Crônica

De onde nunca fui, de onde todos são

A solidão de uma das cidades mais populosas do mundo, a dor e o gozo dessa solidão povoada, que me permitiu olhar da janela para tantos céus de janelas e entender que aquela cidade é uma metonímia da criação. Escrever São Paulo é um solilóquio produtivo com o caos.

Fotos: Arquivo Rita de Podestá.

  • Os trechos neste texto são do romance “Parapeito” (2025, Cachalote)

A Julia Codo e Meno Del Picchia

São Paulo é a cidade mais presente na minha literatura. Vez ou outra, me culpo por Minas, meu estado natal (e natural), se revelar apenas no passado das personagens. Mas foi em São Paulo, longe de casa, que explodiu o que se fermentava em mim desde pequena. Foi lá que eu gestei minha escrita.

Mas mais do que contar sobre como eu fui parar em São Paulo, queria falar sobre como São Paulo veio parar em mim.


“Já faz um tempo que ela se tornou minha vista. Pela manhã, chega cedo. Depois de uma hora vai embora e só volta no fim do dia. Nunca fica para dormir. Ali onde ela está, consigo ver seu rosto. É chinesa. Parece chinesa. Os chineses costumam ser magros e altos. Ela é magra e alta. Dá para ver pela referência da janela. Usa calças justas e camisetas largas. E lisas. Nunca uma estampa ou algum acessório que denuncie um gosto peculiar ou um rastro. Aparece todos os dias, menos sábado e domingo. Ainda assim, nunca deixo de esperar, olhando para o seu apartamento, no prédio em frente ao meu, separado apenas por uma piscina e uma churrasqueira”


Antes de morar num prédio em São Paulo, eu só tinha morado em casa. Primeiro, a casa que é dos meus pais até hoje. Uma casa que, por mais que tenha se modificado bastante nos novos projetos arquitetônicos do meu pai, nunca mudou. No meu quarto de infância, que duplicou de tamanho na adolescência, dá para ver a rachadura no teto dividindo minhas gerações. Por um tempo, tive medo do quarto cair em cima da sala de jantar, hoje é das minhas marcações de tempo mais cativas.

Dessa casa, fui para um pequeno sobrado que fazia parte da casa da minha avó. Desde que nasci, minha avó morava na casa vizinha, unida à nossa por uma porta na garagem. Quando ela morreu, a casa foi alugada e a porta virou muro. Ainda hoje sou capaz de sentir o gosto do cimento. As paredes são testemunhas cruéis, principalmente quando sutis. 

Preciso chegar a São Paulo. 

Chego

numa vida que tem marido, faculdade de Letras, mapa do metrô, padarias vinte e quatro horas, e dois elementos ainda mais inusitados para mim até então: porteiros e uma vista para quarenta e duas janelas. 


“Enquanto ela não volta, me contento com seus vizinhos. O coelho preto bem grande que vive preso no terraço do apartamento térreo. O cachorro, também grande, que late da janela do quarto ao lado, indignado com o confinamento. A menina que brinca sozinha na área da piscina e ignora qualquer ser humano que tente atrapalhar sua solidão. O homem musculoso e careca do sexto andar que se depila de cueca em frente à janela aberta. São quarenta e dois apartamentos onde as pessoas acordam, dormem, brincam, latem e se depilam. Um enorme céu de janelas dentro das quais histórias se materializam, casulos se espatifam, expectativas se despedaçam, pessoas são feitas, e mortas.”


Quando escolhi morar em São Paulo com o homem que seria meu futuro ex-marido, eu decidi que faria uma nova graduação, estudaria Letras na Universidade de São Paulo. Eu nunca quis morar em São Paulo. Nem estudar na USP. Nem fazer letras. O desejo brotou em mim como um capim ousado. Sem imposições, sem propostas irrecusáveis. Eu tinha opção. Ainda assim, escolhi morar em São Paulo. Decidi que largaria uma casa com aluguel mínimo (preço de vó), os almoços quase diários na casa dos pais, o freela fixo que me dava um salário suficiente. Eu largaria uma vida suficiente por uma vida que me fizesse escrever. Eu largaria uma vida suficiente por uma vida que nunca viria a ser suficiente. 

Mas,

quanto mais São Paulo se inscreve em você, maior ela fica,
quanto mais você escreve, menos você escreveu.

São Paulo é a terra da insuficiência, tamanha a fervura da sua criação.
A escrita é o lugar da insuficiência, tamanha a fervura da sua criação. 


 “Às vezes esqueço em qual mundo estou, ou acordo sem saber como vim parar nessa cama que tem o mesmo colchão de antes, os mesmos ácaros, mas outras paredes, outro teto, outra vista. Só volto quando me sento para escrever e posso olhar para os dois lados. Dentro e fora. Tenho me esquecido aos poucos.”


O conselho de escrita:

Não tive lua de mel. Na segunda-feira pós-casamento, estava no 702U-10 a caminho da universidade. Propus que passássemos ao menos um final de semana nessas regiões serranas de São Paulo que devolvem um pouco a vista que a capital não tem (porque até então eu dizia que prédio não é vista, hoje sei que vista é o que você se dispõe a ver). Fomos. Na cidadezinha, resolvemos visitar um artesão que fazia luminárias de madeira, fálicas (isso só fui entender depois). O artesão nos recebeu bem, era de manhã cedo e ele bebia cerveja. Perguntou com o que trabalhávamos (taí outra pergunta típica paulistana). Meu então marido disse que eu era escritora. Eu disse que não, disse que queria ser. Ele perguntou se eu conhecia escritores e eu disse que não. Daí a anedota do escultor bêbado a quem eu viria a agradecer no meu primeiro livro: 

se um pintor de parede que sonha em pintar quadros só conhecer outros pintores de paredes, ele será sempre um pintor de paredes. Se você quer ser escritora, você precisa conhecer escritores. 

O casamento acabou dois anos depois e mais uma vez decidi por São Paulo, livremente. Sem emprego, sem saber como, criando a personagem enquanto a escrevia, vivi mais seis anos na metrópole desvairada. Me arrependo de cada ano sem nenhum arrependimento. Nunca moraria em São Paulo, mas faria tudo de novo. De tudo que sinto falta na cidade, sou capaz de nem me lembrar.

A cidade onde mais andei de bicicleta pelas ruas e ganhei uma rinite desnatural. A prisão na qual mais me senti livre, graças ao transporte público. A rua como quintal dos apartamentos minúsculos e os apartamentos minúsculos como mansões de privilégios. As pessoas que nem te olham, os amigos de outros brasis que te acolhem de imediato. A solidão de uma das cidades mais populosas do mundo, a dor e o gozo dessa solidão povoada, que me permitiu olhar da janela para tantos céus de janelas e entender que aquela cidade é uma metonímia da criação. Escrever São Paulo é um solilóquio produtivo com o caos.

Hoje, depois de passar por Salvador e me assentar nas encruzilhadas do Rio de Janeiro, ainda tenho a luminária e o conselho. Este, seguido com muito afinco, depois com certa cautela. 


“O porteiro se assusta ao me ver, como se eu tivesse saído de um coma. Também me assusto. Olho em volta e percebo como este mundo continua igual, num atrevimento jocoso. Os moradores de rua continuam invisíveis de tão evidentes. A padaria da esquina continua com o cardápio de pratos feitos a vinte e nove e noventa e nove. Um estudante de uniforme esbarra em mim e eu peço desculpas. (…) Um homem me olha sem nem tentar disfarçar que me olha. Estou de pijama. De frio. Um pijama estampado de luas crescentes ou minguantes, nunca soube a diferença. Olho para os meus pés e me certifico de estar usando chinelos. Estou. Muitas pessoas reparam em mim, no início, logo me integro à paisagem. Ninguém se importa.”


Os moradores de rua continuam invisíveis de tão evidentes, para escrever essa frase, roubei o verso “invisível de tão evidente” da música “E a galera ria” do Thiago Amud. Na música (escutem) o contexto é outro, mas aqui funciona igual. É que um dos tantos paradoxos paulistanos é o de ser ela uma cidade na qual a indignação política e social coabita com a máquina que a provoca – de forma escancarada e muito bem articulada. 

Foi um grupo de mulheres de vinte anos com seios de fora na universidade que acordou meu feminismo, até então menina. Foi nas manifestações Fora Temer, Não é não, e outras tantas na Avenida Paulista, que conheci a raiva da esperança. Mas foi também em São Paulo que tive medo do cidadão de bem de verde e amarelo desfilando na mesma avenida. Que perdi um voo por causa de uma motociata. Que perdi o mínimo controle que eu tinha da minha saúde mental por causa dos prazos antigregorianos das startups. Que conheci a arte, a performance, o teatro, o cinema, as galerias, os museus, os artistas, o mundo em ebulição, mas também as portas fechadas, as bolhas mínimas, a pretensão de ser o centro do mundo, a rivalidade por um rasgo de luz. 

A cidade do veneno e do antídoto, que se come ao mesmo tempo em que se cospe. 
A cidade que me permitiu e me ensinou o prazer de ser invisível, e me semeou o desejo de estar evidente.

Nunca uma cidade me deu e me tirou tanto. 


“E você precisa decidir, precisa saber qual direção tomar para sobreviver e continuar sendo o mais próximo possível de você mesma, precisa ser você mesma sua própria casa, redecorar os vazios, consertar os rodapés, o piso, colocar rede de proteção em todas as janelas, porque você ainda não sabe como se comporta esse seu novo ser sozinha, não sabe como é tomar decisões sozinha, como é ter que pensar em um amanhã só seu, ter que assumir todos os erros, reconhecer os acertos, porque durante muito tempo você teve alguém por perto, alguém que tinha sempre uma certeza no bolso, como um isqueiro, alguém que dizia o que era certo e errado, você se acostumou a esperar a resposta vir, e vinha. Agora não. Agora o que existe é um futuro vazio que você só consegue preencher com loquelas que te levam a respostas escritas com pontos de interrogação. Ser sozinha depois de alguém é ser alguém com quem você ainda não tem intimidade, mas é obrigada a aprender a conviver com, de uma hora para outra, o tempo todo, sem pausas, sem fugas, nem possibilidades de recuo.”


Toda vez que eu saía do prédio, dava notícias ao porteiro. Vou na padaria, quer algo de comer? Vou ali comprar uns preguinhos. Opa, boa tarde, vou pra aula, volto só mais tarde. Até então, nunca tinha tido alguém sempre à disposição para me abrir portas, alguém que me vigiasse pelas câmeras do elevador e recebesse todas minhas entregas. Demorou para eu entender que nossa relação poderia ser de cumplicidade, mas sem me tornar uma narradora intrometida e exaustiva. 

Até que eu me acostumei. Já a vista para as quarenta e duas janelas, nunca consegui banalizar.  

Céu de Janelas, conto do meu primeiro livro Zaranza, nasce daí. Um casamento que desmoronava diante de centenas de vidas que, talvez, testemunhassem a minha, como eu a delas. No conto, os cômodos do apartamento desaparecem um a um, ficando apenas a janela-varanda na qual a personagem-narradora se debruça, em busca de um mundo à parte. 

O tema se expande para o que veio a ser meu primeiro romance, Parapeito. Para quem me pergunta se a Chinesinha, personagem do livro, existiu de verdade, sempre digo que sim e que não. Tinha essa mulher do prédio em frente que escrevia todos os dias pela manhã. Essa mulher que fazia o que eu queria tanto fazer. Essa mulher para a qual eu inventava vidas cada vez que a via. Até que ela se mudou. Até que um dia, eu vi uma mulher asiática no café de um supermercado, onde às vezes eu ia trabalhar. Uma mulher chinesa (supus pelas minhas poucas referências) que usava roupas de ginástica e que, aparentemente, copiava os artigos de um jornal. Parecia não haver um supermercado ao seu redor. Era como se ela continuasse na janela. Era como se ela fosse ela. 

Zaranza, de Rita de Podestá/ Editora Reformatório, 2021/ 120 pp.
Parapeito, de Rita de Podestá/ Editora Cachalote, 2025/ 224 pp.

Hoje, quatro anos depois, sei que a Chinesinha que eu vi no supermercado era a síntese do que São Paulo representa para mim. São Paulo foi onde nasci-me escritora, longe do idílico sonho do escritório com vista para as montanhas, a cidade onde romances nascem em cafés de supermercado, onde flores rompem do asfalto, a cidade que esbanja a contradição muitas vezes necessária para que a criação se desapegue do belo explícito. São Paulo guarda sua beleza no que é bruto, ali habita o pior e o melhor de nós, e é aí onde a literatura tem casa cativa. Se Lispector disse de Brasília uma cidade artificial, digo de São Paulo uma cidade natural, que deslacra as relações humanas, uma cidade-pandora que nos obriga a enxergar o que temos de mais controverso, sem deixarmos de acreditar na temperança trancada a tempo no fundo do vaso.

A cidade de São Paulo tem modos de usar: ela pode tanto te alienar como te lançar para um além frutífero. Cidade solenoide, cujo campo magnético atrai e repele. Conversão de energia elétrica, combustão. Não é possível sair ileso. Não saí.

Por enquanto, não tenho planos de voltar. Sigo em frente, talvez um pouco mais cega para os erros do mundo, depois de tanto enxergá-los. Talvez mais focada no invisível. Não foi à toa que dediquei Parapeito aos ácaros paulistanos. São Paulo me abriu os sentidos para o que tá na cara e a gente não consegue enxergar. 

Desde que parti
O que era grande
Cabe agora em mim

De onde nunca fui
De onde todos são
São Paulo
Soa marginal te esquecer*.

*Verso da música De onde nunca fui, parceria minha com o músico Meno Del Picchia.