudo meu é baiano demais. Eu amo Salvador, suas cores e ritmo. Mas A Fraternidade pedia outro registro, uma atmosfera mais universal. Eu precisava sair da Bahia para enxergar esse universo que quis retratar. Lugares que conhecia, que fui, que pesquisei. Foi libertador escrever sem me prender ao meu próprio retrato. Escrever também é isso: a possibilidade de ser outro, de habitar outras peles. E esse “outro Manno” sempre existiu, só não tinha sido revelado ainda.
Ewerton: Vi que você tem dito que o livro demandou bastante pesquisa histórica. Fale um pouco desse processo de estudo necessário para construir o livro.
Sou obsessivo com pesquisa. Preciso acreditar no que estou escrevendo. E, para isso, mergulho fundo. Li muito sobre sociedades secretas, rituais de passagem, simbologias religiosas, história da medicina, filosofia e arquitetura. Li sobre a máfia, o início da lei seca e as consequências. Assisti filmes, debates, documentários…Passei meses lendo textos de época, tentando compreender como as pessoas pensavam e se comportavam em determinados contextos históricos. A ficção é um pacto de verossimilhança: o leitor precisa acreditar, mesmo sabendo que é invenção. E esse pacto se sustenta na precisão dos detalhes. Às vezes, uma frase verdadeira dá sustentação a uma fantasia inteira.
Ewerton: E quanto ao estudo de gênero? O thriller é um estilo de narração bem específico. Quais foram suas referências para a elaboração da obra?
Manno: Sempre gostei de narrativas densas, em que o mistério é uma camada e não o objetivo central. Minhas referências vão de O Nome da Rosa, de Umberto Eco, até O Colecionador de Ossos, de Jefferey Deaver, O Iluminado, de Stephen King, Do Fundo dos Seus Olhos, de Dean Koontz. Também li Dostoievski, sobretudo Crime e Castigo, que tem essa tensão moral constante. O thriller, para mim, é um pretexto para falar do ser humano: suas culpas, medos e obsessões. Eu quis que A Fraternidade fosse mais do que uma história de suspense: que fosse uma jornada inquietante, sufocante, incômoda mesmo.
Ewerton: Voltando à questão de ser um livro bastante visual (cinematográfico), me conte se você já pensou em transformar a história em um produto audiovisual (espero que sim).
Manno: A Fraternidade nasceu quase como um roteiro. Eu sempre vi as cenas, as cores, os enquadramentos. Há algo de muito imagético no texto, na forma que escrevo, e isso, naturalmente, se encaixa no audiovisual. Eu adoraria ver essa história transformada em uma série ou filme. Acho que o público se envolveria com essa mistura de mistério, moralidade e paixão. Mas, claro, seria um desafio enorme e não depende só de mim.
Ewerton: Depois de um livro de contos e um romance, o que podemos esperar de um Manno Góes escritor?
Manno: Mais histórias. Acho que estou num momento em que escrever é uma necessidade. Escrevo para não enlouquecer. Tenho trabalhado em um novo livro, que se passa na Bahia do século XIX. Reli um que havia escrito, que mistura poesia, filosofia e narrativa simbólica, inspirado em Carmina Burana, que também pretendo lançar. Escrever é uma espécie de oratório literário sobre o meu destino, o meu prazer e a minha forma de fazer crítica social. Escrever me mantém vivo. Me tira da solidão. Me leva a conhecer pessoas que nem sequer existem, mas que aprendo a amar ou odiar. Escrevo porque preciso. E pretendo continuar lançando livros, contando novas histórias. Espero que consiga emocionar leitores que se conectem com meus amigos invisíveis.
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