
Depois entendemos que mudar é construir pontes
Prefiro essa qualidade do sensível que há na transição, no entre. É desse lugar que aprendemos, notamos um outro mundo e realmente mudamos.
Arte de capa: Oxumarê, de Breno Pinheiro (série Orixás), foto: Arttere (reprodução).
O essencial é invisível aos olhos.
O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry
Nos últimos tempos vinha pensando em parar. Há um frescor que, com o tempo, se confunde com a necessidade. Mas ele passa e ela fica. Estava pensando em parar de escrever. É uma sombra antiga. Mas foi nesses meses que algo voltou quando lembrei. Porque é violenta a rotina; ela cega em nós as árvores no caminho. E a vista vai ficando concreta, cheia de luzes artificiais no final do dia.
A música das horas pelos poros a assomar. Quando respiramos, como quem fura a bolha d’água e, saindo do mar, inspira longo e profundo, já não percebemos que somos de nós mesmos desconhecidos. Alguns recortam, dizem que crescer é inevitável. Outros acreditam que dói. Mas sinto, a cada ano, que, diante do tempo, é possível mudarmos as suas acomodações, o dilatar das pupilas diante dos arroubos vividos.
Até pouco lia sobre as consequências de viver reclamando. Quanto mais se reclama, mais pioram as condições de uma vida. Porque o cérebro é reprogramado para buscar mais do que está fazendo mal.
“Escrever sempre foi uma reação, um movimento de emancipação antes de tudo, mas também de coedição.”
– Tiago D. Oliveira
E aí lembramos que o prefixo “re” vem de repetir e “clamar”, de pedir insistentemente. Toda vez que reclamamos, estamos pedindo ao universo que aquilo aconteça novamente. O nosso cérebro nos recompensa quando reclamamos, liberando dopamina, a substância que está associada ao prazer e às recompensas. Logo, reclamar vicia. O problema é que continuamos no mesmo lugar, explica a neurociência.
Foi trocando costumes que comecei a lembrar que escrever sempre foi uma reação, um movimento de emancipação antes de tudo, mas também de coedição. Enquanto escrevo, coedito os dias buscando entendimento entre acordos e resgates espirituais. Faço a outra parte, a que me cabe e posso controlar. Assim, destino alguma chance de compreensão, ação mínima que seja. É uma busca: trocar a reclamação e o peso de seu entorno por um novo sentido.
Inframince, segundo Marcel Duchamp, a mudança é algo fino. Perceber o sutil do mundo, explorar o limiar entre o que é e o que poderia ser. Transformar. Prefiro essa qualidade do sensível que há na transição, no entre. É desse lugar que aprendemos, notamos um outro mundo e realmente mudamos.
Já são duas semanas atravessando aulas de recuperação e algumas seleções para compor as escolas em que vou lecionar no novo que se anuncia. Práticas normais desta época do ano para qualquer professor escolar. Quanto mais cedo nos acostumamos com esse trânsito, melhor gerimos as possibilidades. A única constante é a mudança, já ouvia desde menino. O que reforça ainda mais a tentativa de reagir aos efeitos duradouros do convívio com o atual ambiente escolar. Mudar a si mesmo, as rotinas, as buscas, em novas adequações e, muitas vezes, o ambiente. “Tudo novo de novo”, como cantou Paulinho Moska.
Até ontem ouvia, sem conseguir evitar, uma conversa de elevador, em que uma pessoa provocava outra, dizendo que não entendia o porquê de todo esse clima, das olheiras, da tentativa de resguardo e proteção no ambiente escolar. “Isso tudo acaba transformando a gente em pedaços de gelo que andam pelos corredores”, ela repetiu duas vezes. Sabe quando você ri por dentro tentando manter a postura? Porque há um milhão de entrelinhas e contextos que gritam aqui. E a conversa seguia como se fosse um monólogo; a segunda parte apenas ouvia calada. Eu me achava de olhos atentos ao abrir da porta. Foi quando a moça se calou e a outra mulher perguntou, em tom de final de expediente: “Há quanto tempo você dá aulas, minha filha?”. E, de pronto, ela respondeu: “Vou fazer um ano agora”. Antes que terminasse a frase, o olhar raiz, com ares da gigante e saudosa Maria Conceição Tavares, tomou o elevador. Depois, um riso metonímico abriu as porteiras para aquela gargalhada incontrolável. Eu também não consegui evitar, mas, já de portas abertas para o meu andar, dei boa noite e até logo.
Nos últimos tempos vinha pensando em parar. Há um frescor que vai se confundindo com a necessidade. Mas ele passa e ela fica. Estava pensando em parar de dar aulas. Fiquei um ano longe das escolas, mantendo as aulas em outros ambientes, outras formas educacionais e financeiras. Afinal, é preciso pagar as contas. Mas, novamente, a mudança fortalece as longarinas deste tempo, apresentando-nos, da interinidade, o que lhe atravessa feito sol, abrindo o tempo.
Lembrei de mim quando era aluno da Pró Neildes, lá na extinta Escola San Martin, em Sete de Abril, e do uso do ponto e vírgula, das conjugações verbais, do tópico frasal que guarda o parágrafo. Das formas de agradecer ao colega, de dividir a broa de milho em quatro pedaços iguais, de ouvir a respiração mais agitada de nossa professora. Ainda agora, debruçado sobre o teclado do notebook, fecho os olhos e lembro de seu olhar atento, de sua voz pacífica e do cuidado em perceber cada um de nós como exatamente ainda seríamos. Guardo da pró Neildes esse professor que me esforço para ser. E assim me resguardo diante das engrenagens da máquina privada escolar, deste tempo político sem garantias nem terapias acessíveis. Assim, volto a acreditar na diferença que podemos fazer na vida de alguém, seja por escutá-la de forma integral ou por construir pontes entre seus sonhos.
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