
Eu realmente estou tentando
A cabeça da gente é matéria fina e ambígua, um papel laminado. Parece ferro, mas não é
Arte: Rashid Johnson, Untitled Anxious Red Drawing, 2020.
Eu tô tentando! Meu lema agora é pensar positivo, agarrar-me apenas ao que é do bem, em sua energia vibrante. Por esses dias, um amigo dizia que estava se preparando para ir morar no Japão. Sim, pois depois dos quarenta tomou coragem para odiar a sua profissão e, na sequência, já tinha falido três tentativas de empreender. Voltou a morar com os pais após a separação e a sua única valia atualmente eram os amigos que encontrava nos fins de semana. Você é bom em ter amigos? Ele é.
De olhos a brilhar, havia uma seriedade quando dizia que no Japão ia ser “amigo de aluguel”. Explicava decidido que, depois de ter lido numa revista que homens de meia-idade ganhavam até 5 mil dólares por mês, partiria sem medo para o outro lado do planeta. Era a fome com a vontade de comer copulando, pai! Repetia, quase emocionado, gritando.
Há uma alegoria popular nessa história, refrescante. Por isso, repito como mantra: tô tentando! Fico só no pensamento positivo, porque não ganhamos nada titubeando na fé que vem dos poros. Tem que arrepiar de alguma maneira. Mesmo quando entender o que a gente sente vem nivelando com a sorte de encontrar por aí uma nota de duzentos. Por isso que sentir tá tenso, difícil, porque o que vale mesmo é sacar e praticar. O mundo tá acontecendo rápido demais e sem dizer para o que veio. Toda informação está ao alcance da mão, na tela do celular, que, como todo mundo sabe, já vem sendo mais utilizado do que desodorante ou pedido de desculpa no final de ano.
Mas eu insisto na positividade. Não essa de rede social. Arrisco e me apego às notícias boas, como a dos cientistas chineses que encontraram a cura para o diabetes tipo 2 ou a da pesquisadora brasileira Tatiana Sampaio, que conseguiu devolver os movimentos para pacientes com lesões na medula espinhal através da Polilaminina. E, claro, à resposta quixotesca e reveladora do meu amigo. Po-si-ti-vi-da-de!
Mesmo assim, há dois dias não durmo. O filósofo Emil Cioran escreveu que a insônia é uma forma extrema de lucidez. Pronto! Quando era menino, ficava pensando sobre aquele olhar sério, perdido nos números, na razão de meu pai. Dizia de uma forma pueril que não queria ser assim, a gente às vezes aprende tarde demais algumas lições. Falava que não pretendia passar isso adiante, tipo: da vida eu topo o que ela me der! Agora vejo meu pai no espelho, e a minha voz não canta como a dele. A gente só percebe o tempo quando algum moleque te chama de tio no meio da tarde: que horas são aí, tio? Depois o coração, ainda suspenso, se apalpa e agradece em silêncio, lúcido, preocupado.
Uma das principais características da vida adulta é a preocupação. Há de se aprender a conviver com ela. A conta de luz, o aluguel, o ciclo de amizades dos filhos, se tem chocolate suficiente em casa para todas as situações. O chocolate é um ópio bem vestido. Constrói um falso esquecimento sem desconforto.
O desconforto do decalque é a falta. Já conheci quem infartou na Fonte Nova preocupado com a virada do time que não veio; quem esqueceu data de aniversário, casamento, batizado, reunião, viagem, o carro no estacionamento do shopping. No ponto mais alto do ano retrasado, me vi esquecendo o caminho de casa, olhando o mar de Patamares até que o celular tocou e tudo voltou de repente. Era o Burnout. Pois é, a cabeça da gente é matéria fina e ambígua, um papel laminado. Parece ferro, mas não é, ainda lembro.
Lembro que nem sempre foi assim. Já fui de acumular noites e noites sem dormir e não sentia nada. Lá atrás, no início de nossa juventude, já havia um forte trânsito ao tentar alguma vaga na Federal. Eu queria estudar, mas tinha gente que só pensava em medicina, é o dom de uma moda antiga. Mas aí, já viu! Foi a primeira vez que presenciei aquele povo da faixa alta da cidade trabalhar de verdade. Acordar cedo, dormir tarde, cumprir para além da jornada CLT, sem pestanejar. Afinal de contas, estudar dá trabalho. Mas, ainda assim, não deixaram de ter cama, mesa, banho e motorista, só para não se estressar na clássica busca pela aprovação. É mesmo de enlouquecer qualquer um, não é? Só que não, porque o que não mata, fortalece.
Juro que tô tentando, mas qualquer um não, tia, porque eu gastava duas horas para ir e mais duas para voltar dentro de um ônibus que cortava a cidade ao meio em um calor dos infernos. Foram anos me revirando naquelas horas, apertado como sardinha na lata. Quando chovia, esses números ganhavam vida própria. E todo dia havia uma penca de coisas para fazer em casa quando retornava. Não existia tempo para pensar qual era a diferença entre o jaleco branco comprado na Avenida Sete e aquele outro do Shopping Itaigara.
A verdade é que, quando não se tem muito, rola o famoso “pulo do gato”. Pois ninguém evolui tomando água de coco na Barra numa tarde de meio de semana. A gente dói para acontecer e depois continua. Caleja. O difícil passa a ser fácil. Não por “ser”, sabe? Mas calejar é um traço antigo que a gente carrega no sangue da pele.
Mas chega! Já disse: eu, realmente, estou tentando. Vejo seu João da barraquinha, Véi Tenório, o avô de Maria, que foi criada por ele só, seu Pequeno, que vendia quebra-queixo no quebra-molas, vejo toda a gente passar novamente. Seu Anjo, que saudade, a gente pedia moeda, mas toda noite ele dava bênção antes de dormir. Zequinha do carro do ovo, Espinha-Fina, que jogava bola. Bira, que tinha três peitos e sorria, Tá-Limpo, sempre em água. Carrego todos comigo agora e sonho enquanto o calor de um sol fronteiriço matinal se anuncia, estamos palmilhando, ombro a ombro. Você vem também comigo? Afinal, como escreveu João Cabral de Melo Neto: Um galo sozinho não tece uma manhã.

