
Fissura
A saudade é uma forma de dizer que continuamos vivos.
Foto de capa: Mascarados na Praça Castro Alves, no Carnaval de 1992 – Foto: Carlos Santana / Arquivo A Tarde (Reprodução).
Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu.
Caetano Veloso
Você já viu algum filtro de cerâmica? Ou um tourinho de torneira no pinga-pinga da pia? Um pata-pata ou pincel de barba, um suporte para saco de leite ou até mesmo a tapoé cheinha? Se não, você vem da fibra óptica para frente. Se uma dessas palavras faz sentido, é porque você tem alguma ideia do que o tempo é capaz de deter ou levar sem nenhum medo ou apreço.
Algumas palavras ou termos conseguem ilustrar uma direção muito clara do que digo. Como “Mono no aware”, que traz o sentimento da dor das coisas, expressando a transitoriedade do mundo e a forma como nos afeta. Em alemão, a “Sehnsucht”, que significa anseio: uma dor que nasce nesse meio do caminho, entre a vida que você leva e aquela versão de mundo que sente que deveria existir. Uma saudade do que não viveu, mas que é viva. Ou até o “Atavismo”, quando o sentimento está ligado a gerações passadas ou a algo muito ancestral que parece querer se manter vivo no presente.
Eu reconheço o campo semântico de todas elas e de tantas outras que listei numa folha de caderno como anotação para esta crônica. Nostalgia, melancolia, reminiscência? Também. Mas me refiro à saudade, essa palavra que não tem fronteiras e que se torna única para nós não pela exclusividade do sentimento, mas pela importância que lhe damos. Uma “Saudade-quase-doce”, toda composta por cheiros de um tempo, de recortes de uma vida. A “Saudade-fome”, que é força de ver, de querer agora, urgência de toque. E também a “Saudade do que não foi”, a mais dolorosa: o corte sem volta em consequência de um caminho que não foi escolhido, da vida que não se viveu.
Mas é de outra força que agora me gasto, inteiro e preciso: a “Saudade-gratidão”, a “Saudade-presença” ou “Saudade-consumada”, aquela que vem da saciedade, do plenamente vivido e guardado. Uma flecha bíblica do vivi e ninguém pode me tirar isso. A saudade é uma forma de dizer que continuamos vivos.
Antigamente, se na hora da Ave-Maria a gente não corresse para abrigar a moleira debaixo do teto de casa, a alma era carcomida pelo desconhecido. Diziam os mais antigos: vai levar a sua alma. Corre pra casa. Nem que a gente, dois minutos depois de ouvir o final do canto no último volume do rádio do vizinho, voltasse para o chão de terra do larguinho, para as traves de madeira com rede de linhagem e a bola surrada. Eram dez minutos ou dois gols. Ficávamos no fundo, na rebarba, para catar a bola. No fundo, antigamente.
“Hoje tudo mudou. E fico cá me perguntando, tentando me livrar das propagandas televisivas: será que a gente sabe mesmo o que é a gentrificação do carnaval?”
– Tiago D. Oliveira
O ano inteiro era assim: pegar o baba na tardinha com os meninos e as meninas já era parte da nossa identidade, um outro festejo. O único momento de muda se dava na época do carnaval. Sim, pois o futebol ganhava fundo musical da Timbalada ou do Chiclete, de algum carro sempre tocando no bar de dona Flor. E aí, já viu: mesmo com toda amizade, irremediavelmente, em alguma partida o pau quebrava. Não era bem uma trocação. A cena figurava mais como um atrás do trio: corpos em punhos fechados e uma língua mordida de lado para dar a potência desejada. Bem coisa de filme. O resto era medido em alguns inchaços, gargalhadas e resenhas, quando todos já estavam sentados na porta da casa de Duda, saboreando o geladinho. O carnaval começava ali, naquela tarde que não tinha fim. E seguia nas lavagens e nas festas de palco das noites que viriam com as bandas do bairro ou de outros pertinho.
Hoje tudo mudou. E fico cá me perguntando, tentando me livrar das propagandas televisivas: será que a gente sabe mesmo o que é a gentrificação do carnaval? Ontem encontrei um jovem senhor interrompendo a sua corrida na orla e, ao notar meu estado contemplativo diante da praia, ele me fez essa pergunta sem esperar resposta. Depois voltou a correr.
A gente cresceu em Sete de Abril. Lembro bem quando alguém da rua se arrumava para ir à avenida curtir os trios elétricos. A pergunta saía de forma tão natural que sua ausência agora até me assusta: e aí, vai pra cidade? Parecia que estávamos fora de algum modo. Não apenas fora do centro, com sua gente e seus comportamentos de centro, mas em alguma parte moldada pelas mãos de um Deus que falava pelas costureiras reformadoras de abadá e pelos bloquinhos que arrastavam, de casa em casa, cada morador até a última quadra, a última rua. Uns eram levados a contragosto e no retorno para o ponto de partida, as posições se invertiam. O que tocava agora dançava, o que empurrava agora ria, o que a vida ensimesmava agora luzia com o sol na cabeça, alegria.
Uma festa que sempre teve natureza libertária agora se exibe cheia de amarras. A cidade se aproximou, mas o “ir para a cidade” virou privilégio. O carnaval continua ali, mas já não cabe em todos os corpos. Sobrou a “Saudade-presença”, essa memória que não se cerca nem se vende. Não ocupa camarote. Talvez seja isso a fissura, quando o povo ainda reconhece a festa, mas a festa já não reconhece o povo. Eu prefiro cantar a saudade.

