A distração possível

Em busca de uma única centelha

Das pequenas tragédias da “vida como ela é”, de Nelson Rodrigues, à observação e humor de Luis Fernando Verissimo, o cronista é esse olhar que tenta explicar o mundo a partir dos retratos da vida comum.

Arte: Intifada, de Fábio Baroli (Reprodução).


A experiência que passa de boca em boca é a fonte a que recorreram todos os narradores.
Walter Benjamin, em O Narrador

Sento para escrever a última crônica dessa série de textos do Carnaval. Um guarda-chuva na boca, as pernas pesadas no chão, a cabeça que não consegue segurar uma ideia. Reina apenas aquela vontade absoluta de beber cinquenta copos de água gelada. Depois de mais um dia intenso de festa, uma tarde, para ser específico, mais ainda, uma tarde na Mudança do Garcia, o calor somado à refrescância gelada, 3 por 10, a cidade pulsando e os abraços de amigos que não via há anos. Nem preciso perguntar, porque esse corpo ressaqueado, paradoxalmente, está recarregado para iniciar. Já entendeu na carne o quanto o ano só começa, realmente, depois do Carnaval?

Pois, então, há dias em que a palavra espreita, fica lá, deitada no sofá, recarregando as energias. Entre as marcas do cotidiano palmilhado nas ruas e essa força que nos impele a contar, há uma mnemônica forte que dança. É dela que ressoa a crônica, esse anfíbio que se acomoda no movimento da soma, como bem definiu Antonio Candido, força dúbia da terra e da água. Mas, mesmo assim, é difícil. O que fazer quando nada se tem a fazer? Escrever é um debulhar, um descascar até o fruto. Paciência.

Li em algum lugar que Rubem Braga dizia que a crônica é o “puxadinho” da literatura, onde não é necessária a insistência de grandes temas. Já Machado de Assis afirmava que a crônica é como uma “conversa entre vizinhos”. Clarice Lispector pensava que ela vem de uma “exposição pessoal” que carrega o perigo de ter que falar como o “eu”, e não a partir das vestes dos personagens. O grande Paulo Mendes Campos dizia que a crônica é a “poesia de chinelos”. Bonito isso. Fernando Sabino afirmava que ela é o “extraordinário do ordinário”. Das pequenas tragédias da “vida como ela é”, de Nelson Rodrigues, à observação e humor de Luis Fernando Verissimo, o cronista é esse olhar que tenta explicar o mundo a partir dos retratos da vida comum.

Michel de Certeau escreveu, em sua “Invenção do Cotidiano”, que “o cotidiano se inventa com mil maneiras de caça não autorizada”. Sim, pois nesse recorte, o dia a dia é recriado continuamente através da metáfora da caça furtiva. Ele compara o sujeito comum a alguém que entra num território alheio, como um caçador em outras terras, e ali retira, reintegra, repassa. O cronista não seria alguém comum a esse ponto, mas é nessa invenção diária do viver que o penso, aquele que se apossa dos dizeres, das falas, das vivências e das palavras para criar um mundo extremamente atraente por ser vivo, representativo.

É desse lugar que escrevo, buscando uma única centelha de fogo para o papel que, mesmo sem ser escrito, já escreve. A mesma que me queimou os olhos quando avistei na Avenida Leovigildo Filgueiras, em plena Mudança do Garcia, em seu gás maior, os acordes de uma guitarra baiana tocando heavy metal, acompanhados pelo som percussivo de um mestre cujo nome não descobri. Eram as Irenes, bloquinho de três amigas que leva o nome do edifício azul em frente ao mercadinho na principal. 

E lá estava eu, pulando no meio dos passantes e gritando um coro que me dizia tantos outros Carnavais que já passaram, de vários outros lugares em que estive, de tantas outras pessoas que não estavam comigo naquele momento. A liberdade de vivermos as diferenças em um mesmo espaço de suor, resgate e alegria, no efêmero dos minutos que duram os metros cruzados na avenida para dar passagem ao próximo caminhãozinho, trazendo já a música de Luiz Caldas, Sarajane, Banda Mel. Salvador é um estado de espírito, um lugar do sentir que revoluciona por nos evoluir.

É desse lugar que escrevo agora, buscando uma única centelha de fogo. Mas, há dias em que a palavra espreita, fica lá, deitada no sofá recarregando as energias. E tudo o que resta é essa mnemônica de que falei, que dança, dança com os olhos fechados, os dedos em riste no ar e o coração saltitando.