
Ẹ̀mí de mim
É da árvore Ìrókò que colho a epifania, é aos pés do Baobá que me fortaleço, ao macerar as folhas encantadas pronuncio o Verbo que carrega a transmutação da dor.
Arte Alvorada – Música Incidental Black Bird, 2020. © Antonio Obá. Foto: Bruno Leão (via Pinacoteca Contemporânea).
Pés descalços sobre a Terra – movimento telúrico de deslocamento do Ser no Tempo-Espaço, Onde-Quando a ancestralidade se eterniza ao som dos tambores – esse ressoar de toda uma existência: luta, rito, mito, fé, entrega: quando Orí nos convida a olharmos para dentro, é labiríntico o caminho, por isso verdadeiro: perder-se para ancorar nos estados mais profundos, mergulhar nas águas de Olókun, beber da gota da folha Tètèrègún, encarar a morte com a delicada intensidade da reza, tomar consciência de sua inevitabilidade – tentando nos manter o mais vivo que podemos?
Quando o corpo se prostra diante do Cosmos – que é erva, fogo, raio, seixo, fluxo -, qual sombra projeta-se no Ọ̀run? – esse céu que observamos como se estivesse à parte de nós, mas é morada de nossos sonhos, de nossas carnes, das nossas moribundas certezas de esqueleto… Ou, ainda, seria essa sombra a que eclipsa o nosso sol egóico, transformando-nos em indivisíveis partículas que não são mais que fósforo madeira carvão? Qual fogo se mantém vivo quando se adensa o medo que corrói os músculos cansados de tanto? Na névoa da memória, onde aves de antanho pousam sobre Yangí, abrem as asas e piam rachando espelhos e peles, dança Ikú, a olhar nossa finitude, nossa ínfima materialidade, esse corpo-vegetação-rasteira-arrancada-por-foice-e-rito, enquanto Exu gargalha da soberba humana.
Mais além do além ainda: sombra-duplo, Òjìji que nos rouba o cetro, destrona a majestade, faz rastejante o mover-se nosso de cada dia, amém? (A serpente, para os iorubás, é sagrada; nada há de pecado culpa punição: desloca-se com a cabeça à frente do corpo, adiante, sinuosamente bela, antes Axé que Adão, antes transformação que Cruz, mais que medo, travessia!). Ah, o fruto proibido – essa construção ocidental branca que desmorona desejos, aprisiona-os como animais de estimação para os quais se dá a mísera ração das piedades, o quinhão que lhes cabe de uma misericórdia forjada em pregos e espinhos.
Mas é da árvore Ìrókò que colho a epifania, é aos pés do Baobá que me fortaleço, ao macerar as folhas encantadas pronuncio o Verbo que carrega a transmutação da dor, palavra que renova as lágrimas, água que acolhe a seiva, o sumo sacerdote, a suma feminina: seio de rio onde se liquefazem minhas pústulas, onde a criança se encanta ao mirar-se na lua que paira tênue na calmaria da alvorad´água, enquanto o velho ancião tateia com dedos longos a superfície inata do Olho-do-Mistério. Ọlọ́jọ́ Òní, Senhor do dia, guardião das divinas ovelhas negras que acordam para balir a História, a verdadeira História, eu vos reverencio e bebo da sabedoria seu lambuzante mel africano. É no black que estalo os dedos – clack! – e me refaço deus, deusa, e o Ọkàn bate bate bate e risca o traço infinito que me circunda, Ẹ̀mí de mim!
escritos é uma coluna/arquivo em construção que reúne reflexões sobre a espiritualidade, metafísica e experiências filosóficas afrocentradas (mas não só isso), assinada por Antonio Arruda.
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