Crítica

Fabulação, memória e diagnósticos: ‘No rastro de Estela’

Intercalada por notas, comentários, pensamentos, sonhos, palavras embaralhadas e imagem, No Rastro de Estela, de Amanda Julieta, nos faz confundir, propositalmente, realidade e ficção.


Li No rastro de Estela em poucas horas, mas espaçadas. Recebi o livro, publicado recentemente pelo selo editorial ParaLeLo13S, e a capa logo me interessou: queria saber quem era aquela mulher. Depois daquilo, a imagem da ficha, com o nome de Estela do Rosário e o registro diagnóstico, me fez pensar ainda mais. Bem, eu sou uma pessoa curiosa. E ainda assim nem consigo mensurar o tamanho da curiosidade da narradora do livro ao ver essas mesmas imagens e saber tão pouco sobre ela, sua tia avó, sobre quem apenas ouvia falar.

Veterana na escrita e na pesquisa, a obra de estreia em ficção em prosa de Amanda Julieta é dividida em Ficha, Nota da autora, No rastro de Estela e Agradecimentos. Acompanhamos a dedicação da narradora, uma mulher negra, hoje, seguindo o rastro das histórias não contadas sobre essa mulher de 61 anos, que viveu na cidade de Salvador, na primeira metade do século passado. Há registros de 2024, da narradora, e registros de 1933, de sua tia avó, com Iolanda, com quem Estela se relacionou por mais de uma década. Logo na primeira parte, lemos: “Ninguém limitará sua cabeça, eu sei, porque à revelia desse lugar feito para moer o corpo e a cabeça de gente, você seguirá incapturável, até o último dia” (p. 10). Nessa composição, fica evidente o exercício de fabulação da autora, um projeto estético que se ergue enquanto crítica ao nosso imaginário, numa construção de uma humanidade por vir, como arquitetava o filósofo e escritor caribenho Édouard Glissant.

Estela gostava de samba. Estela foi “diagnosticada” com um transtorno mental. Estela usava o cabelo moldado com pente quente, à moda da época. Morou com um homem, que não amou. Amou fortemente uma mulher, com quem se relacionou secretamente. Estela foi para um hospital psiquiátrico. Nem mesmo a família dela soube se, de fato, ela tinha qualquer transtorno mental. Racismo, sexismo e lesbofobia, no entanto, são certezas. São também diagnósticos do Brasil, de nossa história manicomial e de encarceramento. Estela ainda está com a família, na memória e na curiosidade desobediente da sobrinha neta, a narradora, que a reencontrou e a trouxe a esse samba fabular.

“Estela ainda está com a família, na memória e na curiosidade desobediente da sobrinha neta, a narradora, que a reencontrou e a trouxe a esse samba fabular.”

– Mylena Queiroz sobre ‘No Rastro de Estela’

Os encontros e os afetos marcam a obra, de maneira que quase podemos também estar lá, como o do casal: “Estação Ferroviária Jequitaia, cidade de Salvador da Bahia, 6 de janeiro de 1933, (…) As duas se olhavam em silêncio, porque não era preciso dizer nada e porque não haveria palavra capaz de dar conta daquilo que atravessava as suas peles, percorria os seus ossos e preenchia cada pedaço de órgão vital” (p. 42). Intercalada por notas, comentários, pensamentos, sonhos, palavras embaralhadas e imagem, a narrativa nos faz confundir, propositalmente, realidade e ficção.

Embora eu tenha ficado por bastante tempo pensando na obra, comecei a escrever este texto apenas uns dias depois, quando saí da sessão com a psiquiatra. Eu tenho diagnóstico de transtorno mental, convivendo com a especificidade da Dupla Excepcionalidade. Apesar das dificuldades de receber um diagnóstico tardio, depois de jurar que meus prejuízos ao longo da vida eram exclusivamente por uma questão de classe social, me vi pensando em Estela, que talvez tenha tido esquizofrenia. Talvez nunca tenha sido tratada. Talvez tenha sido considerada esquizofrênica sem de fato conviver com o transtorno. Talvez tenha tido crise depressiva ou crise de pânico não tratada e talvez tenha recebido diagnósticos equivocados apenas para afastá-la da vida em sociedade. Ao observar a imagem da capa e a ficha, trabalhos da ilustradora Gabrielle Silva/ K_uz, de início, me perguntei: Estela existiu? Muitas Estelas existiram sim. “Estelas, Marias, Jerusas, Firminas, Valdices, Luzias e toda uma sorte de gente e de histórias” (p. 22). Inclusive porque hoje sabemos que hospitais psiquiátricos foram, muitas vezes, lugares de isolamento social, violências severas e de diversas formas de descuido com a saúde mental e física, especialmente de pessoas de grupos minoritários.

Ainda no dia em que comecei a ler, logo faltavam poucas páginas para que eu concluísse a leitura. No entanto, precisei ir dormir. No dia seguinte, acordei mais cedo. Finalizei a leitura e tomei café da manhã com Estela. Depois, eu pude simplesmente pegar minha bicicleta e ir para o trabalho começar um dia comum. Nós duas seguimos caminhos diferentes. Ainda assim, nesse meu percurso, ao me deparar com a obra de Amanda Julieta, escritora, jornalista e doutoranda em Literatura (UFBA), eu pude também encontrar Estela e sua sobrinha neta, a narradora. E muitas outras pessoas ainda o farão. Penso que esse é um dos muitos méritos do livro. No rastro de Estela é, definitivamente, uma obra fabulosa.

No Rastro de Estela, de Amanda Julieta
paraLeLo13S, 2025
50 pp.

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