Crítica

Eu ia começar a gritar, mas da minha garganta não saiu som nenhum: o que é Sátántangó?

O que é a prosa de Krasznahorkai se não um bilhete direto do fim do mundo?

Imagem de capa: Matt Crossick/Pa Images/Profimedia (Divulgação)

O primeiro acontecimento narrado em Sátántangó, romance seminal de László Krasznahorkai lançado na Hungria em 1985, é o gesto de surpresa e confusão de Futaki ao ser acordado pelo som impossível de sinos badalando. Quando o romance começa, é fim de outubro, período entre chuvas, ninguém passa pela estrada, a capela do vilarejo fica a quatro quilômetros e já fora arruinada pela guerra, e a distância considerável da cidade mais próxima tornam ainda mais fantasmagórico o badalar insistente de sinos cujo som parece ter sido trazidos pelo vento, como tocados de bem perto. Por esse som de sinos, que acorda personagem e leitores, Krasznahorkai dobra um chamado na literatura do final do século XX que o colocará numa prateleira meio solitária em que apenas alguns poucos narradores habitam – aquela em que ritmo e substância se locomovem como dentro dos pesadelos, em que um romance se torna um pesado artefato da paranoia. Escrito com aridez e escrito em um só parágrafo entrecortado por pensamentos e diálogos amenos, secundados de descrições longas da paisagem melancólica da Hungria profunda, o livro de Krasznahorkai é também uma montagem de um modo de narrar a partir do estranhamento, de forças malditas que se perpetuam no mundo ao redor.

Em Sátántangó, os poucos personagens de uma cidadezinha pacata se reencontram com uma figura que gera desconfiança e medo: Irimiás, homem de poderes sobre-humanos que parece ter voltado do mundo dos mortos (já que fora dado por desaparecido) passa a exercer poder sobre a pequena cidade onde habitam Futaki, Schmidt, Kráner, Hálics e outros pobres miseráveis andando em círculos nessa toada orquestrada por intenções diabólicas. O Diabo frequenta o fim do mundo (se não o diabo, provavelmente o diabo ou uma força diabólica – ou seja, ao fim e ao cabo, uma força maldita no campo do simbólico): Krasznahorkai escreve o testemunho dessa visita, em que poderosos e desajustados, sujos e maltrapilhos se movem como se disputassem uma dança.

A estrutura de Sátántangó toma como referencial o logos de um tango: passos para a frente e recuos, em que cada dançarino se move em direção ao outro marcando e ocupando espaço, avançando e retornando. Nesse romance, a forma da dança funciona como organizadora dos acontecimentos que vão e vem sem aparente ordem cronológica, em que se sucedem a angústia de um homem bêbado que sai para comprar aguardente, a insistente aparição de um gato preto, os cães que uivam por todos os lados, a chuva que jamais cessa, onde se escolhe entre ir ao paraíso ou ter pesadelos, a mágica e os poderes fantásticos de um homem com trato diabólico (tema mítico da literatura ocidental e tema que marca e inicia culturas literárias, do Fausto a Grande Sertão: Veredas, até O Mestre e a Margarida).

Traduzido e publicado em 2022 no Brasil, em trabalho de Paulo Schiller que conduz de modo autóctone a prosa de Krasznahorkai, em que o prosador húngaro soa como vindo de um Brasil recôndito, Sátántangó não é uma experiência de visita única. É livro a ser reelaborado, lido e meditado, observando a construção dessa grande teia de aranha. É um romance que narra também o fim de um modo de vida em parte do Ocidente: a derrocada dos governos comunistas, a substituição de um modelo de gestão da vida por outro, os hábitos camponeses contra uma consciência urbana que se instala de modo premente na vida coletiva. Junto a um texto saído no Anuário Todavia de 2018-2019, Sátántangó é a única parte da obra do novo Nobel no Brasil até então. Em breve virão novas oferendas e com elas mais mistérios: o que é a prosa de Krasznahorkai se não um bilhete direto do fim do mundo?

Sátátangó
László Krasznahorkai
Tradução: Paulo Schiller
Companhia das Letras, 2022
232 pp.

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