
Da obscuridade da lâmpada à falta de fôlego do gênio
Quase ninguém no campo literário e no mercado editorial sai do proletariado – e os poucos que dele saem, ou tiveram uma instrução sucateada, ou estão ocupados demais com as estratégias adulatórias que têm que adotar para garantir um lugar ao sol.
Por Diogo Santiago.
Na foto, almoço dos escritores que participaram da Semana de Arte Moderna de 1922. Ao contrário do que se imagina, a foto (da Folhapress) foi tirada em 1924.
Ao redor do berço, nada se discerne. Bebê Gênio não se dá conta da separação entre o mim e o mundo. Desde o princípio, porém, agem nele as coisas externas: e ao mesmo tempo que o mantêm vivo, elas são mais ou menos confortáveis1.
Ainda que Baby Genius não o saiba, nem tudo ao redor do berço é objeto.
A idade, o gênero, a aparência, o odor, a aptidão física dos sujeitos ao redor de um berço importam muito no conforto do seu miolo.
Algo não menos importante nessa distinção é a categoria socioprofissional.
Antes de se interessar pelo tamanho das línguas e plumas geniais, o crítico literário se debruça portanto sobre as coisas que rodeiam os berços. Cor, forma, massa, densidade, volume: tantos atributos ambientes que geralmente esquecemos quando tentamos resumir este ou aquele percurso – as marcas deixadas no gênio pelo contato com essas matérias primárias são no entanto indeléveis.
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Na segunda metade do século vinte, a sociologia estabeleceu os critérios que determinam a classe social de qualquer miolo de berço. Mas basta um curto contato com as redes sociais dos nossos oradores de carteirinha para que se perceba que eles continuam com a vista embaçada dos primeiros dias.
Atire a primeira pedra quem pelo seu meio não for determinado! Perante a dureza da rocha, a água se admira; perante a moleza da água, quem se admira é a rocha. Afecções de classe geram afetos de classe; as mesmas causas sempre produzem os mesmos efeitos. Não há portanto razões para que condenemos os medíocres por se pensarem gênios.
Há muito, venho apontando para a importância de não parar de escrever sobre as determinações que levam grande parte dos detentores do verbo a gostar dos mesmos documentários, das mesmas canções, dos mesmos romances. A história é uma tragicômica sucessão de contemporaneidades e os traços que o literato deixa pelo caminho são de valor primordial para o historiador. Conversa pra boi dormir? Talvez. Mas, quando olho para o lado, vejo que, em reação a algumas verdades dolorosas publicadas no jornal a respeito das suas práticas falsárias, os gênios editoriais de plantão andam por aí falando de “capital simbólico” como se fosse uma coisa simples. Intrépidos autômatos. Para se safar em público das próprias pulsões elitistas, eles se comparam a Musk e a Bezos: entre os bilhões de dólares dos magnatas do Vale do Silício e os quinze mil reais que faturam por mês com suas lojinhas de papel, eles não enxergam nada. Sinto-me mais próximo do proletariado que da burguesia, balbuciam eles, em live improvisada. Tenho menos coisa em comum com Zuckerberg que com minha empregada, insistem, com a voz trêmula.
Inocente ventríloquo da barba lavada. Não entendeste mesmo que o capital financeiro não basta para definir a classe social de um sujeito. Não enxergas os meandros dos capitais social, cultural e escolar, e por conseguinte não sabes que é em conjunto que eles produzem o simbólico. Por não te saberes nem herdeiro nem semiletrado (tampouco medíocre), continuarás comportando-te como se não tiveste nada a ver com a farsa. Tadinho, não sabes o que dizes. Felizmente, também não sabes escrever, e serás logo esquecido.
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Em um texto intitulado “Pela liberdade da escola e pela liberdade de ser burro”, publicado em 19172, o italiano Antonio Gramsci denuncia as concessões em matéria de educação nacional que tinham feito à igreja os ministros Credaro e Grippo3.
Concederam que os religiosos possam mandar seus alunos fazer uma prova lá onde é mais fácil passar, lá onde os examinadores se encontram ligados aos candidatos por vínculos de interesse político e sectário, lá onde podem facilmente corromper os examinadores. […] Assim, será possível aos jovens abastados, que não tenham estudado, ir por exemplo de Torino à Calábria em busca de um examinador que os fará passar na prova mesmo que não saibam nada, enquanto um jovem que escolherá fazer a prova nas escolas de Torino deverá estudar, sacrificar-se, e após ter feito todo o trabalho necessário, será ultrapassado por aquele do qual a família consegue fazer um doutor em o mantendo burro.
Obviamente, o que Gramsci analisa aí cabe à Itália.
Na governança brazuca, a necessidade de regulamentar a educação nacional chegou em 1930, por causa da crise do café. Era necessário instituir e disseminar um ensino básico para que a classe trabalhadora brasileira não danificasse, por ignorância, a maquinaria de segunda mão que chegava do Ocidente para reabilitar a indústria nacional.
Desde o começo, em outros termos, a escola brasileira é colonial, e dividida em dois: para os herdeiros da Casa Grande uma – particular e arejada; para os da Senzala outra – pública e superlotada.
Como o pacto capitalista com a parte branca da população mundial ia de vento em popa, os novos chegantes europeus, financiados pelo Governo, tiveram na época do primeiro programa nacional de educação os mesmos privilégios dos netos dos bandeirantes. No Brasil, é desde sempre que a governança concede que os herdeiros de raça branca “possam mandar seus alunos fazer uma prova lá onde é mais fácil passar, lá onde os examinadores se encontram ligados aos candidatos por vínculos de interesse político e sectário, lá onde podem facilmente corromper os examinadores”. Ou seja: escola particular.
Quando FHC assume a presidência, a concessão se estende ao ensino superior.
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“Vínculos de interesse político e sectário”, eis o nó do borogodó. Os examinadores, efetivamente, nunca erram a nota dos que pagam a conta.
Do vasto cambalacho do qual emanam esses diplomas, sobe também uma catinga de morbidez. Quando tento imaginar que, apesar de tantos privilégios, apesar de tanta certeza na prosperidade do futuro, apesar de tantas viagens de avião e tanta água de coco à sombra do guarda-sol, esses branquinhos vão desenvolver uma vontade visceral de estudar a fundo o método experimental em Bacon, o cogito em Descartes, o afeto em Spinoza, quando tento imaginar essas coisas, sinto-me na pele do doido varrido que arremessa pela janela o seu centésimo prato, acreditando que, este, vai voar.
Vale repetir em outros termos que, de tanta hegemonia, o gênio termina definhando. É assim que os impérios caem.
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A mercadoria “instrução” tem pouco valor na Itália, mesmo que seja cara; o que tem valor é a mercadoria “certificado”, que em contrapartida é baratíssima4.
A faculdade particular no Brasil ficou bem baratinha. Duas funções nisso: diplomar os atuais branquinhos que por questão de classe não precisam fazer esforço; e, dar emprego aos jumentos que os pariram.
Efetivamente, quando xereto a usina de diplomas em que se transformaram as capitais brasileiras, vejo vários dos meus antigos camaradas de universidade que, após terem obtido aos trancos e barrancos um diploma de mestrado, andam enchendo de injunções contraditórias a cabeça oca de um corpo discente cada vez mais pálido, e desamparado.
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Em artigo intitulado “Narrativas com fôlego”, e publicado em 2007 na revista Letras de Hoje5, Tânia Ramos, então pesquisadora na UFSC, dá o tom do seu interesse: “tenho buscado escritoras brasileiras contemporâneas […] que estejam mostrando a sua produção literária em livros de autoria, antologias, coletâneas, revistas literárias ou espaços virtuais de sites ou blogs”. Após ter lembrado que podem variar as interpretações acerca da qualidade dos textos encontrados, ter realçado a impossibilidade para o pesquisador de permanecer indiferente perante o movimento dado ao começo do século vinte e um brasileiro pela sua nova geração de escritoras, e ter confirmado que a crise da subjetividade trouxe para a produção contemporânea e para a crítica literária a crise da modernidade e das utopias, Ramos ofega:
Nessa saudável procura de novas vozes narrativas o que tenho encontrado? Contos, muitos contos. Leio e respiro, leio e esqueço, leio e me perco, em uma errância contínua, no sentido mesmo de errar, de apagar e começar de novo, de me perder entre tantos nomes. O que fazer, então, quando se procura narrativas com mais fôlego?6
Ainda que perdida entre tantos textos curtos, a pesquisadora é categórica: “uso aqui ‘com fôlego’ como um gesto da autoria e como um gesto de leitura”. Reformulando: que fazer enquanto leitora quando procuro autoras com fôlego e não as encontro? Para além de perdida, Ramos parece impressionada. Mas é só aparência. Enquanto pesquisadora, ela deve saber que nada sai do nada; e que mais que manjada é a dominação masculina do campo literário – para não falar do mercado editorial. Qualquer pesquisa que se baseie no gênero terá portanto vocação a revelar a urgência na liberação do verbo feminino, verbo abafado a ferro e fogo pelo patriarcalismo. E essa urgência bastaria para justificar a brevidade nas narrativas femininas publicadas no começo do século.
Paralelamente ao gênero, há porém a classe, mas o artigo de Ramos, inda que pertinente, é curto e circunscrito: por razões de protocolo, não cabem nele quaisquer análises sociológicas dos critérios sociais que determinam a brevidade na pluma das escritoras que agitam a época. Se procurássemos conhecer a categoria socioprofissional dos avós e pais de cada uma das escritoras de pavio curto que agitam a cena literária nacional, obteríamos, no entanto, constantes. Pois, ainda que permaneça viva a questão em torno da equivalência entre as leis da física e as da sociologia, já ficou mais que provado que, desde que se mantenham os critérios da investigação e da análise, os resultados apresentados pelo sociólogo são sempre os mesmos. Assim como não se pode esperar que da prole de um casal de brasileiros saia um filho falando russo, não dá para pensar que das escolas em que o esforço não é prerrogativa para o êxito saiam escritoras ou escritores com fôlego para engendrar um Guerra e Paz.
Não conseguem nem ler um romance desse tamanho, quanto mais escrever.
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Em um ensaio crítico e polêmico intitulado Contra a obscuridade7, Marcel Proust, após ter mencionado um “erro de estética” que lhe parece “destituir de talento” muitos “jovens originais” do seu tempo, acrescenta:
se é que o talento é efetivamente mais que a originalidade do temperamento, quero dizer, o poder de reduzir um temperamento original às leis gerais da arte, ao gênio permanente da língua. Esse poder faz certamente falta em muitos, mas outros, suficientemente dotados para adquiri-lo, parecem sistematicamente não pretendê-lo. Seria a dupla obscuridade que disso resulta nas suas obras – obscuridade das ideias e das imagens por um lado, obscuridade gramatical por outro – justificável em literatura?8
Como justificar tanta obscuridade em peles e águas tão cristalinas? Como justificar que tantos “jovens abastados” tenham tão pouco fôlego para redigir uma boa crítica, um bom romance?
Outra pergunta que pode ainda brotar no chapéu do encanto é: por que quase ninguém discorre sobre as leis sociais que determinam a falta de fôlego do Baby Genius e a obscuridade da sua lâmpada? Ora, simplesmente porque os detentores do microfone e da página no Brasil são esses mesmos que saem das escolas e faculdades particulares em cujo frontão se lê em filigrana: papai pagou, filhinho passou.
Se quase ninguém comenta nem a “obscuridade das ideias e das imagens” nem a “obscuridade gramatical” desses jovens abastados (que terminam literatos porque da matemática escolar nada entenderam) é porque, simplesmente, quase ninguém no campo literário e no mercado editorial sai do proletariado – e os poucos que dele saem, ou tiveram uma instrução sucateada, ou estão ocupados demais com as estratégias adulatórias que têm que adotar para garantir um lugar ao sol.
Há uma condição para que um sujeito se ponha a abordar de frente assuntos assim, uma condição para que ele se ponha a mostrar que a falta de fôlego do escritor brasileiro é produzida pela mesma escola que, mantendo a ordem colonial, faz dele um escritor.
Essa condição é não a coragem, tampouco a sagacidade, mas a barbárie.
Assim como o escritor argelino Kateb Yacine perante a brutalidade colonial francesa, eu, perante a inocência insípida e semiletrada do clubinho literário brasileiro, “sinto que tenho tantas coisas a dizer que é melhor que eu não seja demasiado culto: tenho que manter uma espécie de barbárie, tenho que permanecer bárbaro”9.
A pele da lâmpada literária brasileira continua portanto suave como a de um pêssego. Dessa frescura aveludada, o suco que sai é decerto doce. Mas não sabe Baby Genius que, desde os iambos de Arquíloco, doçura não faz Literatura. Quando somada ao crossfit, a candura, ofegante, parece mesmo sem cura. Minha persistência, todavia, tem pata de siri e perdura: escrevo, obrigado, para suturar essa pálida e pueril aventura.

O recifense Diogo Santiago iniciou sua atividade de tradutor em 2012, com uma pesquisa sobre Guerra aos demolidores, panfleto de Victor Hugo. Nas ciências sociais e humanas, já traduziu nomes como Louisa Yousfi, Nicolas Framont, Françoise Vergès, Antonio Gramsci, e Frédéric Lordon. Na literatura, além de Hugo, traduziu, por exemplo, Flaubert, Maupassant, d’Aurevilly e Baudelaire.Como autor, ele publicou, entre Lyon e Marselha, Asinus Asinum Fricat (2018), pequena seleção bilíngue de textos satíricos. De lá para cá, quatro livros seus no Brasil: O Polvo (Romance, 2022); Figuranistas (Poesia, 2023); Cinco fatias de uma dor urbana (Contos, 2024) e Concatenação (Romance, 2025). Em 2026, publicará Rumores (Contos).

Notas de Rodapé
- Alusão feita ao percurso da personagem Modus, em Sandra Lucbert & Frédéric Lordon, Pulsion, Paris, La Découverte, 2025, 608 p. Desconhecida do leitorado brasileiro, Lucbert é no entanto uma das autoras mais inovadoras da literatura contemporânea francesa. De Lordon, podemos dizer que se trata da principal cabeça pensante da atual esquerda francesa. O mais recente dos seus longos ensaios filosóficos, intitulado Figures du communisme (La Fabrique, 2021) foi traduzido por Diogo Santiago e está no prelo da editora Elefante (São Paulo). ↩︎
- “Per la libertà dela scuola”, em Il Momento, 11 de abril de 1917. Ver “Pela liberdade da escola e pela liberdade de ser burro”, tradução Diogo Santiago, Jacobin, 23 de janeiro de 2026 (por ocasião do aniversário de Gramsci), disponível na internet. ↩︎
- Luigi Credaro (1860-1939), filósofo, especialista em pedagogia, responsável pela instituição do Liceu Moderno, ministro da Instrução pública de 1910 a 1914. Pasquale Grippo (1845-1933), político, ministro da Instrução pública de 1914 a 1916. ↩︎
- Gramsci, op. cit. ↩︎
- Tânia Regina Oliveira Ramos, “Narrativas com fôlego”, Letras de Hoje, Porto Alegre, v. 42, n. 4, p. 32-41, dezembro de 2007. ↩︎
- Ibidem, p. 33. ↩︎
- Marcel Proust, “Contre l’obscurité”, Paris, La Revue Blanche, 1896 (ano da publicação do seu primeiro livro: Les Plaisirs des Jours – coletânea de poemas em prosa recentemente publicada, em 2023, pela editora portuguesa Relógio d’Água com o título Os Prazeres e os Dias, tradução Manuel João Gomes). ↩︎
- Cf. “Contra a obscuridade”, tradução Diogo Santiago, no prelo. ↩︎
- Je sens que j’ai tellement de choses à dire qu’il vaut mieux que je ne sois pas trop cultivé. Il faut que je garde une espèce de barbarie, il faut que je reste barbare. Em Louisa Yousfi, Rester barbare, Paris, La Fabrique, 2022, p. 11. Cf. Louisa Yousfi, Permanecer bárbaro – não-brancos contra o império, trad. Diogo Santiago, São Paulo, Glac & Autonomia Literária, 2025, p. 31. ↩︎