
Em busca de redenção
Em Cartografia para caminhos incertos (2025), Ian Fraser nos apresenta a jornada de Mané em busca de Redenção, sua cidade natal
Em Cartografia para caminhos incertos (2025), Ian Fraser nos apresenta a jornada de Mané em busca de Redenção, sua cidade natal. Em uma estrutura episódica acompanhamos as desventuras de Mané pela Bahia em busca da cidade que perdeu por amor, por meio de uma prosa poética, cheia de introspecção e retratos um tanto surrealistas de nosso mundo.
Nesta Bahia mágica, com um carranca gigante que guarda uma cidade em sua boca e guerras de generais e mansões partidas ao meio, Mané, um poeta apaixonado, perde a sua Redenção ao sustentar um amor não correspondido. Ao atravessar a sua fronteira, a cidade da Bruxa se esconde do poeta que deve seguir por caminhos incertos para entender o mundo que o rodeia e a si mesmo. A metáfora principal pode ser um tanto óbvia quando se descreve a premissa do livro; talvez estejamos todos em uma jornada por Redenção, ainda que não saibamos exatamente porque precisamos dela. No entanto, essa está longe de ser a única analogia com a realidade que podemos encontrar ao longo do romance.
Em cada fase da jornada de Mané, o personagem se encontra com algum aspecto da sociedade contemporânea na qual nos encontramos. Como é o caso da cidade chamada Semiose, em que tudo é descrito. Lá, nada é referenciado pelo nome, com exceção das pessoas em situação de rua, que são referenciadas apenas pelo nome “mendigo”:
Tratam-nos pela palavra, não pela ideia. Mendigo, esta é a junção de sons que nos deram. Somos a única coisa aqui com nome próprio, porque assim fica mais fácil ignorar a ideia por trás da nossa existência. A ideia é triste demais para verbalizar, por isso preferem nos cobrir com um nome de papelão. Eles não querem se sentir culpados ao pensar nas coisas que o nome mendigo esconde. Palavra também é maquiagem. (Fraser, 2025, p.59, grifos do autor)
E esse é um dos focos do livro. Tentar entender o mundo para além de sua maquiagem. O nosso herói se aventura pela Bahia e se encontra com pequenas versões de nossos fragmentos, no entanto, ele parece ser o único daquele mundo que escolhe observar aquilo que o rodeia com mais atenção, talvez por ser poeta. Citando uma das personagens do livro, ele não se dá “tempo para fingir esquecimento” (Fraser, 2025, p. 50) com relação a tudo o que se depara em sua jornada.
Outra parada interessante a qual Mané atravessa é Dionésia: a cidade para onde todos os atores querem ir. Lá, a atuação é central na vida em sociedade, tão imersa no dia-a-dia que não há mais teatros ou histórias fantásticas, apenas é possível atuar caso o ator faça disso a sua vida, cada ator deve dedicar-se somente a um papel, assim “Dionésia virou um espetáculo sem espetáculo” (Fraser, 2025, p. 103). Mané fica surpreso, como podem aqueles atores tão alegres com quem encontrou no trem atuarem papéis tão indiferentes ao chegar na cidade?
De todas as cidades que Mané visitou em seu tempo no mundo novo, Dionésia era, sem dúvidas, a mais gerigonçada. Todos andavam com apetrechos nas mãos, filmando e documentando as performances que lhes sustentavam. Ao terem as câmeras voltadas para si, fosse andando ou comendo, os atores podiam se sentir protagonistas do espetáculo criado por Genuíno Fidedigno Veras, promovendo narrativas com seus sorrisos. (Fraser, 2025, p. 106)
Em Dionésia, a voz crítica se torna mais presente, voltada para a comunhão de protagonistas que caracteriza a contemporaneidade. É um livro que, enquanto lia no ônibus, me fez levantar a cabeça e prestar atenção em quantas pessoas tinham sua atenção retidas pelos seus “apetrechos nas mãos”.
A jornada de nosso herói é caracterizada por muitas outras cidades e encontros, com direito a uma participação do narrador em Glossolalia: “O homem em questão era eu, este narrador que aqui escreve” (Fraser, 2025, p. 151). Contudo, é injusto caracterizar o livro como um conjunto de metáforas, em sua prosa lírica e fluída o leitor se encontra, em especial, com a realização de que Redenção, especialmente quando é voltada para si, se torna uma longa jornada quando não nos temos. Afinal, não foram borboletas que fizeram Mané perder sua Redenção, mas as faltas que cometera consigo mesmo.
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Cartografia para caminhos incertos, Ian Fraser
Editora Intrínseca

