
Eu tiro o seu direito!
Publicado originalmente em 3 de agosto de 2025.
Foto de Rogério S. Via Unsplash.
Esses dias um jovem negro que corria para pegar o ônibus foi assassinado por um policial que (não estava trabalhando) achava que ele era ladrão. Mas essa é notícia velha, ninguém mais fala sobre isso, ninguém mais quer saber sobre isso. O tempo passou, o mundo já girou.
Hoje, com a invasão que está acontecendo em Paraisópolis, eu me pergunto quantas pessoas como eu e você não conseguiram ir ao trabalho por conta das ruas interditadas e o perigo de uma guerra acontecendo na porta de casa. Me questiono, também, quantas pessoas puras de carne e inocentes de sangue foram vítimas de balas perdidas, e de balas nem tão perdidas assim. Me questiono quantas crianças não choraram com o barulho de tiro de tão acostumadas que estão. Me pergunto quantos trabalhadores não dormiram com o medo de não chegarem ao trabalho amanhã, e passaram a noite contando os centavos que deixarão de receber e se, ainda assim, vão conseguir comer.
Mas, de novo, amanhã novas notícias já terão acontecido e ninguém mais vai se importar com isso. Daqui uma hora algo de novo já aconteceu e tudo isso já não importa mais.
Assim como aquele indígena que morreu em Brasília por conta de um grupo de jovens – que sabiam muito bem como se divertir – acharam que seria engraçado atear fogo em um morador de rua. O problema é que esse “morador de rua” era um líder Pataxó, o que complicou as coisas e não foi tão facilmente deixado de lado. Como seria se o morador de rua fosse de fato um morador de rua? Mas isso aconteceu em 1997, pelo amor! Não devemos ficar lembrando desses eventos que foram a tanto tempo atrás. Não é?
O policial que matou o jovem negro que corria para pegar o ônibus pagou seis mil e quinhentos reais de fiança. Esse é o valor de uma vida negra, para você que se pergunta. Paraisópolis, hoje, eu muito ignorantemente admito que não sei estimar um valor ou até mesmo uma consequência. Mas eu sei dizer que os jovens que atearam fogo no indígena em 1997, hoje ocupam cargos públicos: um é servidor da Polícia Rodoviária Federal (PFR), outro é técnico do Senado Federal, outro é agente do DETRAN-DF, outro é fisioterapeuta as Secretaria da Saúde do Distrito Federal e o último é analista do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios.
De forma alguma estou tirando o direito dessas pessoas que, porventura, cometeram crimes. Elas têm o direito de pagar fiança e de serem concursados públicos (após cumprirem suas respectivas penas). Está na lei, é assim que funciona. Esse é o direito delas.
Todavia, eu tiro o nosso direito de esquecer. Eu tiro o meu e o seu direito de deixar isso acontecer e não falar nada a respeito. De deixar morrer na memória recente. Afinal, tiraram o direito daquele jovem que corria para pegar o ônibus. Tiraram o direito de ele crescer, de estudar, de trabalhar e de realizar qualquer sonho que seja. Tiraram o direito de existir.
Assim como tiraram o direito de existir do líder Pataxó, de uma forma vil e inimaginavelmente cruel. Tiraram o direito de discutir conflitos fundiários a respeito de terras indígenas com os representantes do nosso país. Que aliás, os filhos destes mesmos representantes cometeram tal crime, já que um era filho de um juiz federal e outro enteado do ex-presidente do Tribunal Superior Eleitoral. Mas não estamos tratando desse mérito.
Mas então, qual é o mérito? Existe algum mérito? E quando vai ser discutido? Por quem vai ser discutido?
Por isso que quando soube que Paraisópolis foi dormir e acordou em guerra, meu primeiro pensamento foi no jovem assassinado ao correr para pegar um ônibus e foi no líder Pataxó assassinado em 1997. Pois hoje, está acontecendo o mesmo que aconteceu ontem, e o mesmo que aconteceu anteontem, e o mesmo que aconteceu ano passado, e o mesmo que aconteceu… é a mesma história com vítimas mudas e sem nome destinadas a serem esquecidas até mesmo quando suas mortes são primeira capa de jornais.
É a mesma tragédia injusta que acontece cada dia de uma forma diferente, mas que nós preferimos esquecer pois ficar se lembrando disso não vai levar a nada além de depressão profunda e sentimento de impunibilidade. E ninguém quer isso. Todo mundo já tem os seus problemas.
Então, com tudo isso, quando eu soube de Paraisópolis esta manhã, eu decidi fazer o que eu posso e gritar da forma que eu consigo. Para mostrar para quem for ler daqui quinze dias ou vinte anos, que a história é a mesma desde sempre. E tirar o seu direito de passar o próximo minuto sem pensar nisso. Tirar o seu direito de não sentir injustiça. Tirar o seu direito de inércia diante de tanta impunibilidade.
E não há nada que possamos fazer diante de tanta tragédia, não é?