Crítica

Eterna Fantasia — a confrontação política dos afetos

Terminada a contagem, Maria caminha pelas ruas de Havana Velha e, numa potente imagem que articula o espaço das ruas aos das casas, vê as televisões noticiarem a deposição da primeira presidenta da história do Brasil. 

Foto da capa: LVB&CO/ Divulgação


Domingo, 17 de abril de 2016. Maria está em Cuba e, roendo as unhas, acompanha nossa ilibada Câmara dos Deputados votar o impeachment de Dilma Rousseff. Com os olhos vidrados num computador velho de uma lan house, ela lê em tempo real as esdrúxulas justificativas de cada voto — “pra que as crianças de seis anos não mudem de sexo, pela família quadrangular evangélica brasileira, pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra” (p. 36). Terminada a contagem, Maria caminha pelas ruas de Havana Velha, “triste, cabisbaixa, desolada” (p. 37) e, numa potente imagem que articula o espaço das ruas aos das casas, vê as televisões noticiarem a deposição da primeira presidenta da história do Brasil. 

Personagem principal da trama tecida por Danichi Mizoguchi, em Eterna Fantasia, Maria, gaúcha radicada no Rio de Janeiro, atravessa acontecimentos cruciais da macropolítica nacional até o primeiro turno da surpreendente eleição de 2018 — o assassinato de Marielle Franco, a prisão de Lula, o avanço destampado do bolsonarismo. A eles se costuram os movimentos micropolíticos da ONG dedicada à defesa dos direitos humanos na qual Maria trabalha, movimentos, aliás, nada alvissareiros. Na ONG, que sustenta pautas de esquerda, Maria se depara justamente com o golpismo e o fake mais escrachado, pilares da extrema direita. “Eu não vejo nenhuma diferença, nenhuma, nenhuma, o modus operandi é exatamente o mesmo” (p. 126), diz Maria indignada. Mas como enfrentar esses afetos que a macro e a micropolítica lhe (nos) produz? 

Em entrevista, Danichi afirma que “a experiência brasileira, vem sendo entremeada por uma série de paixões tristes: medo, ressentimento e ódio se espalharam pelo tecido social, partindo grupos, esgarçando laços, vetando vínculos — fazendo, enfim, com que um imperativo subjetivo melancólico se sagrasse vencedor”. A referência às “paixões tristes” ou aos “afetos tristes” remontam claramente à Ética, de Spinoza, na qual as afecções citadas por Danichi (e também a raiva, a vergonha, a inveja, a humilhação) são caracterizadas por diminuir nossa potência de agir. Os afetos tristes se opõem, em Spinoza, aos alegres — oriundos do amor, da amizade, da confiança — que, ao contrário, aumentam nossa potência de agir. Deste modo, Spinoza sustenta uma aposta ético-política de confrontação afetiva — aposta que é o coração-refrão de Eterna fantasia, se repetindo em momentos-chave da trama.  

“Essa tristeza é tudo que eles querem, essa tristeza é a vitória deles” (p. 41), diz a pernambucana Dulce, grande amiga e colega de Maria. A dimensão da tristeza as embosca o tempo inteiro, seja pelo golpismo, pela mentira, ou pelo ódio ressentido dos homens cada vez mais autorizado e insuflado pelo bolsonarismo. A resposta de Maria aos afetos tristes vem pela coragem do amor e do sexo com a jovem Sofia, pela coragem da amizade com Dulce e também com Regina, mulher mais velha, cancheira e calejada da militância. Num dos momentos-chave do livro, Maria tem o impulso de confrontar seus opositores pela mesma moeda triste com a qual foi atacada e Regina reage: “ficar nessa é se boicotar, é perder a força (…) é por isso que a gente tem que guardar energia (…) pro amor, pra amizade, pro tesão, pra arte, (…) pra esse monte de coisas, porque senão fica tudo cinza, a gente se deprime, tudo perde a graça e já era” (p. 128). 

É fundamental ressaltar que tal confrontação afetiva pode ser uma arma coletiva, concreta e potente. As manifestações de setembro contra a PEC da blindagem e o PL da Anistia (obras da mesma ilibada Câmara dos Deputados) que reuniram milhares de pessoas em diversas cidades do país, contrastando com os últimos atos esvaziados da esquerda, são a prova. As manifestações contaram com artistas como Djonga, Marina Sena, Daniela Mercury, Baco exu do blues, Emicida, BaianaSystem, Maria Gadú, Sophia Chablau, Lamparina, Otto, Thalma de Freitas, Pepita, transformando o ato político em festa pela democracia. 

No Rio de Janeiro, palco de Eterna fantasia, a enorme manifestação reuniu figuras emblemáticas, corajosas e alegres como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, cujas vozes, aliás, estofam o romance a todo momento. Além de ajudar a barrar a PEC da blindagem no Senado, os atos influenciaram na aprovação da reforma tributária na Câmara — pequena reforma, certo, mas improvável antes dos protestos. Assim, a confrontação afetiva da qual o romance trata é potencialmente eficaz, atual, está ao alcance das nossas experiências. Ela não se opõe de modo algum à consistência dos argumentos e da vivência política, mas, ao contrário, ela a alimenta e a torna possível.  

A coragem do amor, da alegria, do sexo, da amizade aparece em Eterna fantasia como um amuleto — referência manifesta de Danichi ao romance do chileno Roberto Bolaño que traz à baila a dimensão triste do desamparo. Amuleto, de Bolaño, é narrado por Auxílio, nome eloquente que conversa com a epígrafe do livro: “queríamos, pobres de nós, pedir auxílio; mas não havia ninguém para nos acudir”. Recorto aqui apenas um pequeno fragmento no qual Auxílio é atacada por uma sombra que queria sua “dor”, sua “humilhação”, sua “morte”. Auxílio mergulha a mão dentro da bolsa pra agarrar seu canivete, mas seus dedos remexem apenas livros, revistas e roupas, “mas não o canivete, ai, meus amiguinhos, outro terror recorrente e mortalmente latino-americano: procurar sua arma e não encontrar, procurá-la onde você a deixou e não achá-la” (p. 52).

Em Eterna fantasia, Maria devaneia: “talvez seja isso mesmo, é essa a história do nosso continente, pequenos espasmos de alegria e a ditadura de ridículos tiranos no restante do tempo, miséria, miséria, miséria, violência, violência, violência, dor, dor, dor, morte, morte, morte” (p. 101). Talvez, as armas que temos sejam justamente estas que Auxílio tateia em sua bolsa — livros, revistas e roupas costurando nossas fantasias. Danichi traz o final de Amuleto na voz de Sofia que lê alto: “e embora o canto que escutei falasse da guerra, das façanhas heroicas de uma geração inteira de jovens latino-americanos sacrificados, eu soube que acima de tudo falava de destemor e dos espelhos, do desejo e do prazer. E esse canto é nosso amuleto”, (p. 151).

Arrisco dizer que Eterna fantasia tem certa forma de canto. Isso porque o livro começa numa narração ágil em terceira pessoa para, depois do golpe de 2016, passar a ser narrado notadamente pelas vozes das personagens, num discurso coletivo de mil cruzamentos e referências, principalmente musicais. Músicas que vão tomando a narrativa ao final do livro quando, numa cena tanto épica quanto angustiante, Maria, Sofia, Dulce dançam enquanto a televisão anuncia os resultados do primeiro turno de 2018. “Foda-se!”, diz Maria, “é assim que se lida com essa galera ressentida, quanto mais a gente afirma a alegria da vida menos ficamos à mercê, tudo que eles querem é espalhar tristeza, e o fascismo é isso, né? um modo de espalhar tristeza” (p. 200). E vamos entendendo que aquele canto, aquela dança, aqueles beijos, aquele tesão, não são desistência, não são fuga ou alienação; são coragem, confrontação, amuleto. E, enquanto durar a fantasia de um Brasil menos triste e fascista, essas podem ser, sim, as armas a arrancarmos de dentro das bolsas.   

Eterna Fantasia
Danichi Hausen Mizoguchi
Dublinense, 2025
224 pp.
Foto: Marco Nedeff/ Divulgação.

Manoel Madeira é psicanalista e escritor. Doutor em Psicanálise e psicopatologia pela Université Paris-Diderot Sorbonne Cité, onde lecionou entre 2013 e 2015. Foi Professor Adjunto no Departamento de Psicanálise da UFRGS entre 2016 e 2020. Mestre em Antropologia pela EHESS-Paris. Autor dos romances Ausentes (Diadorim, 2018) e Os olhos dos outros (Libretos, 2022).

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